Vila do Porto: O Lado da Ilha Que Ninguém Procura
Toda a gente vai directa a São Lourenço. Entretanto, Vila do Porto guarda fósseis de 10 milhões de anos, um deserto vermelho surreal e o povoado mais antigo dos Açores. A ilha mais esquecida do arquipélago é, por isso mesmo, a mais interessante.
Toda a gente que voa para Santa Maria vai directa a São Lourenço. É compreensível. A baía é espectacular, as fotos enchem o Instagram e o cenário de falésias sobre areia branca justifica o epíteto de "Algarve dos Açores". Mas quando todo um voo charter despeja passageiros no mesmo postal ilustrado, alguma coisa se perde. E o que se perde, em Santa Maria, é quase tudo o resto.
Vila do Porto é a capital mais velha dos Açores. Não no sentido vago de "tem história". No sentido literal: Gonçalo Velho Cabral fundou aqui o primeiro povoado do arquipélago em 1432, antes de qualquer alma viva se instalar em São Miguel ou na Terceira. A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, a meia encosta do centro, é uma das mais antigas de todo o arquipélago. E no entanto, a maioria dos visitantes passa por Vila do Porto como quem passa por um aeroporto: é o sítio onde se aluga o carro antes de seguir para a praia.
Erro. Vila do Porto merece pelo menos uma manhã inteira, de preferência antes das dez, quando as ruas ainda cheiram a pão fresco e os cafés têm meia dúzia de locais a tomar bica ao balcão.
Uma capital com 1900 habitantes e um forte do século XVII
Vila do Porto tem uma escala que torna tudo walkable. A rua principal desce em linha recta até ao porto, e o Forte de São Brás, construído no século XVII para defender a ilha dos corsários, fica a poucos minutos a pé do centro. Não espere um castelo grandioso. É uma estrutura modesta, como convém a uma ilha que nunca teve pretensões imperiais, mas a vista sobre o porto e o Atlântico compensa.
A marina é pequena e funcional. Nos meses de verão, veleiros de travessia atlântica fazem escala aqui. Se tiver sorte, apanha um ou dois velejadores no café a contar histórias de cruzamentos do oceano. É esse o ritmo de Vila do Porto: lento, despreocupado e genuinamente desinteressado em impressionar.
O deserto vermelho e os fósseis que contam 10 milhões de anos
A maioria dos guias turísticos menciona o Barreiro da Faneca como curiosidade. Na prática, é uma das paisagens mais estranhas que vai encontrar em Portugal. Chamam-lhe o "Deserto Vermelho dos Açores", e o nome não exagera: uma extensão de terra argilosa, avermelhada, sem vegetação, que parece transplantada do sul de Marrocos para o meio do Atlântico. Há um percurso pedestre ao longo da sua orla, com painéis informativos que explicam a geologia. Leve água e protector solar. Não há sombra.
Mais surpreendente ainda é a Pedreira do Campo, a cerca de um quilómetro a leste de Vila do Porto. É uma pedreira abandonada, outrora usada para extrair basalto, que se revelou um tesouro paleontológico de importância internacional. Nas suas rochas sedimentares encontram-se fósseis marinhos com milhões de anos: dentes de tubarão, conchas, ouriços-do-mar, até ossos de cetáceos. Santa Maria emergiu do fundo do mar há cerca de 10 milhões de anos, e a Pedreira do Campo é a prova viva, ou melhor, a prova petrificada. O Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, no centro de Vila do Porto, contextualiza tudo isto com colecções de fósseis e exposições sobre a biodiversidade local.
Se gosta de geologia, isto é motivo suficiente para visitar a ilha. Se não gosta, prepare-se para mudar de ideias.
A vista que justifica a viagem
Fala-se muito dos miradouros de São Lourenço, e com razão. Mas o Miradouro da Macela oferece algo diferente: uma panorâmica sobre o interior da ilha e o oceano que, em dias limpos, se estende até onde a vista alcança. É o tipo de sítio onde se fica em silêncio, não por obrigação mística, mas porque genuinamente não há nada para dizer. O vento faz o resto.
Chegue de manhã cedo, antes dos grupos organizados. Ao final da tarde, a luz também é excelente para fotografias, mas vai ter mais companhia.
Caminhar Santa Maria a sério
Santa Maria tem uma rede de trilhos que rivaliza com qualquer outra ilha dos Açores, mas com uma fracção dos caminhantes. O problema é que a sinalização nem sempre é brilhante, e algumas rotas exigem um mínimo de planeamento.
A melhor forma de explorar os trilhos sem preocupações logísticas é através dos trilhos e praias de Santa Maria com a SMATUR, que combina caminhadas pelos percursos mais interessantes da ilha com paragens nas praias ao longo do caminho. É o tipo de experiência que transforma um dia de férias num dia que realmente se recorda.
Se preferir caminhar sozinho, o trilho de São Lourenço é o mais popular, mas considere o percurso entre o Barreiro da Faneca e a costa norte. Menos gente, paisagem mais variada, e a sensação de ter a ilha inteira para si.
O que comer (e beber) em Santa Maria
A gastronomia de Santa Maria é a dos Açores, com particularidades. Comece pelo óbvio: lapas grelhadas com manteiga de alho e cracas, se as encontrar frescas. A sopa de peixe é excelente em quase toda a ilha. A caldeirada de peixe, mais substancial, é o tipo de prato que se come num almoço longo, de preferência com vista para o mar.
A alheira de Santa Maria merece destaque. Não é exactamente igual às transmontanas. Aqui serve-se tipicamente com batata frita e ovo estrelado por cima, num prato sem pretensões que se come em qualquer restaurante local.
Nos doces, os suspiros são obrigatórios: leves, doces, aéreos. As cavacas, crocantes e cobertas de calda de açúcar, são o snack perfeito para levar numa caminhada. E os biscoitos de orelha, triangulares e discretos, são o que se come ao pequeno-almoço quando se quer fazer como os locais.
Mas o verdadeiro teste de curiosidade é o vinho de cheiro. Feito a partir da casta Isabella (uva americana), tem um aroma intenso, teor alcoólico mais baixo e um sabor ligeiramente adocicado que divide opiniões. Os puristas do vinho torcem o nariz. Ignore-os. Num final de tarde quente, numa esplanada em Vila do Porto, um copo de vinho de cheiro faz todo o sentido.
Onde comer
O Tibério, em Vila do Porto, é uma escolha segura para cozinha açoriana de conforto. Sem grandes surpresas, mas com hospitalidade genuína e doses generosas. A Mesa d'Oito é mais sofisticada, para quem quer uma refeição mais cuidada. Para algo informal, o Central Pub funciona como ponto de encontro local, com opção de petiscos. Confirme horários localmente, especialmente fora da época alta, pois nem tudo opera com regularidade.
O contexto açoriano
Se Vila do Porto é o ponto de partida, vale a pena enquadrar a visita no contexto do arquipélago. Se voar via Horta, o nosso guia sobre Horta em 24 horas ajuda a tirar partido de uma escala. E para quem quer comparar panorâmicas insulares, as melhores vistas da Horta são um bom ponto de referência.
Se a sua rota passa por São Miguel, não perca a oportunidade de explorar a gastronomia de Ponta Delgada. A comparação entre as cozinhas das duas ilhas é fascinante: São Miguel é vulcânica e exuberante, Santa Maria é calcária e discreta.
Logística prática
Santa Maria tem voos regulares a partir de Ponta Delgada (São Miguel), operados pela SATA/Azores Airlines. O voo dura cerca de 30 minutos. Em época alta, reserve com antecedência: os aviões são pequenos e enchem depressa.
Alugar carro é quase obrigatório. A ilha é pequena (cerca de 97 km²), mas o transporte público é escasso. Os preços de aluguer variam, mas espere algo entre 30 e 50 euros por dia em época alta. Confirme localmente.
Vila do Porto tem alojamento limitado. Há algumas guest houses e casas rurais, mas nada à escala de São Miguel ou da Terceira. Reserve com antecedência, especialmente em Agosto, quando o festival Maré de Agosto atrai visitantes de todo o arquipélago.
O clima de Santa Maria é o mais quente e seco dos Açores. A ilha é conhecida como Ilha do Sol, e a alcunha é merecida. Mesmo assim, leve um casaco para os miradouros. O vento no topo da ilha não brinca.
Para quem é Vila do Porto
Vila do Porto não é para quem quer animação nocturna, resorts de cinco estrelas ou menus em inglês com fotografias dos pratos. É para quem quer perceber como era o Atlântico antes de toda a gente descobrir os Açores. É a ilha mais velha, a mais seca, a mais esquecida. E é exactamente por isso que funciona.
Se procura espectáculo, vá a São Lourenço. Se procura um sítio onde o tempo abranda de verdade, fique em Vila do Porto mais um dia do que planeou. Vai encontrar fósseis de 10 milhões de anos, um deserto vermelho que não faz sentido nenhum, e vinho que cheira a fruta de Verão. É suficiente.