Forte de São Brás de Vila do Porto
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Forte de São Brás de Vila do Porto

Em cima da Rocha, este forte do século XVI guarda dentro das muralhas a primeira igreja paroquial de Santa Maria. Sem bilheteiras, sem autocarros, com vento e a vista certa para o porto de Vila do Porto.

O Forte de São Brás está em cima da Rocha, a olhar para o porto de Vila do Porto como quem vigia uma entrada de casa. Foi construído no século XVI, durante o período filipino, com uma função muito concreta: travar piratas e corsários que andavam a fazer das suas pelas rotas atlânticas. Santa Maria foi a primeira ilha avistada por Diogo de Silves em 1427, e, durante séculos, isso significou também ser a primeira a apanhar com os ataques. O forte é a resposta de pedra a esse problema.

O que se vê quando se chega lá acima

A morada oficial é Cimo da Rocha, 9580 Vila do Porto, e o nome diz tudo: estamos no topo da escarpa que fecha o porto a sul. De baixo, do cais, vê-se a estrutura recortada contra o céu, baixa e teimosa, como tantas fortificações açorianas que privilegiam a função sobre a aparência. De cima, o que se ganha é o ângulo: a baía em U, o mar a bater contra a rocha basáltica, e, em dias limpos, a linha do horizonte interrompida apenas pelo vulto distante de São Miguel.

Dentro das muralhas existe a Capela de Nossa Senhora da Conceição, e este é o detalhe que muita gente não percebe à primeira: foi a primeira igreja paroquial de Santa Maria. Antes de haver a Igreja Matriz que hoje domina o centro de Vila do Porto, era aqui que se rezava. A capela é pequena, sóbria, com aquela cal branca que define a arquitectura religiosa açoriana, e tem a particularidade de estar dentro de uma estrutura militar, o que sempre me pareceu a metáfora mais honesta da vida nestas ilhas: rezar e defender, em simultâneo, no mesmo edifício.

Como chegar e quando ir

De avião, voa-se para o Aeroporto de Santa Maria (SMA), que está a poucos minutos de carro do centro de Vila do Porto. Do centro até ao forte são uns dez minutos a pé, em subida moderada, ou três de carro. Se vier de barco, melhor ainda: o forte fica literalmente a olhar para o cais. A subida a pé é a melhor opção, porque permite perceber a lógica defensiva do sítio, ir vendo o porto a abrir-se e a ilha a baixar à sua direita.

A entrada é económica (categoria de preço €), o que torna a visita acessível a qualquer orçamento. Os horários e contactos não estão disponíveis de forma fiável online, e o forte nem sempre está aberto ao público interior. Confirme diretamente no Posto de Turismo de Vila do Porto antes de subir, sobretudo se quiser ver a capela por dentro. Mesmo que esteja fechado, o exterior e o miradouro natural sobre o porto compensam a caminhada.

Dicas práticas que ninguém lhe diz

  • Vá ao final da tarde, entre as 17h e o pôr do sol. A luz que bate na pedra é dourada e o vento abranda. De manhã, o sol está do outro lado e o forte fica em contraluz.
  • Leve sapatos com alguma aderência. A rocha à volta é irregular e, com humidade, escorrega.
  • Não há café no forte, nem casas de banho. Beba e abasteça-se no centro de Vila do Porto antes de subir.
  • Vento. Há sempre vento. Um corta-vento fino faz mais por si do que um casaco grosso.
  • Não se vê tudo em cinco minutos, mas também não precisa de duas horas. Trinta a quarenta e cinco minutos chegam, se for só ver. Se for fotografar, leve uma hora.

O que fazer a seguir

Vila do Porto é pequena e tudo se faz a pé ou em rotações curtas de carro. Se quiser continuar a apanhar vistas, suba ao Miradouro da Macela, que oferece outra perspectiva sobre a costa sul e os campos a perder de vista. É um dos pontos mais altos da zona e funciona muito bem como complemento ao forte: um é defensivo e baixo, o outro é aéreo e amplo.

Se gosta de explorar com método, recomendo seguir o nosso guia sobre o lado da ilha que ninguém procura, que descreve o circuito menos óbvio entre a vila, as fajãs e os baixios. Para quem está a pensar onde almoçar depois, vale a pena ler o nosso roteiro dos queijos dos Açores que ninguém conhece: Santa Maria tem uma produção de queijo curado que sobrevive em pequenas mercearias e que faz mais sentido como almoço do que qualquer ementa turística.

O bairro: Cimo da Rocha

Cimo da Rocha não é um bairro no sentido lisboeta. É a designação topográfica de uma elevação que delimita o porto. À volta do forte há habitação dispersa, muros baixos de pedra escura, hortas, alguma vinha encavalada nos socalcos. É uma zona residencial e silenciosa, e a melhor forma de a perceber é caminhar sem GPS durante meia hora. Os carros são poucos e os cães ladram pouco. Cumprimenta-se quem se cruza, e, em geral, recebe-se cumprimento de volta.

Porque é que isto importa

Os fortes açorianos não são castelos no sentido medieval continental. São construções pragmáticas, baixas, adaptadas à pólvora e à artilharia naval, com muralhas espessas e canhoneiras estreitas. O Forte de São Brás é um manual destes princípios, à escala mariense. Não tem o aparato de São Sebastião em Angra ou de São João Baptista no Monte Brasil, mas tem algo que esses não têm: silêncio. Não há autocarros de turistas, não há bilheteiras com filas, não há bares de souvenirs. Há a pedra, a capela, o vento e o porto. Se procura entender porque é que Santa Maria é a ilha mais antiga do arquipélago em termos de povoamento, comece aqui. Vila do Porto não foi escolhida ao acaso, e este forte explica metade da razão. A outra metade está nos campos de papoilas e na ilha como um todo, e essa, deixo para outras visitas, talvez ao continente, talvez ao roteiro das papoilas no Alentejo em Maio.