Levadas da Madeira no Verão: E a Alternativa em Sintra
Às 8h da manhã no Caldeirão Verde, a 880 metros, a temperatura anda pelos 15 graus enquanto o Funchal ferve lá em baixo. Guia honesto às melhores levadas da Madeira para o verão, com horários, logística do Rabaçal e a alternativa continental: os trilhos frescos da costa de Sintra.
Há uma ideia feita que precisa de morrer: a de que a Madeira no verão é só calor, cruzeiros e piscinas de hotel no Funchal. Quem pensa assim nunca subiu aos 900 metros do Parque Florestal das Queimadas numa manhã de agosto, com o nevoeiro a escorrer pelas urzes e a temperatura 10 graus abaixo da que ficou lá em baixo, junto ao mar. As levadas, esses canais de irrigação escavados a partir do século XVI para levar água do norte húmido ao sul seco da ilha, são hoje a melhor rede de trilhos de verão da Europa. E digo verão sem ironia: enquanto o continente ferve, a floresta Laurissilva mantém-se fresca, ensombrada e verde.
Este artigo é sobre isso: quais as levadas que valem mesmo a pena entre junho e setembro, a que horas ir para não cozinhar nem apanhar multidões, e o que levar. E no fim, uma confissão de quem escreve a partir de Sintra: se o bilhete de avião para o Funchal não couber no orçamento, a serra e a costa sintrenses oferecem o mais próximo que o continente tem de um microclima de levada.
Porque é que as levadas funcionam no verão
A matemática é simples: altitude mais floresta igual a fresco. O Funchal em agosto anda pelos 26 graus, mas a maioria das levadas clássicas corre entre os 700 e os 1400 metros, dentro da Laurissilva, a floresta subtropical húmida que é Património Mundial da UNESCO desde 1999. Lá dentro, o sol raramente toca no chão. Loureiros, tis e vinháticos formam um teto contínuo, e a própria água do canal, sempre a correr ao teu lado, funciona como ar condicionado natural.
Nota prática antes de avançar: os percursos pedestres oficiais da Madeira têm numeração PR e a região passou a cobrar uma taxa de acesso a não residentes em vários trilhos classificados. O valor e a forma de pagamento têm mudado, por isso confirme localmente ou no site oficial antes de ir. Leve o comprovativo no telemóvel.
Os percursos que escolheria num verão sem calor excessivo
Levada do Caldeirão Verde (PR9): a rainha, sem discussão
Se só puder fazer uma, é esta. Parte do Parque Florestal das Queimadas, acima de Santana, a cerca de 880 metros de altitude, e segue durante uns 6,5 quilómetros em cada sentido até uma cascata que cai dentro de um anfiteatro de rocha coberto de musgo. O percurso é praticamente plano, porque as levadas foram desenhadas para a água correr devagar, mas atravessa quatro túneis escavados à mão. Lanterna frontal não é opcional, é obrigatória. A temperatura aqui raramente passa dos 20 graus mesmo em pleno agosto, e nos dias de nevoeiro anda pelos 15.
A minha opinião: comece às 8h da manhã. Às 10h30 chegam os grupos organizados e o trilho, que é estreito, transforma-se numa fila indiana com paragens para selfies. Às 8h tem a floresta para si e o som é só água e bisbis, o pássaro endémico que parece um esquilo com asas.
Levada das 25 Fontes (PR6): sobrevalorizada às 11h, imperdível às 8h
Vou ser honesto: as 25 Fontes são o trilho mais famoso da ilha e, no verão, ao meio-dia, a lagoa final parece uma paragem de autocarro. Mas há uma razão para a fama. O percurso parte do Rabaçal, no planalto do Paul da Serra, e desce pela Laurissilva até uma parede de rocha onde dezenas de nascentes escorrem para uma lagoa fria. São pouco mais de 4 quilómetros em cada sentido, com a Cascata do Risco como bónus a meio caminho.
Detalhe logístico que ninguém lhe diz: a estrada de acesso ao Rabaçal está fechada a carros particulares. Estaciona-se junto à estrada regional no Paul da Serra e desce-se a pé (uns 2 quilómetros de asfalto) ou apanha-se o shuttle que faz a ligação. O planalto está a mais de 1200 metros, por isso mesmo em julho leve um corta-vento: já apanhei 14 graus e nevoeiro cerrado ali em pleno agosto, meia hora depois de sair de um Funchal a 27.
Vereda dos Balcões (PR11): para dias preguiçosos ou famílias
Nem todos os dias pedem épica. A partir do Ribeiro Frio, na estrada que liga o Funchal ao norte, este passeio de 1,5 quilómetros em cada sentido, plano e à sombra, termina num miradouro sobre o vale da Ribeira da Metade, com o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo ao fundo nos dias limpos. Meia manhã chega. Combine com uma truta no Ribeiro Frio, terra de viveiros de trutas desde os anos 50, e tem um dia perfeito de baixa intensidade.
Levada do Furado (PR10): a travessia com carácter
Para quem quer um dia inteiro: do Ribeiro Frio até à Portela são cerca de 11 quilómetros de levada antiga, com troços escavados na rocha e proteções de cabo de aço nas zonas mais expostas. É linear, portanto precisa de organizar transporte na Portela ou voltar para trás. Menos gente do que nas duas primeiras, floresta igualmente fechada, fresco garantido.
Levada do Rei (PR18): a alternativa sem multidões
Parte perto de São Jorge, no norte, e segue uns 5 quilómetros em cada sentido até ao Ribeiro Bonito, um vale fechado onde a Laurissilva parece nunca ter visto um humano. É a minha escolha para agosto: mesmo em época alta, cruza-se com uma fração das pessoas das 25 Fontes.
As regras de verão que aprendi a respeitar
- Comece cedo. Antes das 9h tem sombra fresca, trilhos vazios e melhor luz para fotografias.
- Lanterna frontal sempre. Vários percursos têm túneis. A do telemóvel serve num aperto, mas ocupa-lhe a mão num trilho estreito.
- Camadas de roupa a sério. Pode sair de casa a 26 graus e caminhar a 15. Corta-vento leve na mochila, sempre.
- Água e comida. Não há cafés a meio das levadas. Um litro e meio por pessoa nos percursos longos.
- Verifique o estado dos trilhos. Derrocadas e obras fecham percursos com regularidade; o site oficial do turismo da Madeira mantém a lista atualizada.
- Calçado com sola agarradinha. O piso das levadas é terra batida e pedra molhada. Ténis de corrida com sola gasta já mandaram muita gente ao chão.
E se não for à Madeira? A resposta chama-se Sintra
Aqui entra a parte em que escrevo com a camisola do clube. Vivo entre trilhos, e a verdade é que o continente tem um lugar onde o verão também não queima: a serra de Sintra e a sua costa. O mesmo mecanismo da Madeira funciona aqui em miniatura: o Atlântico empurra nevoeiro para cima da serra, os habitantes chamam-lhe o capacete, e enquanto Lisboa sufoca a 35 graus, Sintra anda muitas vezes nos 24 com brisa.
Os trilhos costeiros entre a Praia Grande e a Praia da Adraga são o equivalente continental de uma levada litoral: falésias, vento fresco, e no fim um mergulho em água a 17 graus que lhe recalibra o sistema nervoso. Já escrevemos sobre os trilhos costeiros de Sintra e porque março é o mês ideal, mas a versão de verão funciona com uma regra: caminhe de manhã, mergulhe ao meio-dia, e à tarde suba à vila para um gelado e sombra de plátanos.
Para base de operações, o Moon Hill Hostel é a escolha óbvia para quem caminha: ambiente descontraído, localização na vila e o tipo de hóspedes que às 7h30 já estão a atar as botas. E se as pernas pedirem misericórdia depois de dois dias de falésias, o dia de spa no Penha Longa é a recuperação que as levadas da Madeira não oferecem. Para explorar a vila com calma, o nosso guia de bairros de Sintra aponta os recantos onde os autocarros de excursão não param.
O veredicto
Se puder, vá à Madeira. Caldeirão Verde às 8h de uma manhã de julho é uma das melhores caminhadas da Europa, e a temperatura dentro da Laurissilva envergonha qualquer ar condicionado. Escolha alojamento no norte, em Santana ou São Vicente, em vez do Funchal: fica mais perto dos trilhos e dorme com o som da ribeira. Se não puder, Sintra espera-o com nevoeiro atlântico, falésias e água fria. Nos dois casos, a regra é a mesma: madrugue, leve camadas, e deixe o telemóvel no bolso nos túneis. A lanterna frontal agradece.