Onde Ver as Amendoeiras em Flor no Algarve em Março
Em março, o interior do Algarve transforma-se num manto de branco e rosa pálido com a floração das amendoeiras. Do barrocal de Loulé à serra de Monchique, este é o guia para perseguir a floração, com paragens para amêndoas frescas, xerém e frango piri-piri pelo caminho.
Há qualquer coisa de subversivo numa árvore que floresce antes da primavera oficialmente começar. As amendoeiras do Algarve não pedem autorização ao calendário. Em fevereiro, às vezes já em janeiro, começam a cobrir o interior algarvio de branco e rosa pálido, como se alguém tivesse sacudido um lençol sobre as colinas. Mas é em março, quando a floração atinge o seu auge nas zonas mais altas e interiores, que o espetáculo se torna verdadeiramente impossível de ignorar.
Este não é o Algarve que aparece nos folhetos. Não há praias douradas, não há cocktails ao pôr do sol, não há campos de golfe. O Algarve das amendoeiras é outro país: estradas estreitas entre muros de pedra seca, aldeias onde os cafés ainda servem aguardente de medronho ao balcão antes do meio-dia, e uma luz de fim de inverno que faz tudo parecer pintado a óleo.
Porque é Que o Algarve Tem Amendoeiras (E Porque é Que Nos Esquecemos Disso)
A história das amendoeiras no Algarve começa com os mouros, como tantas coisas boas no sul de Portugal. Foram eles que plantaram as primeiras, há mais de mil anos, transformando o barrocal algarvio, aquela faixa de terreno calcário entre a serra e o litoral, numa paisagem produtiva que dava amêndoas, figos, alfarrobas e azeitonas. Durante séculos, a amêndoa foi uma das maiores exportações da região. Havia fábricas de processamento em Loulé, em Faro, em Tavira.
Depois veio o turismo. A partir dos anos sessenta, o litoral foi-se enchendo de betão e as amendoeiras do interior foram sendo abandonadas. Muitas foram arrancadas para dar lugar a pomares de citrinos ou simplesmente deixadas ao desleixo. Mas a árvore é teimosa, e resiliente. Nos últimos anos, um movimento discreto de recuperação tem vindo a replantar amendoeiras e a valorizar este património agrícola. Hoje, a floração das amendoeiras é um dos melhores motivos para visitar o Algarve fora da época alta.
O Mapa da Floração: Onde Ir e Quando
A floração não acontece toda ao mesmo tempo. Depende da altitude, da exposição solar, da variedade da árvore. Em termos gerais, as amendoeiras mais próximas do litoral, nas zonas baixas do barrocal, florescem primeiro, entre janeiro e fevereiro. As das zonas mais altas, na transição para a serra, florescem mais tarde, em março. Isto significa que, com algum planeamento, é possível perseguir a floração durante quase três meses.
Alta Mora e o Barrocal de Loulé
A zona entre Loulé e Salir é, provavelmente, o epicentro da floração. A estrada que sobe de Loulé em direção à Fonte da Benémola, uma reserva natural com piscinas naturais alimentadas por nascentes, atravessa quilómetros de amendoais. Em março, esta estrada é qualquer coisa de cinematográfico. As árvores alinham-se dos dois lados, as pétalas caem sobre o alcatrão, e a luz da manhã transforma tudo numa espécie de impressionismo rural.
Em Loulé, o mercado municipal é uma paragem obrigatória. Não pelo edifício, que é bonito, com os seus arcos neo-árabes, mas pela amêndoa fresca que se encontra nas bancas em março. Compre um saco de amêndoas com casca, da variedade local, e coma-as no carro enquanto conduz pelas estradas do barrocal. É o melhor snack que vai ter nesta viagem.
Paderne e o Vale do Rio Quarteira
A aldeia de Paderne, a norte de Albufeira, é outro ponto alto. O castelo em ruínas, uma fortaleza almóada do século XII, ergue-se sobre um vale onde as amendoeiras crescem em socalcos. A caminhada circular que desce até à ribeira e contorna o castelo demora cerca de uma hora e meia e, em março, é uma das mais bonitas do Algarve. Leve água e calçado com sola boa, o terreno é calcário e pode ser escorregadio.
O Interior Profundo: Alcoutim e Castro Marim
Para quem quer fugir completamente das multidões, e em março, no interior do Algarve, multidões é um conceito relativo —, o extremo leste da região oferece uma paisagem diferente. Entre Alcoutim e Castro Marim, a estrada que acompanha o Guadiana é ladeada de amendoeiras que parecem ter sido ali plantadas há séculos, sem que ninguém se tenha preocupado em organizá-las em filas. O resultado é uma desordem encantadora, com árvores que crescem em ângulos improváveis nas encostas que descem até ao rio.
Em Alcoutim, o café junto ao rio, o Café Guadiana, serve um café expresso aceitável e uma tosta mista que não impressiona ninguém, mas a vista para Espanha compensa. Do outro lado do rio, Sanlúcar de Guadiana parece tão perto que quase se consegue atirar uma amêndoa para lá.
A Serra de Monchique
Na extremidade oposta do Algarve, a Serra de Monchique oferece uma floração mais tardia, por vezes estendendo-se até ao final de março. Aqui, as amendoeiras misturam-se com sobreiros e eucaliptos, criando um mosaico de cores que muda de semana para semana. A estrada que sobe de Monchique até à Fóia, o ponto mais alto do Algarve, com 902 metros, passa por vários amendoais, especialmente na encosta virada a sul.
Em Monchique, a Charrete é o restaurante que vale a viagem: frango piri-piri grelhado na brasa, com uma simplicidade que desafia qualquer restaurante de estrela. Conte com 15 a 20 euros por pessoa, incluindo vinho da casa e sobremesa.
O Que Comer (Porque Tudo Aqui Leva Amêndoa)
A gastronomia algarvia está saturada de amêndoa, e isso é uma coisa excelente. Os doces regionais, muitos deles de origem conventual, usam amêndoa moída como base. Os mais conhecidos são os morgados (bolos densos de amêndoa e ovo) e os D. Rodrigos (fios de ovos com recheio de amêndoa, embrulhados em papel de prata). Em qualquer pastelaria de Loulé, Faro ou Tavira, encontra variações destes doces por um ou dois euros a peça.
Mas o produto-estrela é a amêndoa em si. A amêndoa algarvia, quando fresca, ainda verde, com a casca exterior aveludada —, tem um sabor que nada tem a ver com as amêndoas secas do supermercado. É leitosa, ligeiramente adocicada, com um travo herbáceo que lembra feno cortado. Em março, encontra-se nos mercados e, por vezes, à beira da estrada, vendida por produtores locais em sacos de plástico. Compre sempre que puder.
Para algo mais substancial, procure o xerém, uma espécie de polenta de milho típica do Algarve, servida com amêijoas ou conquilhas. Não é um prato bonito, mas é honesto, reconfortante e perfeitamente adaptado a um almoço depois de uma manhã a caminhar entre amendoeiras.
Informação Prática
Quando Ir
A floração das amendoeiras no Algarve ocorre geralmente entre janeiro e março. Para as zonas mais altas do barrocal e da serra, o pico é em março. Consulte as câmaras municipais de Loulé e Silves, que costumam publicar atualizações sobre o estado da floração nas suas redes sociais.
Como Chegar e Circular
O aeroporto de Faro é a porta de entrada mais óbvia. Um carro de aluguer é essencial, o interior do Algarve não é servido por transportes públicos de forma minimamente prática. Conte com 25 a 40 euros por dia para um carro compacto em março, fora da época alta. As estradas do barrocal são estreitas mas estão em bom estado. Atenção às curvas cegas e aos tratores que aparecem sem aviso.
Onde Ficar
Evite o litoral. Fique no interior, onde a experiência faz sentido. Em Loulé, a Pousada de Loulé, instalada num antigo convento, é uma das melhores opções, com quartos a partir de 90 euros a noite em março. Para algo mais rural, as casas de campo entre Salir e Alte oferecem silêncio absoluto e, muitas vezes, amendoeiras no quintal. O Airbnb tem boas opções nesta zona, entre 50 e 80 euros por noite.
Quanto Tempo
Três noites é o mínimo para explorar o barrocal com calma. Com cinco noites, pode acrescentar a serra de Monchique e o interior leste, até Alcoutim. Não tente fazer tudo num dia, a graça está em perder-se nas estradas secundárias, parar quando uma amendoeira particularmente bonita lhe chamar a atenção, e almoçar numa tasca que não tem página no Google.
E Depois das Amendoeiras?
Se a viagem ao Algarve interior lhe despertar o apetite por um Portugal menos óbvio, considere estender a exploração para norte. O Porto é um ponto de partida extraordinário para viagens de um dia que revelam o melhor do norte, do vale do Douro às cidades históricas do Minho. Braga, a uma hora do Porto, é uma cidade que surpreende pela forma como equilibra tradição e irreverência, com uma cena gastronómica que rivaliza com a de Lisboa. E Guimarães, berço da nação, é o lugar onde Portugal aprendeu a ser Portugal, e onde, curiosamente, as amendoeiras também marcam presença, embora com menos protagonismo do que no sul.
Mas isso é para outra viagem. Por agora, estacione o carro numa berma qualquer do barrocal, sente-se debaixo de uma amendoeira em flor, e repare como as pétalas caem devagar, sem pressa nenhuma. O Algarve, quando quer, sabe ser paciente.