Ribeira Grande à Noite: Vinho dos Açores e Petiscos
Lapas grelhadas, queijo de São Jorge curado seis meses, Verdelho do Pico a 25 euros a garrafa. Um itinerário sério para uma noite de petiscos em Ribeira Grande, sem cerimónia e sem floreados.
Há uma hora em Ribeira Grande, por volta das 18h30, em que a luz fica cor de cidra e os pescadores que voltam de Rabo de Peixe começam a parar nos cafés da Rua do Cais. É o momento em que a cidade troca o turno: os surfistas saem da água em Santa Bárbara, as senhoras fecham as varandas das casas brancas da Rua de São Francisco, e quem sabe começa a pensar não em jantar, mas em petiscar. Esta é uma distinção importante. Jantar é compromisso. Petiscar é uma desculpa para abrir uma garrafa de Verdelho e ficar até tarde.
Este itinerário não é para quem quer carta de vinhos premiada ou tasting menu de sete andamentos. Não há nada disso em Ribeira Grande, e ainda bem. O que há é melhor: uma cidade que ainda come a horas honestas, que ainda serve queijo de São Jorge em fatias generosas, e onde uma garrafa de vinho dos Açores custa menos do que um cocktail em Ponta Delgada. Se for fazer uma noite só, faça esta.
Antes do vinho: um aperitivo de geologia
Comece tarde de propósito. Não vale a pena chegar a Ribeira Grande às 15h e ficar à espera que a noite aconteça. Use a tarde como se deve: suba até à Caldeira Velha, a 15 minutos de carro pela serra, e meta-se na poça de água quente sob a queda de água. É a única maneira séria de entrar em modo Açores: pele a ferver, vapor a subir do musgo, e a noção clara de que está numa ilha vulcânica e não num resort. Leve toalha velha, ténis com aderência (o trilho é curto mas escorregadio), e troco para a entrada, que se paga em dinheiro.
Se preferir algo mais urbano, as Termas das Caldeiras ficam praticamente no centro da cidade, junto à ribeira que dá nome à terra. É mais discreto, menos instagramável, e por isso mesmo mais agradável num final de tarde de semana. Saia das termas com fome. É essa a regra.
A primeira paragem: o jardim e o aperitivo
Antes de sentar à mesa, faça uma coisa que os locais fazem sem pensar: corte caminho pelo Jardim Municipal. Não é um parque grande nem é o motivo da viagem, mas tem dragoeiros antigos, bancos de pedra, e aquela calma muito específica dos jardins municipais portugueses ao fim do dia, com idosos a conversar sobre o tempo e crianças a correr atrás de pombos. É o sítio certo para abrir o apetite e calibrar o ritmo. Se está com pressa, está no sítio errado. Esta noite vai correr devagar.
Da praça central, atravesse a ponte sobre a ribeira. Repare nos azulejos azuis das fachadas e nas cantarias de basalto preto, o contraste cromático que define a arquitetura de São Miguel: branco para o sol, preto para a lava. É a única vez que vou usar a palavra lava neste artigo. Prometo.
O coração da noite: petiscos na Merenda
A grande paragem da noite é A Merenda. Se está em Ribeira Grande e quer comer bem sem cerimónia, é aqui. Reserve. A casa é pequena, enche cedo, e os locais sabem disso melhor do que ninguém. Telefone na véspera ou pela manhã. Não conte com mesas de última hora à sexta ou sábado.
O conceito é simples e antigo: comida de partilha, produto local, vinhos da ilha. A carta muda com o que há, o que é a única maneira séria de fazer cozinha açoriana. Os pratos chegam à mesa quando estão prontos, sem ordem fixa, e a ideia é ir comendo enquanto se conversa e se vai pedindo mais. Pelo caminho, pede-se mais uma garrafa. E mais outra.
O que pedir, sem hesitar
- Queijo de São Jorge curado. Peça pelo menos seis meses. É o queijo mais sério de Portugal, picante e cristalino, e em Ribeira Grande costuma vir com doce de pimento da casa ou mel de Santa Maria. Não é negociável.
- Lapas grelhadas com manteiga de alho. Em qualquer outro lugar do mundo, lapas são iguaria de chef. Aqui são petisco de bar. Aproveite. Esprema o limão à última e raspe a manteiga com pão.
- Linguiça de São Miguel grelhada. Fumada e picante. Vem geralmente sobre tosta com inhame. Peça inhame extra se houver.
- Polvo guisado. Cozinhado lento, em vinho da terra. Os melhores acompanham com batata-doce roxa dos Açores, que é mais firme e menos açucarada do que a do continente.
- Bolo lêvedo com manteiga e queijo fresco. Não é sobremesa, é base. Vem quente. Não recuse.
O que ignorar
Salte os pratos que parecem demasiado internacionais. Se vê risotto na carta de uma tasca açoriana, ignore. Não vai estar mau, mas vai roubar-lhe espaço para coisas que só pode comer aqui. Mesma regra para qualquer hambúrguer, salada de quinoa ou poke. Não é por aí que se conhece São Miguel.
Os vinhos: o que beber e porquê
Há um equívoco comum: as pessoas pensam que vinho dos Açores significa vinho do Pico. E significa, principalmente. Mas em São Miguel já se produz vinho a sério, e a carta de uma boa tasca em Ribeira Grande vai ter as duas ilhas representadas. Aqui está o que pedir:
- Verdelho do Pico. Branco mineral, salino, quase como morder uma ostra. Perfeito com as lapas e com o queijo curado. Se o restaurante tiver Czar ou Frei Gigante, peça sem pensar.
- Arinto dos Açores. Mais cítrico, menos salgado. Bom para abrir a noite enquanto se decide o resto.
- Tinto de Agronómica ou de Biscoitos. Os tintos açorianos são raros e em geral leves. Acompanhe com a linguiça e o polvo. Não procure encorpado: o jogo aqui é frescura.
Preços por garrafa em sítios honestos como A Merenda andam tipicamente entre os 18 e os 30 euros para um vinho local sério. Confirme localmente. O serviço a copo costuma valer a pena se quiser variar entre pratos. Não peça vinho do continente: está numa ilha vulcânica, beba como tal.
O fecho: digestivo e passeio
Saia da mesa por volta das 23h, e não antes. Em Ribeira Grande, não há muita vida noturna depois das 24h, mas há um ritual: caminhar pela marginal até à foz da ribeira, ouvir o Atlântico bater contra os calhaus pretos, e fumar (ou não) um último cigarro debaixo de um candeeiro com a humidade marítima a colar-se à roupa. Se ainda tiver espaço, peça um cálice de angelica ou um aguardente de erva-doce antes de sair. Os açorianos resistem ao licor mau, e qualquer destilado decente que vier à mesa terá história.
Para dormir, fique na cidade. Há guesthouses pequenas em casas antigas restauradas com pedra basáltica à vista, geralmente entre os 70 e os 120 euros por noite fora de agosto. Evite os hotéis grandes de estrada, que não têm interesse nenhum e ficam longe do centro.
No dia seguinte: como ressuscitar
O melhor remédio para uma noite generosa de petiscos é o oposto: chá. Apanhe o carro depois das 10h e vá às plantações da Gorreana, a 15 minutos por estrada de costa. A nossa experiência completa pelas plantações da Gorreana e Porto Formoso explica porque é que estas são as únicas plantações de chá da Europa, e como provar o preto, o verde e o oolong em sequência. Saia com pacotes para casa. Vai obrigado.
Para quem ainda tem energia e tem para aí 25 anos de idade ou um espírito teimoso, vale a pena pôr o despertador às 5h30 e ir a Santa Bárbara para uma sessão de surf ao nascer do sol no areal negro. Vinho à noite, ondas ao amanhecer, é o tipo de assimetria a que São Miguel se presta bem.
Se tiver mais dias na ilha (e devia ter)
Ribeira Grande funciona melhor como base do que como passagem rápida. Está a 25 minutos de Ponta Delgada, a 30 das Furnas e a 15 das praias da costa norte. Se ficar dois ou três dias, alterne dias de natureza com dias de mesa. Para o dia da mesa em Ponta Delgada, leve a sério a nossa expedição gastronómica por Ponta Delgada, que vai mais fundo no cozido das Furnas, no peixe da Ribeira Quente e na confeitaria conventual.
E se conseguir esticar a viagem até ao Faial, há motivos para isso. O guia de 24 horas pela Horta mostra porque é que esta pequena cidade portuária tem mais cosmopolitismo por metro quadrado do que muita capital europeia, e o apanhado dos melhores rooftops e panorâmicas resolve a questão de onde beber ao pôr do sol com vista para o Pico.
Notas práticas em jeito de despedida
- Quando ir: qualquer altura entre maio e outubro. Agosto é cheio. Junho e setembro são os meses bons. O inverno tem charme se não se importar com chuva diagonal.
- Como chegar: aluguer de carro em Ponta Delgada é praticamente obrigatório. Ribeira Grande fica a 18 km, 25 minutos pela ER1-1A.
- Quanto custa uma noite de petiscos: conte 30 a 45 euros por pessoa, incluindo vinho generoso. Não há sítios baratos, mas também não há sítios caros: as ilhas têm a sua própria escala.
- Reservas: sim, sempre. Mesmo a meio da semana. A informalidade não é desorganização.
O resto fica connosco. Boa noite e bom apetite.