Vila do Porto ao Amanhecer: Cagarros e o Forte de São Brás
Levantar-se às cinco e meia para ouvir cagarros no Miradouro da Macela, comer uma queijada quente no paredão e descobrir o Forte de São Brás antes dos cargueiros chegarem. Um manual de uma noite e dois cafés na vila mais antiga dos Açores.
Às cinco e meia da manhã, Vila do Porto ainda está a decidir se vale a pena acordar. As gaivotas ainda dormem, o padeiro da Rua Dr. Teófilo Braga acaba de abrir o postigo, e há uma luz cor de chá fraco a subir do lado de São Lourenço. É a esta hora, e só a esta hora, que se compreende porque é que esta vila, a mais antiga povoação dos Açores, ainda tem cara de quem chegou primeiro e ficou a olhar para o mar com paciência. Os outros turistas estão em Ponta Delgada a discutir se vão à lagoa ou às termas. Você está aqui, com um café no bolso e os cagarros a chamar do penhasco.
Este artigo é um pedido directo: passe pelo menos uma noite em Santa Maria, e use-a bem. Não venha de manhã no avião da SATA e regresse à tarde julgando que viu a ilha amarela. Vila do Porto recompensa quem fica até o segundo café e quem sabe que o melhor passeio do dia não é à uma da tarde, é antes do nascer do sol e outra vez ao fim da tarde, quando o forte muda de cor.
Porquê os cagarros, e porquê às escuras
O cagarro, ou Calonectris borealis, é a ave marinha que define o som da noite açoriana entre Maio e Outubro. Põe ovos em ninhos cavados nas falésias, sai a pescar ao largo durante o dia, e regressa quase sempre depois do anoitecer. O grito, e é mesmo um grito, faz lembrar um bebé contrariado misturado com gato em discussão. Da primeira vez assusta. Da segunda vez é o som que faz Santa Maria não ser igual a outra ilha qualquer.
Em Vila do Porto, os melhores postos de escuta e observação ficam ao longo do paredão da vila, entre o porto e a zona do Cabrestante, mas o sítio onde a coisa funciona melhor é um pouco mais a oeste, no Miradouro da Macela. Chegue trinta a quarenta minutos antes do nascer do sol, leve uma lanterna de cabeça com filtro vermelho (luz branca enxota as aves), uma camisola a mais, e a paciência de quem não vai estar a olhar para o telemóvel. Os cagarros não fazem pose. Ou está atento, ou perde.
Conselho prático: as observações nocturnas organizadas funcionam de Junho a Outubro e são quase sempre baratas (entre 10 e 20 euros por pessoa), com guias do parque natural. Mas se preferir ir sozinho, o silêncio é melhor. Não acenda fogueiras, não fume perto das colónias, e por amor de tudo o que é sagrado nesta ilha, não toque nem em ovos nem em crias caídas. Há uma linha de SOS Cagarro durante o mês de Outubro, quando os jovens se desorientam com as luzes da vila e caem em terra: encontra-se uma ave atordoada, mete-se numa caixa de sapatos com furos, e leva-se ao posto de recolha local. É das melhores boas acções que se faz numa viagem.
O nascer do sol no paredão
Depois da escuta, fique. Volte para o centro a pé, demore o tempo que demorar, porque a luz das seis e meia em Vila do Porto é uma coisa que nem o Instagram consegue arruinar. O paredão branco com a faixa amarela, o casario baixo, as chaminés brancas em ramalhete, as basaltadas pretas a marcarem as portas. Vila do Porto tem o tom de cal mais pacífico dos Açores, sem a ostentação barroca de Angra nem a pressa de Ponta Delgada.
Quem quiser café às sete da manhã tem opção: a padaria da Rua Teófilo Braga abre cedo, e o pastel de massa tenra (sim, é uma coisa local, salgado, recheado de carne) custa pouco mais do que uma moeda. Pergunte se há queijadas da Vila, ainda quentes, e leve duas. Uma para agora, outra para o forte.
A caminhada até ao Forte de São Brás
Do centro da vila ao Forte de São Brás de Vila do Porto são cerca de dez minutos a pé. Não é uma caminhada épica. É um passeio com sentido. Saia da Rua Dr. Luís Bettencourt, desça em direcção ao mar, e quando o casario abrir o forte aparece à direita, plantado num promontório basáltico que parece ter sido feito de propósito para ele.
O forte foi mandado construir no século XVI, depois de um ataque corsário que pôs Vila do Porto a saque (1576, para quem gosta de datas). A versão actual é do século XVIII, com baluartes em estrela, paredes espessas de pedra negra e uma vista para a baía que é provavelmente a melhor da ilha. Hoje em dia tem usos cívicos e ocasionalmente abre para visitas. Confirme localmente os horários antes de subir; pode estar fechado ao público em dias de semana.
Mas mesmo fechado, o forte vale o passeio. Há um pequeno largo defronte, com um banco de pedra mal cortada onde se senta uma pessoa decente, e dali vê-se o porto comercial, o paredão, a curva da baía e, com sorte, um cargueiro a chegar de Lisboa. Coma a segunda queijada aqui. Não há melhor sítio para a comer.
O detalhe que ninguém vê
Olhe para o chão. As lajes de basalto à entrada do forte têm marcas de canhoneiras, e há um trecho de muralha onde se vê claramente o reforço posterior, mais claro, sobre a pedra original mais escura. É o tipo de detalhe que não está em placa nenhuma e que só se vê se ficarmos cinco minutos parados. A maioria dos visitantes faz a fotografia, vira costas, vai-se embora. Você não.
Onde comer (sem cair no menu de turista)
Vila do Porto não é Lisboa. Não há trinta restaurantes a brigarem por uma estrela. Há meia dúzia de sítios bons, mais alguns aceitáveis, e o resto fecha cedo. Aprenda a comer cedo: almoço entre as doze e meia e as duas, jantar entre as sete e as nove. Quem chega às nove e meia muitas vezes encontra a cozinha já a fechar.
- Para almoço de domingo: peça sopa de nabos (uma especialidade marienense, mesmo quando os nabos são da época) e uma chicharro grelhado. O chicharro fresco em Santa Maria é coisa séria, mais pequeno e mais saboroso do que o que se encontra no continente.
- Para experimentar uma vez: a alcatra à moda da terra, em pucarinho de barro, com molho de vinho e cebola. Não é fácil de encontrar em todo o lado, mas vale perguntar.
- Para o cafezinho da tarde: queijadas da Vila e bolo D. Amélia. O bolo D. Amélia é tecnicamente do Faial, mas estendeu-se a todos os Açores e em Santa Maria fazem-no muito bem.
- Para evitar: qualquer ementa com bandeiras desenhadas e tradução em quatro línguas. Não está em Lisboa, e ainda bem.
O vinho local merece atenção. Santa Maria não tem a produção do Pico, mas há pequenos vinhos da casa, brancos secos, que combinam bem com peixe. Peça o da casa antes de pedir o caro. Em nove vezes em dez, o da casa ganha.
Se ficar mais um dia: o resto da ilha
Santa Maria é a única ilha açoriana com praias de areia clara, e isso muda tudo. Se Vila do Porto é a base, a Praia Formosa é o sítio onde se vai pelas tardes longas. Mas há também os trilhos do interior, as zonas dos Anjos (onde Colombo desembarcou no regresso da primeira viagem), e o miradouro do Espigão. Para quem quer fazer tudo sem stress, recomendo a experiência guiada de trilhos e praias com a SMATUR, que combina pedestrianismo com paragens em sítios que de carro alugado se passa sem ver.
Reserve com antecedência. A ilha é pequena, os guias são poucos, e em Agosto enche.
Como chegar, onde dormir, o que vestir
Chega-se a Santa Maria de avião, por Ponta Delgada ou directamente de Lisboa em alguns voos da SATA. O aeroporto fica a três quilómetros de Vila do Porto, e o táxi até ao centro custa cerca de 7 a 10 euros. Há aluguer de carros à porta, e é o que recomendo se ficar mais de um dia.
Dormir: a oferta é maioritariamente de alojamento local, casas tradicionais restauradas com chaminé branca e quintal de hortênsias. Para uma noite com vista para o mar, escolha algo na zona alta da vila ou na descida para o porto. Em alta época (Julho a meados de Setembro) os preços sobem e a disponibilidade desaparece. Em Maio, Junho e Outubro, está tudo aberto e custa metade.
Vestir: traga camadas. Sim, é a ilha mais quente dos Açores, mas a ilha mais quente dos Açores ainda é uma ilha no meio do Atlântico. De manhã está fresco. À tarde, com sol, suam-se as estopinhas. À noite, junto ao mar, volta o casaco. Sapatos com sola decente, porque o basalto molhado escorrega.
Vila do Porto não é Horta, e ainda bem
Se já leu o nosso guia de 24 horas na Horta, sabe que cada ilha açoriana tem o seu carácter. Horta é cosmopolita, faz noite, recebe veleiros de todo o mundo no Peter Café Sport. Vila do Porto é o oposto: introvertida, agrícola, ligada ao mar mas sem o glamour náutico. Tem outra escala. Quem procura o burburinho da vida de rooftops da Horta não vai encontrar isso aqui. Quem procura uma rua deserta às sete da manhã com cheiro a pão quente e o som de um cagarro, sim.
E a cozinha? Diferente também. Se a sua viagem aos Açores incluir Ponta Delgada, vale a pena ler o nosso guia gastronómico de Ponta Delgada para perceber as diferenças. Em São Miguel há cozido das Furnas, sopas do Espírito Santo em maior escala, restaurantes de chef. Em Santa Maria há pratos de casa, peixe da hora, e poucos sítios. Não é melhor nem pior. É outra coisa.
O regresso, e o que fica
Quando regressar ao Forte de São Brás ao fim da tarde, leve outra queijada. A luz das seis e meia em Junho é diferente da das oito e meia em Agosto, mas em qualquer mês há um momento em que o forte fica cor de telha velha e o mar lá em baixo passa de verde a tinta. Fique quieto. Não tire fotografias. Deixe o telemóvel no bolso. É um dos poucos sítios em Portugal onde o silêncio não foi ainda inventado por uma marca de hotéis.
No dia seguinte vai para a praia, ou para os Anjos, ou para o avião. Mas a memória que fica de Vila do Porto não é dos sítios turísticos. É da padaria às seis e meia, do cagarro a chorar na falésia, do forte a mudar de cor enquanto come a segunda queijada. Isso, sim, é a ilha amarela que ninguém lhe disse que existia.