Vila Viçosa: Cinco Escapadelas de Um Dia Que Valem a Estrada
De Borba a Monsaraz, de Estremoz a Elvas: cinco escapadelas de um dia a partir de Vila Viçosa que mostram o melhor do Alentejo interior. Com dicas de transporte, mercados e vinhos.
Vila Viçosa tem o Paço Ducal, os mármores cor-de-rosa, as laranjas na praça. É uma base excelente. Mas depois de dois dias, a tentação de ficar sentado no Terreiro do Paço a beber café pode transformar-se em inércia alentejana. E o Alentejo à volta de Vila Viçosa é demasiado bom para ser ignorado.
Estas são cinco escapadelas de um dia, testáveis com carro ou, em alguns casos, com os autocarros da Rodoviária do Alentejo. Nenhuma está a mais de uma hora de distância. Todas justificam o combustível.
Borba: o vizinho que guarda o melhor vinho
Borba fica a seis quilómetros. Literalmente a porta ao lado. E no entanto, muitos visitantes de Vila Viçosa nunca lá vão, o que é um erro. Borba é uma das sub-regiões vinícolas mais importantes do Alentejo, e a Adega Cooperativa de Borba é uma das maiores e mais activas do sul de Portugal. As provas de vinho são acessíveis e sem pretensiosismo. Peça os tintos de reserva e compare com os brancos da casta Roupeiro. Se trouxer o carro, volte com uma caixa.
No centro, a Fonte das Bicas, um tanque monumental em mármore branco mandado construir por D. Maria I em 1781, domina a Praça da República. Repare nas ombreiras das portas, nos parapeitos das janelas, nos letreiros das ruas: tudo mármore. Borba não faz cerimónia com isso, usa-o como outros sítios usam betão.
Se quiser juntar uma caminhada ao programa, a Serra d'Ossa tem trilhos guiados que partem da zona entre Vila Viçosa e Redondo, com percursos entre os sobreiros e azinheiras que sobem até aos 650 metros. Os Passadiços da Serra d'Ossa, inaugurados em 2021, são 1,5 km de passadeiras de madeira junto a uma nascente, passando por antigos jardins monásticos. Não é alpinismo. É um passeio bonito com vistas sobre a planície alentejana.
Como chegar: estrada N255, dez minutos de carro. Há autocarros da Rodoviária do Alentejo, mas com Borba tão perto, até de bicicleta é viável.
Estremoz: a feira de sábado e a torre de mármore
Se só puder fazer uma escapadela, faça esta. E faça-a num sábado de manhã.
A feira semanal de Estremoz no Rossio Marquês de Pombal é um dos melhores mercados do Alentejo. Agricultores vendem fruta, legumes, azeitonas e queijos frescos. Os enchidos pendurados nos toldos parecem decoração de Natal alentejana. Há uma secção de antiguidades e artesanato onde é possível encontrar peças em barro vermelho, cortiça e couro a preços que ainda não sofreram inflação turística.
Depois do mercado, suba à cidadela. A Torre das Três Coroas, a torre de menagem do castelo, tem 27 metros de altura e é toda em mármore. O acesso faz-se pela recepção da Pousada Rainha Santa Isabel, é gratuito e aberto a não-hóspedes. Lá em cima, a vista estende-se sobre a planície até se avistar o castelo de Evoramonte no horizonte.
Passe pelo Museu Municipal, que tem uma colecção interessante de olaria tradicional de Estremoz, os célebres bonecos de barro pintados à mão que são hoje considerados Património Cultural Imaterial pela UNESCO. Há também um pátio dedicado onde pode ver oleiros a trabalhar nas figuras.
Para almoçar, não preciso de lhe dizer muito: qualquer restaurante no centro que tenha migas alentejanas ou ensopado de borrego no menu vai dar conta do recado. Confirme localmente o que está fresco nesse dia.
Como chegar: 20 minutos pela N4. Os autocarros da linha 1086 fazem o trajecto em 52 minutos, duas vezes por dia, de segunda a sexta.
Elvas: a maior cidade fortificada da Europa
Elvas é Património Mundial da UNESCO desde 2012, e merece cada letra da classificação. As muralhas abaluartadas do século XVII formam um sistema de defesa em estrela que é das mais extensas e bem preservadas fortificações da Europa. Vista de cima, a geometria militar é quase hipnótica.
Comece pelo Forte de Nossa Senhora da Graça, uma obra-prima da arquitectura militar do século XVIII com vistas panorâmicas sobre toda a região. Desça ao Forte de Santa Luzia, mais perto do centro, que alberga um museu militar envolvente. E não ignore o Aqueduto da Amoreira, sete quilómetros de arcos construídos no século XVI que ainda impressionam.
No centro histórico, a Praça da República é o ponto de descanso natural, com arcadas, cafés e a Igreja de Nossa Senhora da Assunção. Elvas tem uma especialidade que não vai encontrar em Vila Viçosa: as ameixas de Elvas, frutas cristalizadas que são um dos produtos mais emblemáticos da região. Compre-as numa loja local, não nas bombas de gasolina.
Uma nota prática: Elvas é visitável num dia inteiro, mas se for no Verão, comece cedo. As muralhas não dão sombra e o sol alentejano não perdoa.
Como chegar: 45 minutos pela A6/N4. De autocarro, há ligação via Estremoz com a Rede Expressos (bilhete simples à volta de 9€, confirme valores actualizados). Às sextas-feiras há um autocarro extra que sai de Évora às 09h00, passa por Vila Viçosa e Borba, e chega a Elvas às 10h30, com regresso às 16h00.
Monsaraz: a aldeia medieval suspensa sobre o lago
Monsaraz é aquele sítio que toda a gente já viu em fotografia e que, mesmo assim, surpreende ao vivo. A aldeia medieval está empoleirada num cume rochoso com o enorme lago Alqueva estendido lá em baixo, e as muralhas do castelo enquadram uma das vistas mais dramáticas do Alentejo.
Dentro das muralhas, a aldeia é minúscula. Duas ruas, essencialmente. Mas a Igreja Matriz, a antiga sala de audiências com os seus frescos e o miradouro junto ao castelo justificam a viagem. Se o céu estiver limpo, a luz ao final da tarde transforma o lago num espelho dourado.
Monsaraz é popular, sim. Em Agosto, as ruas enchem-se. Se puder, vá numa terça ou quarta-feira fora de época. É outra experiência.
Para quem ficar em Vila Viçosa e quiser uma base confortável para estas saídas, o Alentejo Marmòris Hotel & Spa é a escolha óbvia: um hotel instalado num edifício de mármore que leva o material local a sério, com spa incluído para recuperar dos quilómetros do dia.
Como chegar a Monsaraz: cerca de 45 minutos pela N256 e N255 via Reguengos de Monsaraz. Sem carro, a ligação de autocarro é possível mas demorada (mais de 3 horas com transbordo). Para Monsaraz, o carro é quase obrigatório.
Portalegre: tapeçarias, bairros e a mesa local
Portalegre fica mais longe, cerca de uma hora para norte. Mas é uma cidade diferente de tudo o resto nesta lista. Enquanto o Alentejo central vive do mármore e da planície, Portalegre encosta-se à Serra de São Mamede, com ar mais fresco, ruas mais íngremes e uma identidade cultural própria.
O Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino é, sem exagero, um dos melhores museus pequenos de Portugal. As tapeçarias são feitas a partir de designs de artistas como Joana Vasconcelos, usando milhares de cores de fio diferentes. É arte têxtil a um nível que não se espera encontrar numa cidade de 15 mil habitantes. Não o salte.
Depois do museu, explore os bairros da cidade velha. Se quiser um roteiro honesto, o nosso guia de Portalegre a pé cobre os bairros que realmente merecem a subida. A Catedral, predominantemente renascentista com influências barrocas, tem azulejos dos séculos XVI e XVII que vale a pena ver com calma.
Para comer, esqueça o que o Google Maps sugere primeiro. O nosso guia de onde comem os locais em Portalegre aponta os sítios certos. E se quiser transformar a escapadela num fim-de-semana, o guia para um fim de semana real em Portalegre dá-lhe o programa completo sem armadilhas turísticas.
Como chegar: uma hora pela N245 e N18. O percurso é bonito, especialmente na aproximação à serra. Há autocarros da Rede Expressos, mas os horários são limitados. Confirme localmente.
Dicas práticas para todas as escapadelas
Ter carro é a diferença entre liberdade e frustração no Alentejo interior. Os autocarros existem, mas os horários são escassos, especialmente ao fim de semana. Se alugar carro, as estradas nacionais são geralmente boas e com pouco trânsito.
Leve água. Sempre. O Alentejo entre Maio e Setembro é implacável com quem se esquece da garrafa.
Almoce cedo. Os restaurantes locais servem almoço entre as 12h00 e as 14h30. Depois disso, boa sorte. É o Alentejo, não Barcelona.
E uma última nota: estas cinco escapadelas podem ser feitas em dias separados, ou combinadas. Borba e Estremoz cabem facilmente no mesmo dia. Elvas funciona bem sozinha. Monsaraz também. Portalegre pede um dia inteiro, ou até dois se seguir os nossos guias. A ordem é sua, o Alentejo não tem pressa.