Santos Populares em Lisboa: Guia do Santo António
Há uma noite em Lisboa em que tudo cheira a manjerico e sardinha, e a cidade esquece-se de si mesma. Este é o guia honesto do Santo António: onde comer, em que bairro ficar, como sobreviver à manhã seguinte.
Há uma noite em Lisboa em que a cidade cheira a manjerico, a sardinha grelhada e a vinho tinto barato servido em copos de plástico. É a noite de 12 para 13 de junho, vésperas de Santo António, e durante 24 horas a capital esquece-se de si mesma: os arquitetos dançam pimba no meio da rua, as avós saem à varanda de bata, os turistas alemães comem bifanas com mostarda e ninguém se importa. Esta é, sem dúvida, a melhor noite do ano em Lisboa, e este é o guia que eu queria ter tido na primeira vez que aqui vim.
Quem foi (e quem é) Santo António
Antes de mais, uma correção que os lisboetas fazem questão de fazer: Santo António é de Lisboa, não de Pádua. Nasceu por volta de 1195 numa casa mesmo ao lado da Sé, partiu para Itália adulto, e foi lá que morreu em 1231, mas os lisboetas reclamam-no como filho da terra e ninguém os demove. Patrono dos casamentos, das coisas perdidas e, em Lisboa, da própria cidade, é a ele que se dedica o maior arraial popular do país.
Os Santos Populares são na verdade três santos consecutivos no calendário de junho: Santo António a 13, São João a 24 (festa do Porto) e São Pedro a 29. Em Lisboa, é o António que manda, e a festa começa oficialmente a 1 de junho com as marchas populares na Avenida da Liberdade. Mas o pico, o momento em que tudo acontece, é a noite de 12 para 13.
Onde ir: bairros, não restaurantes
Primeiro princípio: na noite de Santo António, ninguém faz reserva em restaurante. Come-se na rua, em mesa corrida de plástico, com a sardinha assada à grelha sobre brasas de carvão em frente a uma janela de bairro. Os arraiais funcionam por bairro, cada um com personalidade própria, e a escolha do bairro define a noite.
Alfama: a postal e o caos
É o bairro a que toda a gente vai pelo menos uma vez na vida, e por boa razão: foi aqui que Santo António nasceu, é aqui que está a Sé, e é aqui que a procissão sai. As ruelas íngremes ficam atapetadas de bandeirolas coloridas, manjericos em vasos de barro nas janelas, e tasquinhas improvisadas em cada esquina. O cheiro a sardinha colide com o cheiro a fado que escorre das casas. Conselho prático: chegue cedo, antes das 20h, porque depois das 22h é simplesmente impossível andar. Suba pela Rua de São Pedro, atravesse o Largo de São Miguel, desça pelas Escadinhas de São Cristóvão. Não tente planear: deixe-se levar.
Madragoa e Bica: para lisboetas
Se Alfama é o postal, Madragoa é onde os lisboetas verdadeiros vão. Bairro tradicional do lado de Santos, com pouca presença turística e arraiais geridos pelas coletividades de bairro, é o sítio para ver a festa como ela foi durante décadas. A Bica, com o seu elevador amarelo e ruas inclinadas, partilha esse espírito. As sardinhas custam o mesmo que em Alfama (rondem os 2 a 3 euros por cabeça), mas servem-se com menos pressa.
Graça e Mouraria: a alternativa
A Mouraria é, historicamente, o berço do fado e hoje o bairro mais multicultural de Lisboa. O arraial aqui mistura sardinha portuguesa com música de Bangladesh, há tasca chinesa ao lado de tasca cabo-verdiana, e a festa estende-se pela Rua do Benformoso. A Graça, no topo, tem dois miradouros que se transformam em pista de dança improvisada. Para quem quer ver Lisboa de cima a cantar o pimba todo, é aqui que se vem.
O que se come (e o que se bebe)
O menu de Santos Populares é curto e inegociável. Quem chegar à procura de tapas criativas ou sushi vai ficar dececionado.
- Sardinhas assadas: a rainha. Servidas inteiras, sobre uma fatia de pão que apanha o sumo, com pimento assado ao lado. Coma com as mãos. Custa entre 1,50 e 3 euros por unidade na rua, dependendo do tamanho e do bairro. As melhores sardinhas são as de junho porque é a altura em que estão mais gordas, antes da desova.
- Bifana: alternativa para quem não gosta de peixe. Pão de pé, lombo de porco marinhado em alho e louro, mostarda ou piri-piri. Há quem prefira de joelho. Para uma versão fora de festa, mas que define o padrão, vale a pena visitar fora dos festejos As Bifanas do Afonso, instituição de bairro que ensina como se faz.
- Caldo verde: sopa de couve galega com rodela de chouriço a boiar. Servido em copo, para beber pela noite fora.
- Manjericos: não se comem, oferecem-se. Pequenos vasos de manjerico com uma bandeirinha de papel a citar uma quadra de amor. Custam 2 a 5 euros e são a tradição central do dia: oferece-se a quem se gosta. Compre num arraial, não num souvenir shop.
- Sangria, vinho da casa, Super Bock: não procure carta de vinhos. Bebe-se em copo de plástico, frio, em pé, e ponto final.
As marchas populares: o coração da festa
Se há um momento que define Santos Populares em Lisboa, são as marchas populares na Avenida da Liberdade, na noite de 12 de junho. Cada bairro histórico (Alfama, Bica, Madragoa, Mouraria, Bairro Alto, Castelo, Graça, e outros) prepara durante meses uma marcha: música original, coreografia, figurinos, arcos decorados. Desfilam pela Avenida em frente a uma tribuna onde se sentam o presidente da Câmara e os jurados, e há prémios para a melhor marcha do ano.
É um espetáculo profundamente lisboeta: tem qualquer coisa de carnaval do Rio em escala doméstica, com avós a marchar ao lado de adolescentes, gente de bairro vestida com tecidos coloridos e chapéus a fazer coreografias que ensaiaram desde fevereiro. Vai a televisão pública em direto. Para os bilhetes pagos na tribuna, há que comprar com antecedência através da EGEAC. Mas para ver de graça em pé, basta chegar à Avenida ao princípio da noite, ocupar um sítio (eu sugiro a zona perto do Marquês de Pombal) e esperar.
Os casamentos de Santo António
A 12 de junho, dezenas de casais casam-se em massa numa cerimónia coletiva organizada pela Câmara Municipal de Lisboa. São os famosos Casamentos de Santo António, tradição que junta noivos de origens sociais modestas (a Câmara cobre custos) e que se tornou um dos eventos mais televisionados do ano. Casam-se na Sé Patriarcal, descem pela Madalena num cortejo de carruagens, e a cidade aplaude. Se conseguir estar na Sé ao final da manhã do dia 12, vai assistir a uma das tradições mais bonitas da cidade. Vista-se de forma decente: é uma igreja, não um arraial.
Manhã do dia 13: ressaca e procissão
Depois de uma noite a cantar pimba, o dia 13 amanhece estranhamente calmo. As ruas estão cobertas de papéis, copos de plástico e ramos de manjerico esmagados. Os varredores trabalham desde as 5h, e até ao meio-dia a cidade voltou ao normal. À tarde sai a procissão religiosa de Santo António, da Sé até à Igreja de Santo António à Sé, com as relíquias do santo. É um momento mais sério e devocional, longe da euforia da véspera, mas que vale a pena para ver a outra face da festa.
O que fazer com a ressaca: cultura para acalmar
Para quem tem o dia 13 a meio gás, sugiro fugir do centro turístico e mergulhar em algo silencioso. O Museu Nacional de Arte Antiga, em Santos, tem ar condicionado, jardins virados para o Tejo, e a maior coleção de arte portuguesa do país (incluindo os Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, que vão fazer-lhe esquecer quantas sardinhas comeu na véspera). O café do museu tem uma das melhores esplanadas escondidas de Lisboa.
Em alternativa, o Museu Calouste Gulbenkian, no Saldanha, junta uma coleção excecional (Rembrandt, Lalique, arte islâmica) com um dos jardins mais belos da cidade, perfeito para ficar a olhar para o céu durante uma hora a beber chá gelado. Use o dia 13 para abrandar: vai precisar.
Antes ou depois da festa: a outra Lisboa
Se vai estar em Lisboa nos dias à volta dos Santos Populares, há outras experiências que ganham um sentido diferente quando atravessadas pela energia festiva da cidade. Uma descida de bicicleta dos miradouros até Belém, com vista sobre o rio nas horas finais da tarde, é uma boa forma de ver o cenário que vai depois acolher a festa. O passeio ribeirinho pela frente do Tejo mostra-lhe a Lisboa do rio, longe das ruelas apinhadas.
Para quem quer perceber melhor o contexto cultural antes de mergulhar na festa, vale a pena ler o nosso guia de cultura local em Lisboa, que explica como funcionam os bairros, o fado e as tradições mais antigas. E se a festa lhe estimular curiosidade por outras tradições portuguesas, o roteiro dos doces de Páscoa em Mafra mostra como cada época do ano tem o seu próprio sabor neste país pequeno e obsessivo.
Fado depois da meia-noite
Por volta das 2h da manhã, com as pernas a doer e o estômago cheio de sardinha, há quem feche a noite num fado. Em Alfama há dezenas de casas, muitas turísticas, mas O Faia, no Bairro Alto, é uma das casas mais respeitadas da cidade, com cantores de primeira água e fadistas que já passaram por todos os palcos importantes do país. Reserve com antecedência (sobretudo nesta época), e prepare-se para uma noite longa: o fado começa por volta das 21h30 mas estende-se até de madrugada.
Para uma versão diurna e mais descontraída, comece o dia seguinte ao 13 com um café no A Brasileira, no Chiado: a bica é boa, a tradição é antiga (foi café de Fernando Pessoa, cuja estátua de bronze está sentada à porta), e a esplanada permite-lhe ver passar a cidade enquanto recupera lentamente o uso das pernas.
Conselhos finais e o que não fazer
- Não use carro: grande parte do centro está cortada ao trânsito, e os táxis demoram horas. Use metro (Baixa-Chiado, Rossio, Martim Moniz, Santa Apolónia são as paragens úteis), elétrico 28 fora das horas de pico, ou simplesmente caminhe.
- Não vista branco: a gordura da sardinha é implacável. Use roupa escura, calçado confortável e fechado (os caroços de azeitona e pedras de pé descalço dão azar à noite).
- Não vá com pressa: Santos Populares não é um evento para correr a uma checklist. É para ficar parado a ouvir uma banda a tocar Quim Barreiros a 20 metros de distância, com um copo na mão.
- Cuidado com a carteira: com tanta gente, há mais carteiristas do que o habitual. Use bolsa cruzada à frente do corpo.
- Aprenda uma quadra: a tradição manda oferecer manjerico com uma quadra. As clássicas estão impressas nas bandeirinhas, mas escrever uma própria à mão é o gesto mais lisboeta que pode fazer nesta noite. Se ofereceu manjerico a alguém com uma quadra inventada, considere-se um lisboeta honorário.
No final, Santos Populares não é uma festa que se visite: é uma festa em que se entra. A cidade abre as portas dos bairros, põe as mesas na rua e diz: venham. Aceite o convite. Coma demasiada sardinha. Beba sangria que sabe a açúcar barato. Dance pimba sem vergonha. E a meio da noite, em algum largo qualquer entre o Castelo e o Tejo, vai perceber porque é que os lisboetas reclamam Santo António como deles. Porque ele é mesmo. E nessa noite, você também é.
Se ainda lhe sobrar tempo depois da festa, considere uma escapadela à serra: o guia de bairros de Sintra mostra-lhe como recuperar do excesso de festa num cenário oposto, de bruma, palácios e silêncio.