Melgaço Termal: Águas Bicarbonatadas e Onde Beber a Fonte
Em Melgaço bebe-se a fonte em jejum, três copos por dia, com sabor a metal e disciplina de termalista antigo. Um guia honesto às águas bicarbonatadas, ao Alvarinho que justifica a viagem e ao museu de cinema que ninguém espera encontrar a 80 metros do rio Minho.
Há um gesto em Melgaço que parece simples e não é. Encher um copo de plástico na bica da fonte termal, beber em jejum, fazer uma careta porque sabe a metal, e voltar a encher. Os clientes regulares trazem garrafões de cinco litros do carro, levam-nos vazios para a saída do parque e regressam carregados como quem vai a uma feira. Não é folclore. É medicina caseira, com século e meio de prescrição médica nas costas, e é a razão pela qual esta vila do extremo do Minho, encostada à Galiza pelo rio Minho, tem hotel, casino e parque termal apesar de ter pouco mais de nove mil habitantes.
Vim a Melgaço pelo Alvarinho, como toda a gente. Fiquei pelas águas. E isto vale o aviso: se vem para o spa de fim de semana com ervas aromáticas e velas perfumadas, há sítios mais confortáveis. Melgaço termal é outra coisa. É clínico, é austero, é eficaz. As águas bicarbonatadas gasocarbónicas, sulfúreas, ferruginosas, fluoretadas saem do chão a 20 graus em duas nascentes principais, Fonte Nova e Fonte da Calda, e estão tipificadas para problemas de fígado, vias biliares, diabetes, estômago e reumatismos. Não é marketing. É a indicação que consta nas brochuras das Termas e que os médicos hidrologistas escrevem nas fichas dos termalistas há gerações.
O que é, ao certo, uma água bicarbonatada
Vamos despachar a química, porque sem ela o resto não faz sentido. Uma água bicarbonatada é uma água mineral natural com predominância de iões bicarbonato, normalmente em concentração superior a 600 mg por litro. Quando a isto se junta dióxido de carbono dissolvido (a tal componente gasocarbónica que faz a água pinicar na língua), está-se perante um perfil clássico de águas digestivas. O bicarbonato neutraliza acidez, estimula a produção de bílis, facilita o esvaziamento gástrico. Em linguagem de aldeia: limpa o fígado e faz a digestão.
As águas de Melgaço acrescentam ao bicarbonato uma carga ferruginosa apreciável, e é por isso que ao fim de cinco minutos no copo a água ganha uma película alaranjada na superfície e um sabor metálico inconfundível. Os termalistas habituados sabem que se bebe rápido, sem cheirar muito, e que o efeito laxante chega entre vinte minutos e uma hora dependendo da pessoa e do copo. Se for a primeira vez, comece por meio copo. Não é por brincadeira que existem casas de banho a cada cinquenta metros no parque.
Onde se bebe a fonte
O Parque Termal de Melgaço fica a cerca de quatro quilómetros do centro da vila, em Peso, na margem do rio Minho. Chega-se de carro em sete minutos pela N202 ou a pé em cinquenta, por uma ecovia bonita que segue o rio e cruza vinhas de Alvarinho. Recomendo o passeio a pé pelo menos uma vez, de manhã cedo, para perceber a paisagem que torna tudo isto coerente: granito, água, vinha, Galiza do outro lado.
Dentro do parque há duas zonas distintas que importa não confundir. A bebida das águas, que é gratuita e aberta ao público em horário alargado (a partir do início da manhã até ao fim da tarde, confirme localmente porque varia com a época), e o programa termal propriamente dito, com banhos, duches, inalações e bertholaix, que se paga e exige marcação prévia. A consulta médica de admissão custa, na ordem dos vinte euros, e é praticamente obrigatória para quem queira fazer o programa completo. Para beber a fonte basta aparecer com o seu copo. Há copos descartáveis à venda no quiosque por menos de um euro, mas se está a falar a sério, compre um copo de cerâmica nas lojas da vila e leve-o consigo. Vai usar uma semana e levar para casa.
A rotina canónica é assim: três copos por dia, em jejum ou pelo menos uma hora antes das refeições. Primeiro copo às oito da manhã, segundo a meio da manhã, terceiro ao fim do dia. Entre copos, caminha-se. O parque tem percursos sinalizados com cento e cinquenta metros, trezentos metros, quinhentos metros, e os termalistas mais antigos cumprem-nos com a disciplina de quem reza o terço.
Quando ir, e quando não ir
A época termal oficial começa em abril e estende-se até outubro ou novembro. Em pleno agosto está cheio, sobretudo de portugueses idosos do Norte e de emigrantes em férias que vêm fazer a cura de duas semanas. Se quer o parque para si, vá em maio ou em meados de setembro. O tempo está bom, as vinhas estão verdes ou em vindima, e consegue mesa em qualquer restaurante sem reserva.
O inverno é outra história. Melgaço fica a 80 metros de altitude na vila mas a serra de Peneda começa logo ali atrás e em janeiro pode estar a três graus com chuva miudinha que entra pelas costas. O parque termal funciona em horário reduzido. Para beber a fonte continua a valer a pena se está de passagem, mas para programa termal completo prefira a primavera.
Dormir, comer, sobreviver
O Hotel do Parque, dentro do recinto termal, é a opção lógica para quem faz o tratamento, com piscina termal interior e ligação directa ao balneário. Não é luxuoso, é funcional, e o pequeno-almoço tem fruta a sério em vez de iogurtes industriais. Para quem prefere ficar na vila, há alojamentos locais em casas de granito recuperadas com preços razoáveis em época baixa.
Para comer, a recomendação muda consoante o dia. Para almoço com vista, suba ao Miradouro do Castelo, no ponto mais alto da vila, ao lado da torre de menagem. A esplanada paga-se em paisagem: o Minho lá em baixo, a Galiza em frente, e nos dias limpos vê-se até à serra do Soajo. Peça o cabrito quando estiver na ementa, peça o bacalhau à lagareiro no resto do tempo, e não se esqueça do Alvarinho da casa. Para jantar, prefira as tascas da rua principal: as portas estreitas, ementa pequena, dono que aparece à mesa para explicar o que veio fresco.
Há um detalhe que toda a gente esquece: a água termal de Melgaço não combina com vinho. O bicarbonato neutraliza a acidez e estraga o nariz do Alvarinho. Os termalistas que sabem cumprem o programa de manhã e bebem vinho ao jantar, longe da última dose de água. Não tente provar tudo ao mesmo tempo.
O Alvarinho que justifica a viagem
Falar de Melgaço sem falar de Alvarinho é como falar de Pinhão sem falar de Porto. É a casta que define o microclima e que pôs esta vila no mapa enológico mundial. A sub-região de Monção e Melgaço é o único território português onde o Alvarinho atinge o seu carácter pleno: corpo, mineralidade, capacidade de envelhecer. Beba-o jovem para o frescor de citrinos e flor branca, beba-o com três anos para o lado mais salgado e complexo.
Se quer fazer a coisa em condições, reserve uma prova guiada de sete Alvarinhos da mesma uva, num único produtor, para perceber como o terroir, o ano e o método mudam tudo. Para quem prefere autonomia e mais quilómetros, há um roteiro auto-guiado pelas caves da região que se faz em meio dia de carro com paragens marcadas. Em qualquer dos casos, marque sempre antes. As caves pequenas não recebem turistas de passagem.
O museu que ninguém esperava
Há um museu em Melgaço que vale por si só uma viagem, e que está numa daquelas vilas portuguesas onde, à primeira vista, ninguém esperaria encontrá-lo. O Museu do Cinema de Melgaço, dedicado à colecção de Jean-Loup Passek, alberga uma das mais importantes colecções privadas europeias de cartazes, projectores antigos e memorabilia do cinema. Passek, crítico francês falecido em 2016, deixou aqui o seu acervo por ligação familiar a Castro Laboreiro. Resultado: pode ver-se uma máquina Pathé de 1908 e cartazes originais de filmes de Fellini ao lado da igreja matriz. Ironia perfeita.
A entrada é económica, abre de terça a domingo, e basta uma hora bem aproveitada. Vá depois do segundo copo de água, antes do almoço. É o ritmo certo.
Esticar até Castro Laboreiro
Se tem dois dias, e tem carro, suba a Castro Laboreiro. São uns vinte e cinco quilómetros para cima, por uma estrada que parece um exercício de paciência, e o resultado é uma das aldeias mais altas e mais antigas de Portugal, com castelo em ruínas a 1 mil metros e cães da raça que dá nome ao sítio a pastorear entre granito. Almoce qualquer coisa simples na aldeia, o cabrito assado e o pão de centeio são suficientes, e desça antes de escurecer. A estrada à noite com nevoeiro não é hospitaleira.
Logística sem floreados
De Porto a Melgaço são cerca de duas horas e meia de carro, todo pela A3 e depois A28 e estrada nacional na parte final. De transportes públicos é uma chatice: comboio até Valença e autocarro local com horários esparsos. Para quem não conduz, a alternativa séria é um táxi a partir de Valença (cerca de 30 euros, confirme localmente) ou alugar carro em Braga.
Para quem vem de Espanha, Melgaço fica a meia hora de Salvaterra de Miño pela ponte internacional. Combinar uma noite em cada lado é uma das melhores ideias logísticas que pode ter neste canto da Península.
O que NÃO levar: roupa de spa cinco estrelas. Aqui usa-se chinelo simples, toalha, e se for fazer programa termal, fato de banho discreto. O que LEVAR: copo de cerâmica ou metal para a fonte, garrafa térmica para encher à saída, calçado de caminhada para o parque, e paciência para o ritmo lento. Aqui ninguém tem pressa.
Se gosta destas viagens, gosta destas também
Para quem está a montar um roteiro pelo Minho com algum tempo, há dois ou três sítios que se atravessam quase sempre. Barcelos é um deles, e tem três peças que merecem leitura antes de chegar: o guia honesto da Festa das Cruzes em maio, que evita os erros típicos de quem vai pela primeira vez; o guia para famílias com crianças, se viaja com miúdos pequenos; e o roteiro café a café, para quem leva o ritual da bica a sério. Servem como mapa de viagem entre Melgaço e o resto do Minho.
A coisa toda em três frases
Melgaço é um sítio que se faz devagar. As águas bicarbonatadas funcionam se as beber em série e em jejum, não em copo único de curiosidade, e o Alvarinho é melhor à noite, longe da fonte. Venha em maio ou em setembro, durma duas noites, suba a Castro Laboreiro num dos dias, visite o Museu do Cinema noutro, e volte para casa com um garrafão na bagageira e a digestão a funcionar de outra maneira. Não é nada glamoroso. É melhor do que isso.