Santos Populares em Lisboa: Guia Completo das Festas de Junho
Em junho, Lisboa cheira a sardinha grelhada e manjerico, e há manteigas, marchas, fogueiras e fado de varanda. Um guia para sobreviver à noite de Santo António, comer bem por quinze euros e ainda chegar ao 13 com pernas para ver os museus.
A 12 de junho, por volta das sete da tarde, qualquer rua estreita de Alfama cheira a duas coisas: sardinha grelhada e manjerico. Há fumo a sair de grelhas improvisadas em cima de blocos de cimento, há colunas de som penduradas em varandas a tocar pimba a um volume que vibra nas janelas, e há sempre, sempre, alguém a gritar para um vizinho do quarto andar a pedir mais cerveja. Isto não é uma encenação para turistas. É a noite mais lisboeta do ano, e se há altura para perceber a cidade não é em agosto, com 40 graus e cruzeiros atracados, é agora, com manjericos baratos em vasos de barro e bifanas a três euros.
Os Santos Populares duram, oficialmente, todo o mês de junho, mas quem é de cá sabe que existem duas datas que importam: a noite de 12 para 13, véspera de Santo António, padroeiro da cidade, e a noite de 23 para 24, véspera de São João, que pertence mais ao Porto mas que Lisboa também festeja. No meio, há São Pedro a 28, mais pacato, mais virado para as aldeias dos arredores. Quem fica os três tem fígado de aço e ouvidos cansados.
O que é, afinal, isto dos Santos?
Tecnicamente, é cristão. Santo António nasceu em Lisboa, em 1195, perto da Sé, e a sua festa cai no dia da sua morte, em Pádua. Na prática, o calendário católico foi-se misturando com rituais bem mais antigos ligados ao solstício de verão, ao fogo, à fertilidade, e ao desejo de comer ao ar livre quando finalmente para de chover. Daí as fogueiras, daí o manjerico (que se oferece com um papelinho a rimar e que ninguém deve cheirar, só tocar com a mão), daí os casamentos colectivos de Santo António, daí a sardinha, que é o peixe mais barato e abundante de junho.
Se quiser perceber melhor a teia de tradições, festas de bairro e códigos de comportamento da capital antes de chegar, vale a pena ler este guia sobre cultura local e tradições de Lisboa, que explica porque é que o tasco onde o velhote se senta sempre no mesmo banco importa mais do que qualquer monumento.
Onde ir na noite de 12 de junho
Há quatro bairros que importam e um conselho geral: chegue cedo, mas não cedo demais. Antes das nove da noite, as ruas estão mortas e os arraiais ainda a montar grelhas. Depois das onze, é impossível andar. A janela de ouro é entre as nove e meia e a meia-noite, e depois há que decidir se quer aguentar até às quatro da manhã ou recuar para um táxi enquanto ainda há.
Alfama: a versão de postal, com defeitos incluídos
Alfama é o bairro do Santo António. É também onde estão as ruas mais estreitas, as escadinhas mais difíceis, e a maior concentração de turistas. Aceite isto e divirta-se. Suba pela Rua de São Pedro a partir do Campo das Cebolas, passe pela Sé, e desça pela Rua de São Tomé até ao Largo de Santa Luzia. Pelo caminho há dezenas de tasquinhas com mesas de plástico onde se come sardinha em pão (a forma correcta, a sardinha esmagada em cima de uma fatia de broa que vai absorvendo a gordura), choco frito, caracóis se for a tempo, e cerveja em copo de plástico a um euro e meio.
Se quiser parar para uma bifana decente longe das filas, vale o desvio até As Bifanas do Afonso, perto da Praça da Figueira. Sirvam-se de mostarda picante, peçam imperial pequena, e voltem para Alfama com estômago forrado, que é a única forma honesta de aguentar a noite.
Bica e Bairro Alto: para os que preferem desnível e fado
A Bica tem o melhor enquadramento visual: o elevador a descer no meio da rua, varandas de azulejo, e gente sentada em cima de degraus a comer. É também onde se ouve fado de bairro, o tipo amador, vizinhos a cantar uns para os outros, sem palco nem ementa de degustação. Se quiser a versão profissional, com bacalhau bem feito e fadistas a sério, reserve com semanas de antecedência uma noite no O Faia, em pleno Bairro Alto, e vá noutro dia, porque na noite de 12 estar fechado num restaurante é desperdiçar a festa.
O Bairro Alto, em si, transforma-se numa pista de obstáculos: arraial em cada largo, dezenas de bares a vender shots em tubos de ensaio, grupos de despedida de solteira em t-shirts iguais. Não é o sítio mais autêntico, mas é onde se acaba sempre, mesmo sem querer.
Madragoa e Madre de Deus: o segredo dos lisboetas
Aqui é onde a maioria dos locais foge quando Alfama fica impossível. A Madragoa, a sul, mantém uma escala de aldeia. Madre de Deus, a leste, tem arraial grande mas público quase só de bairro. Em ambos, o preço da sardinha desce e o ruído de inglês americano também. Se está em Lisboa há mais de três dias e já viu os monumentos, é aqui que deve ir.
A sardinha, o caldo verde, e a economia da noite
Vamos a contas. Uma sardinha assada na rua custa entre dois euros e dois e cinquenta. Uma dose para encher um adulto razoável: cinco sardinhas, mais broa, mais pimento assado, mais salada de pimentos com cebola. Some um caldo verde (à volta de três euros) e duas imperiais. Está nos quinze euros por pessoa, gorjeta incluída, sem entrar em restaurante. Cuidado com as barracas que cobram em pulseira pré-paga e com as que vendem sardinha congelada de Marrocos, comum mas legalmente identificada com cartaz, leia antes de pagar.
Para variar do peixe, há sempre as bifanas (não confunda com prego), febras grelhadas, e os famosos imperiais com choriço (sim, um copo de cerveja com um pedaço de chouriço a flutuar, é um clássico de feira). Quem quiser doce procure as farturas, as malassadas e o arroz doce com canela em recipientes de cartão.
O manjerico, o santo casamenteiro e os pequenos rituais
O manjerico, aquele arbusto baixo de folhas redondas e cheiro a anis, é o emblema visual da festa. Compra-se nas ruas a três ou quatro euros, sempre com um papel a sair do meio onde está escrita uma quadra popular. As quadras vão do romântico ao pornográfico, dependendo de quem as imprime. Não se cheira o manjerico com o nariz, raspa-se com a mão e cheira-se a mão. É um dos rituais mais antigos da festa e ninguém sabe explicar porquê.
Santo António é, também, o santo dos casamentos. No dia 12 de manhã, na Sé, celebram-se os Casamentos de Santo António, vinte e poucos casais escolhidos pela Câmara de entre os menos privilegiados da cidade, todos casados ao mesmo tempo, com cortejo, transmissão pela televisão pública e tudo. É um espectáculo que mistura solidariedade, kitsch e sociologia urbana em doses iguais.
As Marchas Populares: o desfile que divide opiniões
Na noite de 12, antes do festim de rua, há as Marchas Populares, descem a Avenida da Liberdade entre as 21h e meia-noite. Cada bairro de Lisboa apresenta uma marcha: figurinos cosidos durante meses, coreografia ensaiada em pavilhões municipais, canção própria com letra escrita para o ano. É folclore urbano, com tudo o que isso implica de bom e de mau: gente apaixonada a investir milhares de horas, mas também kitsch involuntário e patrocínios duvidosos.
Ver da Avenida é grátis e cansativo, há que chegar antes das oito para arranjar lugar atrás da grade. Há também bilhetes vendidos para o Altice Arena para a final, mas isso é para fãs duros. Conselho honesto: veja meia hora, perceba a estética, e depois fuja para o jantar.
E se preferir o dia em vez da noite?
Quem não aguenta a multidão pode aproveitar o dia 13, feriado municipal, para fazer Lisboa com as ruas semi-vazias e o trânsito reduzido. Os museus estão abertos, e está vento bom para ar livre. Uma manhã no Museu Nacional de Arte Antiga, em Santos, com o jardim sobre o rio, é a antítese perfeita da véspera, silêncio, retábulos do Nuno Gonçalves, e um bar de museu com pastel de nata decente.
À tarde, mude de eixo. O Museu Calouste Gulbenkian, com a sua colecção armena, persa, egípcia, e o jardim, é o lugar onde Lisboa parece, por uma hora, uma cidade do norte da Europa. Café no quiosque do jardim, biblioteca aberta, e tempo para perceber que nem tudo na capital cabe em copos de plástico.
Para acabar a tarde, faça o que os lisboetas pretensiosos fazem: vá tomar café à Brasileira, no Chiado, sente-se ao balcão (a esplanada é caríssima e cheia de turistas), peça uma bica e um pastel, e veja o tempo passar. É um clichê, mas é um clichê que funciona desde 1905.
Mover-se na cidade durante os Santos
Esqueça o carro. A 12 de junho, grande parte da Baixa, Castelo, Mouraria, Alfama e Bairro Alto estão cortadas ao trânsito. Os táxis e Ubers só param em pontos fora dos bairros históricos, e os preços disparam depois das duas da manhã. O metro funciona até às 1h, e a CARRIS reforça autocarros nocturnos.
A bicicleta é uma opção brilhante para o dia 13, quando há menos carros e a cidade está em câmara lenta. Se nunca pedalou Lisboa, comece por uma rota ribeirinha guiada com a Bike a Wish, plano com bicicleta eléctrica, ideal para quem não quer empurrar uma normal pela Avenida 24 de Julho. Ou, para os mais aventureiros, a descida em bicicleta desde o topo até Belém, quase tudo a favor da gravidade, com paragens em miradouros.
Onde dormir, onde NÃO dormir
Se vai dormir em Alfama na noite de 12, não é dormir, é repousar entre temas de Marco Paulo. Os hotéis no Castelo, Mouraria, Graça e Bairro Alto têm música até às quatro, foguetes, e gente a cantar na rua. Encantador, mas dispense quem esteja a viajar com crianças pequenas ou com jet lag.
Alternativas mais calmas para a noite de 12: Lapa, Estrela, Campo de Ourique, Avenidas Novas. Estão a 15 minutos de táxi do epicentro, mas têm sono garantido. Em alternativa, faça base em Sintra ou Cascais e use comboios da noite (CP tem extensão de horário no dia 12). Se nunca esteve em Sintra, vale a pena perceber primeiro como funciona o tabuleiro, o nosso guia de bairros de Sintra ajuda a decidir onde ficar e o que ver antes de subir à serra.
O resto do mês: São João e São Pedro
A 23 de junho, véspera de São João, Lisboa é mais discreta do que o Porto, mas há arraiais nos mesmos bairros e martelos de plástico vendidos em quase toda a esquina (em Lisboa também se brinca a dar marteladas, embora com menos histeria). É boa noite para repetir a sardinha em sítios menos cheios.
São Pedro, a 28, é o santo dos pescadores, festejado com mais intensidade em Sintra, Sesimbra e Seixal. Se quiser ver uma versão menos turística da festa, atravesse o Tejo num catamarã até ao Seixal ou apanhe um comboio até Sintra. As festas duram do fim de semana antes ao fim de semana depois e cada localidade tem o seu costume.
Comer doce no dia seguinte
Os Santos são salgados, mas Portugal não esquece o açúcar. Para quem se queira aventurar na geografia dos doces tradicionais de Junho, vale a pena ver o que se faz a poucos quilómetros de Lisboa. O nosso roteiro de doces de Páscoa em Mafra, embora dedicado a outra estação, dá pistas sobre as pastelarias e fornos da região que continuam abertos no verão, com fartos folhados e queijadas para o lanche do dia 13, quando ninguém quer voltar a comer sardinha.
Cinco regras finais para não estragar a noite
- Não use sapatos brancos nem novos. O chão é uma camada de gordura de sardinha, cerveja entornada e, ocasionalmente, vómito.
- Leve dinheiro em notas pequenas. Muitas barracas não têm máquina de cartão, e o multibanco mais próximo terá fila de meia hora.
- Não cheire o manjerico com o nariz. A sério.
- Não tente subir as escadinhas de Alfama de salto alto. A pedra é polida por sete séculos de uso. Já vi tornozelos partidos.
- Não saia sem ter dito "viva Santo António" pelo menos uma vez, mesmo que sussurrado. É grátis e o santo aprecia.
No fim, os Santos Populares não são sobre os santos, sobre a sardinha, ou sobre a fogueira. São sobre o facto de Lisboa, durante três noites, deixar de ser uma cidade administrada e voltar a ser uma cidade vivida, onde toda a gente está na rua, ao mesmo tempo, a comer mais do que devia e a cantar mal canções que sabe de cor. Se conseguir ver isto sem cinismo, percebeu a cidade. Se não, há sempre o Museu de Arte Antiga.