Restaurante Pizzaria O Constantino
Sabrosa
Em Sabrosa ninguém fala de comida, só de vinho, e é aí que está o erro. Entre uma posta à transmontana num bar sem pretensões e um copo de moscatel gelado em Favaios, esta é a Sabrosa que se come, não só a que se fotografa.
Sabrosa não tem estação de comboio nem monumentos de cartão postal, mas está a meia hora de tudo o que faz o Douro valer a viagem. Do Pinhão à Torre de Moncorvo, eis como organizar os dias, e as noites, a partir daqui.
Sabrosa não é uma vila, são três: o centro de café e história, as quintas de vinho nas encostas e o rio junto ao Pinhão. Cada uma pede um tipo diferente de viajante, e escolher bem muda a viagem inteira.
O Palácio de Mateus não fica em Sabrosa, fica em Vila Real, e a confusão dura há décadas. Mas a verdadeira ligação Mateus de Sabrosa, feita de vinhas velhas, quintas familiares e o berço de Fernão de Magalhães, vale muito mais do que qualquer fotografia de garrafa.
Sabrosa não é o tipo de vila que aparece nas listas de "onde ir no Douro". Fica acima do rio, no planalto, a uma altitude onde as vinhas cedem lugar a castanheiros e campos de centeio. Quem passa pelo Douro costuma ficar em Peso da Régua ou no Pinhão. Sabrosa é o concelho que engloba esses sítios mais mediáticos, mas a sede municipal, a própria vila, vive num ritmo diferente, mais seco e mais silencioso.
Dois nomes pesam na história de Sabrosa: Fernão de Magalhães e Miguel Torga. O primeiro é reivindicado como filho da terra, há uma estátua no centro e referências espalhadas pelo município, embora a ligação histórica seja debatida por investigadores. Torga, esse, nasceu de facto na freguesia de São Martinho de Anta, a poucos quilómetros da vila. A Casa-Museu Miguel Torga, inaugurada em 2022, é uma visita obrigatória para quem lê português ou simplesmente quer perceber a relação entre a literatura e esta paisagem agreste. O espaço é íntimo, centrado na infância e adolescência do escritor, e evita a monumentalidade vazia de tantos museus de autor.
A melhor razão para usar Sabrosa como base é Provesende, uma das aldeias vinhateiras classificadas do Douro, a cerca de 10 km do Pinhão. As ruas de granito, os brasões nas fachadas e a Igreja Paroquial de 1720 justificam a deslocação, mas é o trilho PR4 (6,4 km) que realmente compensa, desce pelas vinhas até à foz do rio Pinhão com vistas que dispensam comentário. Entre setembro e outubro, o Festival das Aldeias Vinhateiras anima estas ruas normalmente vazias.
Sabrosa não tem restaurantes com estrela nem menus de degustação a 80 euros. O que tem são tascas e snack-bares onde se come cabrito assado, posta barrosã e batatas a murro com azeite a sério. O Café Snack Bar Fonte Luminosa, no centro da vila, é desse registo, directo e sem pretensões. Para beber algo ao final da tarde, o Lagoa Bar é a opção mais descontraída.
Um dia inteiro chega para a vila e Provesende. Dois dias se quiser descer ao Pinhão para um passeio de barco ou visitar quintas. O melhor período é entre maio e junho, antes do calor extremo do verão duriense, ou em setembro-outubro, durante as vindimas, quando o concelho ganha uma energia que o resto do ano não tem.