Sintra à Chuva: Palácios, Quintas e Pastelarias Quentes
Há uma teoria que ninguém diz aos turistas: Sintra é melhor à chuva. Um roteiro de interiores pelos palácios, quintas e pastelarias onde o vidro embacia e a queijada custa um euro.
Há uma teoria que circula entre os guias locais e que ninguém tem coragem de dizer aos turistas que chegam de autocarro às nove da manhã: Sintra é melhor à chuva. Não apesar da chuva. Por causa dela. Quando as nuvens descem do Cruz Alta e ficam presas nas torres do Pena, quando os jardins da Regaleira cheiram a musgo molhado e a fila para o Poço Iniciático encolhe para metade, a vila finalmente faz sentido. Aquilo que Byron viu, aquilo que Eça descreveu, aquilo que os reis arrastaram a corte inteira para vir cá viver, era isto: um microclima onde chove enquanto em Lisboa brilha o sol.
Vai chover. Aceite. Compre um guarda-chuva barato na primeira loja da Volta do Duche (cinco euros, não vale mais do que isso, e vai partir-se ao terceiro dia) e tome a decisão estratégica que muda tudo: faça de Sintra um dia de interiores. Palácios com lareiras acesas, quintas com tetos abobadados, pastelarias onde o vidro embacia. Este é o roteiro.
O erro que toda a gente comete
O erro é o Pena. Não porque o Pena seja mau, é, na verdade, uma das coisas mais fotogenicamente delirantes da Europa, mas porque toda a gente o faz primeiro, e à chuva, com nevoeiro, vê-se três metros à frente e a fila para o telerifo enche-se de pessoas em capas de plástico transparente a discutir em seis línguas. Inverta a ordem. Comece em baixo, na vila, e suba só ao fim da tarde, quando os autocarros já se foram.
A primeira paragem, num dia de chuva séria, é o Palácio Nacional de Sintra, aquele dos dois cones brancos que se vê em todos os postais. É o mais antigo, o mais íntimo, e crucialmente o mais coberto. A Sala dos Cisnes, a Sala das Pegas, a cozinha com as duas chaminés monumentais por onde se vê o céu cinzento, tudo isto sem apanhar uma gota. Entrada ronda os 13 euros, abre às nove e meia, e a uma quinta-feira chuvosa de manhã pode tê-lo quase só para si durante a primeira hora. Quem acha que palácios são todos iguais, vá ver a Sala dos Brasões e depois discutimos.
Quintas com história, paredes secas
A Quinta da Regaleira é a paragem obrigatória, mas com uma ressalva: o Poço Iniciático fica ao ar livre e à chuva torna-se escorregadio de um modo que justifica processos judiciais. Suba-o sem pressa, agarre-se ao corrimão, e depois fuja para dentro do palácio principal. As capelas subterrâneas, os túneis, a cripta, isto tudo é interior. Vai sair pingando mas com a certeza de que percebeu finalmente porque é que os esotéricos do início do século passado escolheram Sintra para construir os seus delírios maçónicos.
Se sobrar tempo, e se a chuva apertar, considere Monserrate. Fica a uns três quilómetros da vila, é menos visitada, e o palácio em estilo mourisco-vitoriano tem corredores cobertos suficientes para passar duas horas sem ver céu. Os jardins, projetados por William Stockdale com plantas trazidas de meio mundo, ganham uma densidade de filme inglês quando o nevoeiro se instala. Para entender Sintra para lá das fotos do Instagram, vale a pena ler o nosso guia de bairros de Sintra, que mapeia o que existe para além da Volta do Duche.
A geografia das pastelarias
Aqui chegamos ao ponto que justifica, sozinho, ir a Sintra à chuva: as pastelarias. Há uma economia inteira em Sintra construída em torno de dois doces conventuais, a queijada e o travesseiro, e o frio molhado é o estado climático ideal para os entender.
Comece pela Piriquita, na Rua das Padarias. É um cliché, eu sei, e há sempre uma fila a sair pela porta, mas há uma razão para isso. Os travesseiros são feitos ali, em massa folhada com creme de amêndoa, e saem do forno quentes várias vezes ao dia. Coma um de pé ao balcão, com um galão pequeno, e perceba porque é que a receita está guardada desde 1862. O preço de um travesseiro anda à volta de 1,40 euros. Não compre a caixa de seis, isso é para levar para Lisboa. Coma-os ali, quentes, à chuva que cai do outro lado do vidro.
A Sapa, na Volta do Duche, faz as melhores queijadas. Ponto. As da Piriquita são boas, as da Casa do Preto também, mas as da Sapa têm uma textura de queijo fresco que as outras perderam ao escalar. Uma queijada custa cerca de 1 euro. Coma três. Está a chover, ninguém o vê, e amanhã está em Lisboa a comer salada.
Para um roteiro completo das casas históricas, das menos turísticas às lendárias, leia o nosso roteiro pelas pastelarias históricas de Sintra. Inclui paragens que a maioria dos visitantes nunca encontra, escondidas nas ruas que sobem para o castelo. Se a doçaria conventual lhe interessar mesmo, faz sentido comparar com o nosso roteiro de doces de Páscoa em Mafra, que vive da mesma tradição monástica, mas com receitas distintas.
Almoço com lareira
À uma da tarde, com os pés molhados e os atacadores escuros, precisa de uma mesa quente. Sintra tem dois tipos de restaurantes: os que vivem dos autocarros e servem bacalhau à brás congelado por 18 euros, e os outros. Os outros existem, mas exigem esforço.
Procure tasca de bairro nas ruas que sobem para Santa Maria, longe do centro histórico. Peça o prato do dia, normalmente escrito a giz numa ardósia, e nunca confie em ementa traduzida para quatro línguas com fotografias. Se vir alheira com grelos, peça. Se vir leitão à Bairrada num restaurante que não seja na Bairrada, fuja. Um almoço decente com vinho da casa fica nos 15 a 20 euros por pessoa. Se está a pagar mais e não está num restaurante de chef conhecido, está a pagar pela vista.
O vinho local merece atenção. Sintra tem a sua própria denominação de origem, Colares, das raras vinhas no mundo plantadas em areia, à beira-mar, com videiras de pé franco que sobreviveram à filoxera. Uma garrafa de Colares ramisco ou malvasia num restaurante de Sintra é capaz de o fazer reconsiderar tudo o que pensava sobre vinhos portugueses. Custa o que custar, peça um copo.
Tarde de palácio, com truque
Agora sim, com o estômago cheio e a chuva a abrandar para garoa, suba ao Pena. Mas faça-o ao contrário: pegue no autocarro 434 (cinco euros e meio, circular) e desça no Castelo dos Mouros, não no Pena. Caminhe os 500 metros para cima pelos jardins do Pena, que estão incluídos no bilhete (16 euros completo, 10 euros só jardins) e que à chuva ficam absolutamente desertos. As camélias e os fetos arbóreos, com o nevoeiro a passar entre os ramos, são uma das paisagens mais estranhas e bonitas que vai ver em Portugal. Chegue ao palácio às quatro e meia. Os grupos já se foram embora ou estão a sair em massa para apanhar o autocarro do dia. Tem o terraço cor-de-rosa quase para si.
Os interiores do Pena são, ao contrário do que muita gente espera, surpreendentemente pequenos e domésticos. Foi a casa de fim de semana do rei. Há tetos a cair de pinturas, capelas, salas de fumo, cozinhas com cobre pendurado. Vê-se em hora e meia, com tempo para a chuva voltar a apertar enquanto está lá dentro.
E se afinal não chover?
Pode acontecer. O microclima de Sintra é traiçoeiro nos dois sentidos. Se o sol decidir aparecer ao fim da tarde, sairá à Praia do Cabo da Roca em vinte minutos, e ainda apanha o pôr-do-sol no ponto mais ocidental da Europa continental. Mais a sul, descendo pela estrada da costa, há duas praias que justificam a viagem fora da época balnear: a Praia Grande, com as pegadas de dinossauro fossilizadas na falésia que quase ninguém vê, e a mais selvagem e dramática Praia da Adraga, com formações rochosas que parecem desenhadas por um cenógrafo.
Para quem decidiu transformar a viagem num fim de semana em vez de um bate-volta, vale a pena explorar os trilhos costeiros de Sintra, que ganham outra dimensão entre março e maio. E se a procura por hotéis o assustar, o Moon Hill Hostel resolve o problema com quartos privados a preço de hostel, num edifício do século XIX a cinco minutos da estação. Reserve com antecedência, especialmente se for chover, porque toda a gente tem a mesma ideia.
Como chegar e quanto custa
O comboio de Lisboa parte do Rossio de quinze em quinze minutos, demora cerca de 40 minutos, e custa 2,40 euros num só sentido. Não vá de carro, é uma má decisão, vai passar 45 minutos a procurar lugar e a maldizer a sua existência. Use o passe diário do autocarro 434 + 435 (cerca de 13,50 euros) para circular entre palácios e o centro. Os táxis para Cabo da Roca andam nos 25 a 30 euros.
Levou capa, chapéu, e calçado impermeável? Bom. Trouxe uma muda de meias na mochila? Melhor ainda. Sintra à chuva não é confortável, mas é o que faz de Sintra Sintra. Quem visita só com sol vê uma vila bonita. Quem visita à chuva percebe finalmente porque é que esta vila, a meia hora de Lisboa, tem uma cultura tão diferente da capital. Para perceber o contraste, vale a pena ler também o nosso ensaio sobre cultura local em Lisboa: vai notar que Sintra existe à parte, num clima e numa mitologia próprios.
Volte para Lisboa no comboio das sete, com o casaco a cheirar a chuva e dois travesseiros embrulhados em papel manteiga na mochila. Coma-os no caminho. Já estão frios, mas continuam a ser melhores do que tudo o que vai comer no resto da semana.