Tomar: Os Templários Além do Convento de Cristo
O Convento de Cristo é só o início. De Santa Maria do Olival, onde Gualdim Pais está sepultado desde 1195, à sinagoga medieval da Rua Dr. Joaquim Jacinto e aos 180 arcos do Aqueduto dos Pegões, Tomar esconde uma cidade templária inteira abaixo da colina.
A maioria dos visitantes chega a Tomar, sobe ao Convento de Cristo, tira fotografias na janela manuelina e vai embora. É um erro monumental. Não por causa do Convento, que é extraordinário, mas porque a cidade que vive lá em baixo, ao longo do Nabão, guarda os vestígios mais reveladores da presença templária em Portugal. E quase ninguém lhes presta atenção.
A igreja que veio antes do Convento
Comece por onde os templários começaram: a Igreja de Santa Maria do Olival, na margem esquerda do rio, um pouco afastada do centro. Foi mandada reconstruir por Gualdim Pais em 1160, sobre as ruínas de um mosteiro beneditino, e serviu como panteão dos mestres templários. É aqui, não no Convento, que Gualdim Pais foi sepultado quando morreu em 1195. A inscrição funerária original ainda se pode ver, embora dos vários túmulos de cavaleiros que aqui existiram, apenas quatro sobreviveram a uma desastrosa campanha de obras no século XVI.
A igreja é gótica, austera, e merece pelo menos meia hora de atenção. Repare na rosácea da fachada principal, que serviu de modelo a igrejas por todo o império português, e nas lápides no chão da nave. Se apanhar o espaço vazio, que é frequente fora de Agosto, a luz que entra pelas janelas laterais ao fim da manhã vale o desvio.
A Sinagoga e o outro lado da história
De Santa Maria do Olival, caminhe para o centro histórico e procure a Rua Dr. Joaquim Jacinto. A Sinagoga de Tomar, construída em 1438, é uma das mais bem conservadas sinagogas medievais da Península Ibérica. Vista de fora, não diz nada: fachada de calcário sem qualquer ornamento. Lá dentro, quatro colunas elegantes sustentam a sala de oração, representando, segundo a tradição, as quatro matriarcas de Israel: Sara, Rebeca, Raquel e Lia.
A comunidade judaica prosperou em Tomar até 1496, quando a conversão forçada ordenada por D. Manuel I dispersou tudo. Hoje funciona como Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto. A entrada é gratuita, e é uma visita que demora vinte minutos mas muda a perspectiva sobre a cidade. Tomar não foi apenas templária: foi um ponto de encontro entre culturas que a História tratou de separar.
A Mata dos Sete Montes: 39 hectares de silêncio
Se o Convento de Cristo é a parte monumental da colina, a Mata dos Sete Montes é a sua sombra verde. São 39 hectares de parque que envolvem as muralhas do castelo, com oliveiras centenárias, pinheiros e carvalhos. A tradição diz que era aqui que se realizavam rituais iniciáticos dos cavaleiros. Verdade ou não, o que é certo é que este é um dos melhores sítios em Tomar para fugir ao calor do Ribatejo, que entre Junho e Setembro não perdoa.
A entrada é livre e pode combinar a visita ao Convento com uma descida pela mata, em vez de voltar pelo mesmo caminho. Há trilhos marcados e, se for de manhã cedo, é provável que cruze mais esquilos do que pessoas. A partir do Miradouro do Castelo de Tomar, tem uma vista aberta sobre o vale do Nabão e a cidade, que ao nascer do sol parece um modelo à escala lá em baixo.
O Aqueduto dos Pegões: a engenharia que ninguém visita
A cerca de dois quilómetros do centro, o Aqueduto dos Pegões é provavelmente o monumento mais impressionante de Tomar que quase nenhum turista visita. Construído a partir de 1593, durante o domínio filipino, para abastecer o Convento de Cristo com água de quatro nascentes diferentes, estende-se por cerca de seis quilómetros com 180 arcos. Nos pontos onde cruza os vales mais profundos, os arcos sobrepõem-se em dois níveis e a escala é genuinamente surpreendente.
Pode caminhar ao longo de partes do aqueduto. Não há bilheteira nem guia, apenas o monumento e o campo à volta. O acesso é pelo caminho que parte da estrada de Leiria (N113). Se tiver carro, não custa nada; se não tiver, considere um táxi local, que não deverá custar mais de 5 a 7 euros desde o centro.
O Mouchão e o rio que organiza tudo
O Parque do Mouchão é a sala de estar de Tomar. Situado numa pequena ilha no meio do Nabão, acessível por pontes pedonais, é onde os tomarenses vão ler o jornal, passear o cão ou simplesmente ver a roda de água a girar. A roda é decorativa mas fotogénica, e o parque é o ponto de partida ideal para percorrer as margens do rio em direcção à Ponte Velha, a travessia quinhentista que liga o centro histórico ao lado sul da cidade.
A meio da ponte, pare. De um lado, os telhados apertados do centro; do outro, a silhueta do Convento de Cristo no alto da colina. É talvez a melhor vista de Tomar sem qualquer esforço físico. Se gosta de perspectivas aéreas e quer algo mais radical, a experiência de parapente sobre Tomar põe tudo isto a uma escala diferente.
Comer em Tomar: sem complicações
A cozinha de Tomar é ribatejana, directa e sem pretensões. Procure fatias de Tomar nos cafés do centro: um doce conventual de ovos e amêndoa que é menos conhecido do que devia. Nos restaurantes, peça cabrito assado se estiver na época, ou miga de bacalhau. A beija-me-depressa, outra receita local de enchidos, aparece em alguns tascas mais tradicionais. Não vou recomendar restaurantes específicos porque a rotatividade e a qualidade variam, mas o conselho é simples: fuja dos estabelecimentos com ementas em seis línguas junto ao Convento e desça para as ruas entre a Praça da República e o rio.
Na Praça da República, aliás, está a Igreja de São João Baptista, com um portal manuelino que rivaliza em detalhe com muita coisa no Convento. Sente-se numa esplanada da praça, peça um café e uma fatia de Tomar, e olhe para o portal com calma. Não há pressa.
A Festa dos Tabuleiros: se acertar no ano
A Festa dos Tabuleiros acontece de quatro em quatro anos e transforma Tomar completamente. Mulheres desfilam pela cidade com tabuleiros na cabeça, estruturas de canas, pães e flores de papel coroadas pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. O desfile percorre cerca de cinco quilómetros pelas ruas da cidade. As origens são disputadas: há quem as ligue ao culto do Espírito Santo promovido pela Rainha Santa Isabel, há quem veja raízes pagãs.
O que interessa é que, no ano certo, Tomar enche-se como em mais nenhuma ocasião. Se planeia visitar durante a festa, reserve alojamento com muita antecedência. Se não acertar no ano, pelo menos sabe que a cidade tem esta camada festiva por baixo da superfície templária.
Como encaixar Tomar num roteiro
Tomar está a cerca de hora e meia de Lisboa pela A1 e A23. De comboio, a ligação desde Lisboa-Santa Apolónia demora cerca de duas horas, com uma mudança em Entroncamento. O bilhete de ida custa à volta de 10 a 12 euros, confirme nos horários da CP.
Um dia inteiro é o mínimo razoável: manhã no Convento e na Mata dos Sete Montes, almoço no centro, tarde na Sinagoga, Santa Maria do Olival e passeio pelo Mouchão. Se tiver dois dias, acrescente o Aqueduto dos Pegões e um passeio sem rumo pelas ruas ao fim do dia, quando o calor abranda.
Tomar encaixa perfeitamente num roteiro de uma semana pelo centro de Portugal, combinado com paragens em Coimbra, onde os murais de arte urbana da Alta são outra surpresa que poucos esperam, ou com uma descida pela costa até Caldas da Rainha, com excelentes trilhos para explorar na zona.
Mas Tomar, acima de tudo, pede-se que não se tenha pressa. A cidade não é grande, os monumentos não são muitos, e o rio corre devagar. A tentação de despachar tudo numa manhã é forte. Resista. Os templários ficaram aqui séculos. Dê-lhes pelo menos um dia inteiro.