Monsaraz em Maio: Cruzes, Maios e Tradições Populares
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Monsaraz em Maio: Cruzes, Maios e Tradições Populares

· · Monsaraz

Em Maio, Monsaraz ainda funciona como aldeia, não como cenário turístico. Cruzes decoradas com flores silvestres, Maios à porta das casas, e noites na primeira Reserva Dark Sky da Europa: este é o Alentejo antes das multidões.

Maio em Portugal é o mês em que o país inteiro cheira a flores e a fogueiras frias. É o mês das Cruzes enfeitadas, dos Maios à porta das casas, das procissões que param o trânsito nas aldeias e que ninguém se queixa. Em Monsaraz, onde as muralhas medievais olham para o Lago Alqueva como quem olha para um espelho gigante, estas tradições ganham uma moldura que nenhum cenógrafo conseguiria inventar.

Mas vamos ao que interessa. O que é que acontece, concretamente, em Maio no Alentejo? E porque é que vale a pena ir a Monsaraz nesta altura, em vez de em Agosto como toda a gente?

O Dia das Cruzes: 3 de Maio

A tradição do Dia das Cruzes é anterior ao turismo, anterior aos guias de viagem, anterior a quase tudo. Celebra-se a 3 de Maio em dezenas de localidades portuguesas, mas no Alentejo a coisa tem um peso diferente. As cruzes são decoradas com flores, principalmente malmequeres, rosas e cravos, e colocadas em capelas, cruzeiros e encruzilhadas. Em muitas aldeias alentejanas, as mulheres começam a preparar as cruzes dias antes, escolhendo as flores no campo.

Em Monsaraz, o cruzeiro junto à muralha é um dos pontos onde esta tradição se concentra. Não espere espetáculo pirotécnico: é uma celebração discreta, comunitária, feita por e para quem lá vive. Se tiver sorte, apanha a bênção das cruzes na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa. Se não tiver, pelo menos viu uma aldeia medieval decorada com flores silvestres ao pôr do sol, o que francamente não é mau consolo.

O que são os Maios?

Os Maios são figuras feitas de palha, trapos e flores, montadas à porta das casas ou em praças públicas. É uma tradição pagã que celebra a fertilidade e a chegada do bom tempo, mais antiga que o cristianismo em Portugal. No Alentejo, os Maios são geralmente bonecos antropomórficos, às vezes satíricos, às vezes simplesmente decorativos. Em algumas localidades, há competição entre vizinhos para ver quem faz o Maio mais elaborado.

É uma daquelas tradições que está a meio caminho entre o folclore vivo e a recuperação cultural. Em aldeias mais pequenas, ainda se faz por hábito. Em vilas maiores, muitas vezes é a junta de freguesia que organiza. Em Monsaraz, a dimensão da vila faz com que tudo seja mais íntimo: um Maio junto à porta da Rua Direita pode ser obra de uma vizinha que faz o mesmo há quarenta anos.

Porquê Monsaraz em Maio?

A resposta honesta: porque em Maio, Monsaraz ainda não está a abarrotar. Em Julho e Agosto, a Rua Direita parece uma autoestrada pedonal. Em Maio, às nove da manhã, é provável que esteja sozinho na muralha, a olhar para o Alqueva com o som dos pássaros e pouco mais.

Há razões práticas: as temperaturas rondam os 20-25°C, perfeitas para caminhar. O campo está verde, as flores estão no auge, e a luz ao final da tarde no Alentejo em Maio é qualquer coisa que os fotógrafos perseguem o ano inteiro.

Mas há uma razão menos óbvia. Em Maio, Monsaraz funciona ainda como aldeia, não como cenário. Os residentes estão nas suas rotinas, as festas são feitas para a comunidade, e quem visita entra nesse ritmo em vez de impor o seu. É a diferença entre assistir e participar.

O que fazer além das festas

As festas populares de Maio são, por natureza, breves. Uma procissão aqui, uma bênção ali, um arraial à noite. O resto do tempo, Monsaraz tem o que oferecer, e não estou a falar de ficar sentado na muralha a contemplar a existência (embora isso também funcione).

O Cromeleque do Xerez é uma das razões mais sólidas para vir a esta zona. Este monumento megalítico, realinhado quando a barragem do Alqueva subiu as águas, é anterior a Stonehenge. Fica a poucos quilómetros de Monsaraz e é visitável livremente. Vá ao final da tarde: a luz rasante entre as pedras é espetacular, e provavelmente não terá mais do que meia dúzia de pessoas à volta.

Para famílias ou para quem quer simplesmente um sítio onde parar e respirar, o Parque de Merendas da Praia Fluvial de Monsaraz é uma paragem obrigatória. Em Maio a água ainda está fresca para banhos (a não ser que seja daqueles corajosos), mas o espaço para merendas junto ao lago é excelente. Leve pão alentejano, queijo de Serpa e uma garrafa de vinho da região. Não precisa de mais.

Se vier com crianças, o Parque Megafauna Monsaraz é uma surpresa inesperada. Réplicas de animais pré-históricos em tamanho real, num espaço ao ar livre. Não é o Jurássico de Hollywood, é melhor: é um parque didático onde os miúdos correm entre mastodontes e os adultos aprendem coisas que não sabiam. Confirme horários localmente antes de ir.

As noites de Maio em Monsaraz

Aqui está uma coisa que muita gente não sabe: Monsaraz está na primeira Reserva Dark Sky da Europa. Isto significa que a poluição luminosa é controlada, e as noites de céu limpo são de outro mundo. Em Maio, com as noites amenas mas sem o calor sufocante do Verão, as condições para observação astronómica são ideais.

A observação de estrelas na Reserva Dark Sky de Monsaraz é das experiências mais impressionantes que se podem ter no Alentejo. E se quiser algo mais estruturado, a observação astronómica no Observatório do Lago Alqueva oferece sessões com telescópios e guias especializados. Reserve com antecedência, especialmente em fins de semana de Maio.

Combinar uma noite de arraial popular, com música e petiscos na praça, com uma sessão de observação de estrelas depois é o tipo de programa que só acontece num sítio como este.

O que comer

Estamos no Alentejo, portanto a resposta curta é: tudo. A resposta mais útil: procure açorda alentejana, migas com carne de porco, e ensopado de borrego. Em Maio, o gaspacho alentejano (que não é o espanhol, atenção) começa a aparecer nos menus, servido frio com pedaços de pão e tomate.

Em Monsaraz, as opções de restauração são limitadas mas geralmente honestas. Não espere menus de degustação com espuma de coentros. Espere pratos grandes, bem temperados, com pão bom e azeite a sério. A sopa de cação com coentros, quando aparece, é das melhores coisas que se podem comer na vida, e custa o que custa um café em Lisboa.

Se quiser expandir o roteiro gastronómico para lá do Alentejo, o Alto Alentejo também merece atenção. O guia sobre onde comem os locais em Portalegre é um bom ponto de partida para quem quer combinar esta viagem com uma passagem pelo norte alentejano.

Informações práticas

Monsaraz fica a cerca de duas horas de Lisboa e a pouco mais de uma hora de Évora. Não há transportes públicos dignos desse nome, portanto vai precisar de carro. O estacionamento fora das muralhas é gratuito e razoavelmente fácil em Maio (em Agosto é outra história).

Para alojamento, reserve com alguma antecedência se vier num fim de semana. Monsaraz tem casas rurais e pequenos hotéis com charme, mas a capacidade é limitada. Reguengos de Monsaraz, a poucos quilómetros, tem mais opções e preços mais baixos.

As festas populares de Maio não têm horários rígidos nem bilhetes. São eventos comunitários. Consulte a junta de freguesia de Monsaraz ou o posto de turismo de Reguengos de Monsaraz para datas exactas, que podem variar de ano para ano. O Dia das Cruzes é fixo a 3 de Maio, mas os arraiais e atividades paralelas podem acontecer no fim de semana mais próximo.

Combinar com mais Alentejo

Se tiver mais do que um dia, Monsaraz combina bem com Évora (a meia hora), com a rota dos vinhos de Reguengos, ou com uma descida até à zona de Portalegre. Se optar por esta última, o guia para um fim de semana real em Portalegre dá-lhe um roteiro sem as armadilhas habituais.

Maio é, de todos os meses, o mais honesto para visitar o Alentejo. Não é a versão de postal de Verão, com campos dourados e 40 graus. É a versão verde, florida, com noites frescas e tradições que existem há séculos. Monsaraz, com as suas muralhas a enquadrar tudo isto, é simplesmente o melhor sítio para o ver.

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