Santo António em Lisboa: Sardinhas, Manjericos e Arraiais
A 12 de junho, Lisboa cheira a sardinha em brasa e a manjerico amassado. Um guia opinativo, hora a hora, de como sobreviver (e gozar) a melhor noite do ano na cidade, dos arraiais de Alfama aos casamentos da Sé.
A 12 de junho, por volta das sete da tarde, Lisboa cheira a uma coisa só: sardinha em brasa. Sai dos pátios da Mouraria, das esplanadas improvisadas em Alfama, das traseiras de prédios em Madragoa onde alguém montou um grelhador num bidão cortado ao meio. É um cheiro que fica nas roupas três dias. Eu aviso já: se vai vestir a sua melhor camisa branca para os arraiais, está a cometer um erro estratégico. Vista preto, ou aceite o destino.
Santo António não é uma festa. É uma sobreposição de dezenas de festas que acontecem ao mesmo tempo, em ruas estreitas, com música a sair de colunas demasiado pequenas para o volume que se exige delas. Para o turista que chega no dia 12 à tarde sem plano, Lisboa pode parecer um caos perfumado. Para quem vem preparado, é provavelmente a melhor noite do ano na cidade. Este guia é para a segunda categoria.
O que se celebra, ao certo
Santo António de Lisboa, mais conhecido lá fora como Santo António de Pádua, era lisboeta antes de ser italiano. Nasceu provavelmente em 1195 numa casa que ficava colada à Sé, e a cidade nunca o esqueceu. A 12 de junho à noite (véspera) e 13 de junho (dia do santo, feriado municipal), Lisboa transforma-se num enorme arraial popular, com casamentos colectivos na Sé, marchas populares na Avenida da Liberdade, e bairros inteiros em modo festa.
Há três coisas que vai ver vendidas em todo o lado, e que vale a pena explicar antes de continuar:
- Sardinha assada no pão: meia ou inteira em cima de uma fatia de broa que absorve a gordura. É isto, basicamente. Não há molho, não há truque. Cinco euros, mais ou menos, dependendo do bairro e do desespero.
- Manjerico: um vasinho de erva (Ocimum minimum) com uma quadra de papel espetada num pauzinho. Oferece-se a quem se gosta. Não se cheira: amassa-se com a mão e cheira-se a mão. Cheirar a planta directamente é coisa de quem nunca viveu cá.
- Caldo verde e bifanas: o resto do menu. O caldo aparece em copos de plástico, a bifana em pão de papo-seco com mostarda ou piri-piri.
Onde ir, hora a hora
Tarde do dia 12: aquecer motores
Não vá directamente para Alfama às seis da tarde. É um erro que se vê todos os anos. A esta hora, comece pelo Chiado, num plano calmo. Sente-se na esplanada d'A Brasileira, peça uma imperial e um pastel de bacalhau, e veja Lisboa a preparar-se. As bandeirolas de papel já estão penduradas há semanas, mas é nesta tarde que parecem fazer sentido. Custo do exercício: cerca de oito euros, com paciência para o turismo.
Se tiver tempo e cabeça para isso, suba até ao Museu Calouste Gulbenkian e passe uma hora no jardim. Parece contraintuitivo num dia destes, mas é exactamente o oposto do que vai apanhar à noite, e dá perspectiva. Os jardins da Gulbenkian a meio de junho, com os patos e a sombra dos plátanos, são o melhor antídoto que conheço para o calor de uma tarde lisboeta. Confirme horários no próprio dia: em datas festivas, museus por vezes encerram mais cedo.
Para quem prefere não andar muito, o Museu Nacional de Arte Antiga, em Santos, oferece a melhor hipótese de fim de tarde da cidade: a esplanada do café tem vista para o Tejo e para os porta-contentores que vão entrando para o porto de Lisboa. Beba ali um copo branco antes de descer para os arraiais. Não é poético: é prático. Dali a Madragoa são dez minutos a pé.
Sete da tarde: escolha o seu bairro
Aqui está a decisão estratégica da noite. Não tente fazer todos. Escolha um e fique.
Alfama é o bairro mais bonito e o mais cheio. Se nunca foi ao Santo António, é uma experiência que se faz uma vez. Entre por Santa Apolónia, suba devagar pela Rua dos Remédios, e prepare-se para se mover a um metro por minuto a partir das nove da noite. As marchas populares passam pela Avenida da Liberdade, mas o eco chega a Alfama via televisão posta nas tascas e via humor colectivo.
Mouraria é, na minha opinião, a alternativa mais interessante. Mais multicultural, com cozinhas indianas e bangladechianas a misturar-se com os grelhadores de sardinha, é um Santo António que reflecte melhor a Lisboa de hoje. Vá pela Rua do Capelão, espreite o Largo da Achada.
Bairro Alto e Bica: mais jovem, mais barulhento, menos típico, mais vinho derramado por metro quadrado. Se a sua ideia de festa for dançar até às quatro, é aqui.
Madragoa e Santos: a aposta dos lisboetas que querem festa sem turismo. Menos pitoresco em fotografia, mais autêntico em vivência. Os arraiais aqui costumam ter melhor música ao vivo e preços ligeiramente mais civilizados.
Nove da noite: comer na rua, sem cerimónia
Comer sentado num restaurante na noite de 12 para 13 é uma forma de não perceber a cidade. Coma de pé, com guardanapo de papel, e mude de barraca a cada prato. As regras são simples:
- Sardinha apenas onde houver fila. Se não houver fila, é porque está a passar mal.
- Caldo verde só depois das dez, quando começa a frescura.
- Bifana sempre, a qualquer hora. E se passar perto da Baixa antes ou depois dos arraiais, faça um desvio até As Bifanas do Afonso, na Rua da Madalena. Não é tradicional de Santo António, mas é a melhor bifana sobre a qual eu estou disposto a discutir publicamente.
- Vinho tinto da casa, em copo de plástico, três euros. Não peça branco, não peça rosé, não tente engenhar.
Para quem quiser uma alternativa mais sentada, o O Faia, Casa de Fados, no Bairro Alto, mantém o seu programa de fado durante a semana de Santo António. Não é arraial, é o oposto: jantar tranquilo, fadistas de carreira, contas que aterram entre os 60 e os 80 euros por pessoa com vinho. É uma boa decisão para a noite do dia 13, quando a ressaca colectiva já tomou conta da cidade e Alfama está a ser limpa por equipas heroicas da Câmara.
O detalhe que ninguém conta: as marchas populares
As marchas populares da Avenida da Liberdade, na noite de 12 para 13, são um espectáculo televisionado que muito poucos estrangeiros sabem como funciona. Cada bairro de Lisboa, ou quase, monta uma marcha: cerca de 50 pessoas, fato a rigor, coreografia ensaiada durante meses, canção própria, arcos decorativos. Desfilam pela Avenida e o público lisboeta vê isto na RTP em casa, como quem vê o final do campeonato.
Se quiser ver ao vivo, há duas formas: comprar bilhete na bancada (sai mais ou menos quinze a vinte euros, vende rápido, vá a tempo ao site da EGEAC) ou ficar em pé nos passeios da Avenida. Se for a primeira vez, recomendo a bancada; o desfile dura horas e o pé esquerda começa a doer cedo. Se for a quinta vez, fique em casa e veja na televisão, com cerveja e mortadela como gente de bem.
Os casamentos de Santo António
Outro detalhe pouco entendido: na manhã de 13 de junho, casa-se gente em massa. Os "Casamentos de Santo António" são uma tradição em que a Câmara de Lisboa paga o casamento e a festa a algumas dezenas de noivos seleccionados, no claustro da Sé. Não pode entrar a meio sem convite, mas pode estar no Largo da Sé entre as nove e as onze para ver os carros, os vestidos, as famílias em peso. É uma das coisas mais lisboetas que vai ver na vida.
Depois do casamento, a procissão liga a Sé à Igreja de Santo António, ali ao lado, descendo até à Madalena. Se conseguir vaga numa esplanada da Rua Augusta, fica com uma vista preguiçosa do desfile.
Como sobreviver à logística
Onde dormir
Reserve com três meses de antecedência se quiser ficar em Alfama, Mouraria, Bairro Alto ou Baixa. Quem reservar mais tarde paga o dobro e dorme à mesma com música até às cinco da manhã. A minha sugestão contra-intuitiva: fique em Marvila ou em Belém. Está a 15 minutos de metro ou comboio do epicentro, o quarto custa metade, e dorme. Quando acordar a 13 de junho, vá descobrir o resto da cidade enquanto Alfama recupera.
Como circular
O metro reforça o serviço, mas as linhas Azul e Verde ficam impossíveis a partir das oito da noite. As escadas rolantes do Rossio enchem-se até parar. Os táxis e Ubers não entram em Alfama nem com reza brava: o trânsito está cortado. Aceite caminhar muito. Sapatos confortáveis, não chinelos, porque pisar uma sardinha esmagada de chinelo é uma experiência sensorial que ninguém precisa.
Quanto vai gastar
Plano realista por pessoa, em arraial de bairro: 5 euros em sardinha, 5 em bifanas, 3 em caldo verde, 3 ou 4 copos de vinho a 3 euros, mais 3 ou 4 cervejas. Saia das festas com 35 a 50 euros gastos em comida e bebida. Se fizer fado n'O Faia depois, some o jantar. Se fizer hotel em Alfama, some um rim.
Estender a viagem para lá do dia 13
Quem chegou para o Santo António fica quase sempre, e tem dias suficientes para outras coisas. Sugiro três extensões.
Primeiro: alugue uma bicicleta e veja a outra Lisboa, a do rio. Há duas experiências curadas que vale a pena considerar e que tiram a tortura de subir a Avenida Almirante Reis em Junho. Explorar Lisboa sobre rodas no roteiro ribeirinho da Bike a Wish é o passeio mais óbvio: do Cais do Sodré até Belém pela ciclovia, com paragens em Santo Amaro e na MAAT. Mais ambicioso é pedalar do topo ao rio no roteiro descendente até Belém, que parte de Monsanto e desce sempre, num plano traçado para quem não quer suar duas vezes.
Segundo: aprofunde a antropologia. Para entender por que carga de água um santo do século XIII faz parar a cidade em 2026, leia o nosso ensaio cultura local em Lisboa, tradições e bairros antes de chegar. Faz a diferença entre estar numa festa e perceber uma festa.
Terceiro: saia da cidade durante 24 horas. Junho em Lisboa é caloroso e Sintra está a 40 minutos. Se decidir ir, leve consigo o nosso guia de bairros de Sintra e foque-se em São Pedro de Penaferrim em vez do habitual circuito de palácios cheios. Para quem ainda tem fome de tradição depois das sardinhas, há também o nosso roteiro dos doces de tradição em Mafra: a Páscoa já passou, mas as pastelarias mantêm muitas das receitas o ano todo.
O que ninguém lhe diz
Vou ser honesto: a partir das onze da noite, em Alfama, paga-se a sardinha cinquenta cêntimos a mais. Há coordenação tácita entre barracas. Não vale a pena indignar-se.
O manjerico que comprar a 12 de junho vai morrer-lhe na varanda em três semanas, faça o que fizer. É uma planta de vida curta. Não é falha sua. Não regue duas vezes por dia, mesmo que a vontade seja muita.
E, finalmente: a melhor sardinha que comi em vida foi às sete da manhã do dia 13, na esplanada de uma tasca em Madragoa, com gente que não tinha ido para casa. O grelhador estava a apagar-se, restavam três sardinhas mortas de calor, e tudo o que era cheiro a fumo concentrava-se naquele último prato. Custou três euros. Não vai conseguir replicar isto, mas podia tentar.