Setúbal: Onde Beber Café Entre o Rio e a Serra
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Setúbal: Onde Beber Café Entre o Rio e a Serra

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Em Setúbal, o café não é um acessório de lifestyle, é um rito de passagem. Descubra onde encontrar o melhor 'Esse de Setúbal', as queijadas que fazem sombra às de Sintra e o balcão onde o peixe e a cafeína se cruzam no Mercado do Livramento.

O Ritual do Café na Margem Sul do Sado

Esqueça a Lisboa polida dos brunches de vinte euros e das tostadas de abacate instagramáveis. Setúbal não tem paciência para isso. Aqui, o café ainda é uma questão de sobrevivência, de política de bairro e de uma certa resistência à gentrificação que já devorou o Cais do Sodré. Beber um café em Setúbal é, antes de mais, um exercício de observação. É ver os pescadores reformados no Bairro do Troino a discutir o preço do choco enquanto o vapor da máquina de café encobre os azulejos gastos de uma qualquer pastelaria sem nome.

Se procura a verdadeira essência da cidade, comece pela Praça de Bocage. É o coração pulsante, onde a estátua do poeta observa com um desdém irónico a azáfama dos pombos e dos turistas que tentam decidir onde sentar. Enquanto a cultura local em Lisboa se tornou um produto de exportação, em Setúbal ela ainda cheira a gasóleo dos barcos e a salitre.

Café Central: O Miradouro da Praça

O Café Central não é o sítio onde vai encontrar grãos de especialidade da Etiópia com notas de bergamota. É o sítio onde vai pedir uma bica, curta, escaldada se for esse o seu fetiche, e um "Esse de Setúbal". Este biscoito em forma de S, seco, com um toque de limão e canela, é o teste de aferição de qualquer pastelaria setubalense que se preze. No Central, o serviço é rápido, por vezes brusco, mas sempre eficiente. O custo? Pouco mais de um euro pelo café. É o preço justo para o melhor lugar da cidade para ver a vida passar.

O que pedir: Uma bica e um Esse de Setúbal. Se estiver com fome, a torrada em pão de carcaça, com manteiga a escorrer, é obrigatória. Evite as sandes pré-feitas na vitrine; foque-se no que sai da torradeira.

O Mercado do Livramento: Café entre o Choco e os Azulejos

Dizem que é um dos melhores mercados do mundo, e quem o diz não está a exagerar. Mas esqueça o peixe por um momento. Vá aos pequenos balcões no fundo do mercado, perto da parede de azulejos que conta a história da faina. Ali, o café bebe-se de pé, encostado ao balcão de inox. É o sítio para ouvir o verdadeiro dialeto de Setúbal. Não há aqui a pretensão que encontra quando faz passeios a partir de Cascais, onde tudo parece desenhado para um editorial da Monocle.

No mercado, o café serve para empurrar uma Queijada de Setúbal. Ao contrário da sua prima de Sintra, que pode descobrir no nosso guia de bairros de Sintra, a queijada de Setúbal é mais densa, menos doce e com um sabor a queijo mais pronunciado. É um pequeno disco de energia pura.

490 Coffee: A Exceção da Especialidade

Para quem não abdica de um flat white ou de um V60, o 490 Coffee na Avenida Luísa Todi é o oásis necessário. É um espaço minimalista que parece ter sido teletransportado de Berlim, mas que mantém os pés assentes na terra. É o sítio onde a nova Setúbal se encontra: jovens criativos, nómadas digitais e locais que descobriram que o café não tem de saber sempre a queimado. Os preços são mais elevados, mas a qualidade justifica cada cêntimo. Um cappuccino custa cerca de 3,50€, um valor justo pela técnica empregue.

O que pedir: O café de filtro do dia. Eles rodam as origens com frequência. Acompanhe com uma das cookies caseiras que, ao contrário da maioria, não são blocos de açúcar sem sabor.

Pastelaria de Viso: A Peregrinação pelo Biscoito Original

Se quer o verdadeiro "Esse", tem de sair do centro histórico e subir ao Bairro do Viso. É uma zona residencial, sem grandes atrações turísticas, exceto esta pastelaria. É aqui que muitos dizem estar a receita original. O ambiente é de café de bairro dos anos 90, com calendários de futebol e luzes fluorescentes. Mas o cheiro que sai do forno às 8 da manhã é inebriante. É a prova de que a poesia está nos detalhes: o som do tabuleiro de metal a bater na bancada de mármore e o vapor que sobe do café acabado de tirar.

A Fuga para a Arrábida

Depois de se abastecer de cafeína, o caminho lógico é a Serra da Arrábida. Mas atenção: não cometa o erro de principiante de tentar estacionar na Praia da Figueirinha num domingo de agosto às onze da manhã. É uma receita para o desastre. Vá cedo, leve o seu café num copo térmico e veja o sol nascer sobre o Sado.

Para um café com vista, suba até ao topo da serra antes de descer para a Praia do Creiro. Há pequenos quiosques onde o café é básico, mas o cenário é de classe mundial. Se preferir a exclusividade (e a caminhada), a Praia dos Galapinhos oferece o azul mais transparente da região, embora as opções de catering sejam limitadas. É o sítio ideal para um termo de café e o silêncio que só a Arrábida consegue proporcionar quando os turistas ainda estão a dormir.

Dicas Práticas para Sobreviver em Setúbal

  • Horários: A maioria das pastelarias tradicionais abre às 7:00 ou 7:30. Se quer os "Esses" frescos, é nesta altura que deve ir.
  • Preços: Um café (bica) deve custar entre 0,70€ e 1,20€. Se lhe pedirem mais, está num sítio para turistas ou no 490 Coffee.
  • Como chegar: O comboio da Fertagus a partir de Lisboa (Sete Rios ou Entrecampos) é a opção mais civilizada. Evite o carro se planeia ir às praias; o sistema de autocarros vaivém a partir de Setúbal funciona surpreendentemente bem no verão.
  • O Segredo: Peça um "garoto" se quiser um café com um pouco de leite, ou um "galão" se quiser o clássico copo alto de vidro. Mas em Setúbal, a bica é rainha.

Setúbal não pede desculpa por ser o que é. É uma cidade de contrastes, onde o luxo da Arrábida convive com a dureza do porto. Os seus cafés refletem isso: são honestos, diretos e, se souber onde ir, inesquecíveis.

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