Paço Ducal de Vila Viçosa
Visitar

Paço Ducal de Vila Viçosa

Fachada de mármore com 110 metros, 600 peças de cobre na cozinha e quartos reais selados em 1908 dias antes do regicídio. O Paço Ducal de Vila Viçosa é menos Versalhes do que casa de família, e isso é justamente o que o torna inesquecível.

O palácio que mudou de mãos por acidente da história

O Paço Ducal de Vila Viçosa é uma daquelas raridades em Portugal: um edifício do século XVI que ainda parece pertencer à família que o construiu. E pertence, de certa forma. A Fundação da Casa de Bragança, que o gere desde 1933, continua a tratá-lo como casa de família em vez de monumento. Isso muda tudo na visita. Não estamos a ver um palácio embalsamado para turistas, estamos a entrar numa residência onde a louça ainda está nas vitrinas, os retratos ainda olham para baixo das paredes e o mobiliário ainda ocupa os lugares para os quais foi pensado.

A morada é direta ao assunto: Terreiro do Paço, 7160-251 Vila Viçosa. O palácio ocupa todo o lado norte da praça, e a fachada de mármore branco com 110 metros de comprimento é a primeira coisa que vai impressionar. Não pelo tamanho, embora seja considerável, mas pela frieza luminosa do mármore local, extraído nas pedreiras a poucos quilómetros dali. É um material que define toda a região, e que justifica por si só uma visita demorada a Vila Viçosa em vez de uma paragem rápida.

O que ver, e o que vale realmente a pena

A visita ao palácio é guiada, e isso é importante saber antes de chegar. Não se entra sozinho, não se anda ao próprio ritmo, e a duração ronda os 60 a 75 minutos. Os bilhetes custam à volta de 8 euros para o palácio principal, mais se quiser combinar com a Armaria, a Coleção de Carruagens e o Tesouro, o que recomendo: a entrada combinada compensa, e os anexos são mais surpreendentes do que parecem no papel.

Dentro do palácio, três salas justificam por si só a visita. A Sala dos Duques, com retratos a corpo inteiro dos duques de Bragança no teto, pintados por João Glama Strobërle no século XVIII. É um daqueles tetos que obrigam a inclinar a cabeça durante minutos. A Sala de Hércules, com tapeçarias flamengas que ilustram os trabalhos do herói, em condição notável para a idade que têm. E a cozinha, no piso térreo, com mais de 600 peças de cobre alinhadas nas paredes, todas marcadas com a coroa ducal. É um espetáculo doméstico que pouca gente espera.

O que não vale a pena: insistir em ver tudo num dia. A Armaria sozinha pede 30 minutos, a Coleção de Carruagens outro tanto, e o cansaço acumulado faz com que se acabe a passar correndo pelos quartos privados do rei D. Carlos, que são justamente a parte mais comovente da casa. Estes quartos foram fechados em 1908, dias antes do regicídio em Lisboa, e nunca mais foram tocados. A escova de cabelo continua na cómoda. O calendário marca a data em que a família partiu para nunca mais voltar. É o tipo de detalhe que justifica a visita mais do que qualquer tapeçaria.

Como chegar e onde ficar

Vila Viçosa fica no Alentejo Central, a cerca de 180 km de Lisboa e 55 km de Évora. De carro são duas horas largas desde a capital pela A6 até Borba, depois mais 10 minutos pela N255. Sem carro a coisa complica-se: há autocarros da Rede Expressos, mas com horários limitados e mudanças em Estremoz. A minha sugestão prática: alugue um carro, ou faça parte de uma rota maior que inclua Évora, Estremoz e Elvas.

O palácio fica no centro histórico, a dois passos do castelo e da igreja matriz. A pé, percorre-se a vila inteira em 20 minutos. Para dormir, há duas opções que mudam o registo da viagem. A Pousada Convento de Vila Viçosa, instalada no antigo convento das Chagas, é a escolha mais histórica, com a vantagem de ficar literalmente em frente ao palácio. A Alentejo Marmòris Hotel & Spa é mais contemporânea, com um spa decente e quartos forrados a mármore que, ironicamente, lembram que a região foi construída em torno desta pedra.

Horários, reservas e o detalhe que poucos sabem

Os horários completos não estão disponíveis online de forma fiável, e mudam consoante a época. Antes de planear o dia, ligue para o +351 268 980 659 ou consulte o site da Fundação Casa de Bragança. O palácio fecha à segunda-feira, isso é certo, e em janeiro costuma estar encerrado para manutenção. Em agosto e nos fins de semana de feriado, as visitas guiadas enchem a meio da manhã, por isso vá cedo ou depois das 15h.

Não há código de vestuário, mas calçado confortável é essencial: o piso é de mármore, escorregadio quando molhado, e há escadas. Fotografias são permitidas sem flash em quase todas as salas, exceto nas que guardam tapeçarias e tecidos antigos. Cartão funciona na bilheteira, mas em algumas lojas da vila ainda é só dinheiro, por isso leve algum trocado.

O que ver depois

Sair do palácio sem visitar os jardins do Paço seria um erro. A entrada é separada, mas barata, e o Jardim do Bosque, projetado no século XVII, é um dos mais antigos do país. Há laranjeiras, fontes barrocas, e um silêncio que contrasta com a formalidade das salas. Para o resto do dia, há três caminhos lógicos. Se gosta de vinhos, faça a rota de vinhos entre Vila Viçosa e Borba, com adegas a 15 minutos de carro. Se calhar com a programação certa, vale a pena combinar a visita com um concerto da temporada de música do Paço Ducal, que decorre nas próprias salas do palácio. E se viaja em maio ou junho, consulte o calendário de festas da vila, que inclui a feira renascentista anual.

Vale a pena?

Vale, mas com a expetativa certa. O Paço Ducal não é Versalhes, e quem chega à espera de luxo dourado e salões intermináveis vai sair desiludido. O que se ganha aqui é outra coisa: a sensação rara de visitar uma casa que ficou parada em 1908, gerida por uma fundação que respeita o silêncio do edifício. Os 8 euros são bem gastos, a hora e meia passa depressa, e o café da praça ao lado serve uma bica decente para arrumar as ideias depois.