Elvas em Festa: O Calendário Local Sem Filtros
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Elvas em Festa: O Calendário Local Sem Filtros

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Elvas tem festa o ano inteiro, mas ninguém escreve o calendário em lado nenhum porque os locais assumem que todos sabem. Aqui ficam os meses que justificam vir, os que justificam evitar, e a única noite de fado que merece o preço sem hesitação.

Elvas tem um problema de marketing: a UNESCO classificou as muralhas em 2012, os autocarros de Espanha despejam visitantes que ficam noventa minutos, e a maioria vai-se embora convencida de que viu a cidade. Não viu. Viu pedra. A cidade só aparece quando há festa, e há festa mais vezes do que se pensa, espalhada por um calendário que ninguém escreve em lado nenhum porque toda a gente cá assume que toda a gente cá já sabe.

Este artigo é para quem não sabe. Para quem quer perceber porque é que em julho a Praça da República cheira a alecrim queimado, porque é que em janeiro há velhos a cantar fado às três da tarde num café da Rua de Olivença, e porque é que vir a Elvas em agosto sem reservar dormida com seis meses de antecedência é uma forma rápida de dormir em Badajoz por engano.

Janeiro e fevereiro: a cidade que ninguém vê

O inverno em Elvas é a melhor altura para visitar e a pior altura para escrever sobre. Não há festas grandes. Há, sim, o que os locais chamam o calendário invisível: cantares dos Reis a 6 de janeiro, com grupos a passar de porta em porta nos bairros do centro histórico, e ensaios de Carnaval que começam quase a seguir e enchem coletividades que durante o resto do ano servem de salas de jogos.

Se vem agora, durma fora das muralhas. O Vila Galé Collection Elvas, instalado num antigo convento à entrada da cidade, tem tarifas de inverno que são metade do verão e um pequeno-almoço com queijo de Nisa e enchidos da região que justifica acordar cedo. Para uma experiência mais íntima, o Alojamento Escola do Fado em Vila Fernando, a uns minutos da cidade, é onde dormem os músicos quando há noites de fado, e em janeiro consegue-se reservar com uma semana de antecedência. No verão, esqueça.

Páscoa: a procissão que não está nos folhetos

A Semana Santa em Elvas não tem o estardalhaço de Braga ou de Sevilha, e isso é precisamente o ponto. Na Sexta-feira Santa há uma procissão do Senhor dos Passos que sai da Sé e percorre o centro histórico em silêncio absoluto, com archotes acesos. Não há música amplificada, não há comentário, não há fila de turistas com telemóveis levantados. Há velhas de preto, há o som dos sapatos na calçada, e há o cheiro a cera derretida que fica nas roupas durante dias.

Vá. Mas vá com tempo: estacione fora das muralhas (o parque junto ao Aqueduto da Amoreira é o mais prático e não cobra de noite na maioria dos meses, mas confirme localmente), e ande. A procissão começa pelas 21h, mas a cidade começa a mudar de ritmo às 18h. Aproveite para jantar antes, leve em conta que muitos restaurantes encerram cedo nessa noite, e nunca, nunca peça uma cerveja na rua durante a passagem do cortejo. Não é proibido. É só uma coisa que não se faz.

Maio: as festas grandes começam

Maio é o mês em que Elvas começa oficialmente a sair de casa. As Festas do Senhor Jesus da Piedade, em setembro, são as maiores do ano, mas é em maio que aparecem as primeiras feiras de produtores: queijos da raia, azeites do Caia, mel das serras à volta. A Feira de São Mateus, dependendo do ano, traz cavalos, vendedores de chocalhos e bancas de doçaria conventual em quantidades que justificam vir só para isso.

É também em maio que começam as noites de fado regulares. O Alentejo não é território natural do fado, e ouvir fado em Elvas tem por isso uma estranheza muito particular: aqui o canto dominante é o cante alentejano, polifónico, masculino, sem instrumentos. O fado, com a sua guitarra portuguesa e o seu lirismo de Lisboa, soa quase a contrabando. E ainda assim funciona, sobretudo em espaços pequenos. A Arkus, Associação Juvenil programa noites em que jovens fadistas locais cantam ao lado de músicos com quarenta anos de palco, e o resultado é menos turístico e mais bruto do que qualquer casa de fado de Alfama.

Junho: santos populares (à maneira do Alentejo)

Esqueça a sardinha assada e o manjerico em vaso de barro. Os santos populares em Elvas são uma coisa diferente: arraiais nos bairros, com músicas tradicionais alentejanas, vinho da casa em copos de plástico, e gente a dançar até às três da manhã sem ninguém filmar. Santo António (12 a 13 de junho) e São João (23 a 24 de junho) marcam-se com fogueiras em pátios privados a que se chega por convite, e com bailes públicos nas freguesias rurais à volta da cidade.

O calor já aperta. Comece a planear horários como os locais: pequeno-almoço cedo, almoço pesado por volta das 13h, sesta entre as 15h e as 18h (sim, mesmo as lojas fecham), passeio ao fim da tarde, jantar tarde. Quem tenta visitar Elvas no verão entre as 14h e as 17h passa três horas a transpirar em ruas vazias e a pensar que a cidade é uma desilusão. Não é. Está só a dormir.

Julho: o auge do calor e o início das deslocações

Em julho, Elvas está oficialmente em modo de verão. As esplanadas da Praça da República funcionam até à uma da manhã, há concertos no Forte da Graça em fins de semana selecionados, e começam a aparecer os festivais menores que dão à cidade o seu carácter. Não espere nomes internacionais. Espere fado, espere cante, espere bandas filarmónicas, espere DJs locais a tocar em pátios.

É também em julho que faz sentido começar a explorar a região mais alargada. Elvas e Portalegre, embora ambas alentejanas, são quase opostos: Elvas é fronteira, militar, abaluartada, planície; Portalegre é serra, lã, ar mais fresco, ritmo mais lento. A uma hora e meia de carro, é fácil fazer um fim de semana cruzado, e neste caso vale a pena seguir o guia para um fim de semana em Portalegre sem armadilhas, que dispensa as paragens turísticas previsíveis. Para perceber a cidade pelos pés, há também um itinerário a pé pelos bairros que valem mesmo a caminhada, e à mesa, a lista dos sítios onde os portalegrenses realmente comem resolve o problema mais difícil de qualquer cidade pequena: onde almoçar bem sem cair na armadilha do menu turístico.

Agosto: o mês a evitar (ou a abraçar com estratégia)

Agosto em Elvas é a confirmação de que a cidade existe. Os emigrantes voltam, os portugueses de Lisboa e do Porto descobrem que existe uma fronteira interior que não é Caia, e os espanhóis de Badajoz vêm em massa aos sábados para almoçar e fazer compras. Os preços sobem, os restaurantes ficam cheios, e tentar entrar numa esplanada da Praça da República sem reserva por volta das 21h é um exercício de paciência ou frustração.

Estratégia: ou se rende ao caos e participa, ou se afasta. Para participar, vá a um arraial qualquer numa freguesia rural (Vila Boim, São Brás dos Matos, Barbacena), onde o ambiente é genuíno e os preços ainda fazem sentido. Para se afastar, marque uma noite no serão de fado e tradição na antiga escola de Vila Fernando, que recupera um edifício escolar do Estado Novo e o transforma, ao fim do dia, num espaço de música, mesa partilhada e conversa. É uma das poucas experiências em Elvas que vale o preço sem hesitação, e a única que recomendo sem reservas para quem só vem por uma noite.

Setembro: a festa grande

As Festas do Senhor Jesus da Piedade são, sem discussão, o evento maior do calendário elvense. Acontecem em setembro, normalmente na última semana, e duram nove dias. Há procissão religiosa, há feira de gado, há tasquinhas, há concertos de música popular portuguesa em palco grande, e há fogo de artifício a fechar com uma intensidade que justifica reservar dormida na própria cidade, porque ninguém quer conduzir de volta a Espanha à uma da manhã com a A6 cheia.

Avisos práticos: as tasquinhas servem comida feita ao momento, em quantidades alentejanas (leia-se: muito), e a preços que ainda são razoáveis. Procure as que têm mais idosos da terra a comer, e ignore as que parecem mais limpas. As que parecem mais limpas servem comida congelada. As que parecem caóticas, com toalhas de plástico e uma única empregada para vinte mesas, servem migas, ensopado de borrego e sericaia que justificam a viagem.

Outubro e novembro: a colheita e a matança

Outubro traz a vindima e novembro traz a matança do porco. Não há um festival oficial nem para uma nem para outra, mas há, em ambos os meses, oportunidades para participar em coisas que em quase nenhum outro sítio do país ainda se fazem com a regularidade com que se fazem aqui. Algumas quintas à volta de Elvas (Vale de Caia, Olivença, Barbacena) abrem ao público em fins de semana selecionados, e o sistema funciona quase sempre por contacto direto, telefone, perguntar a alguém que conheça alguém. Não procure no Google.

Se ficar pela cidade, novembro é o mês em que voltam os ensaios das filarmónicas para o São Martinho (11 de novembro), e em que começam a aparecer, nas tascas, as primeiras castanhas assadas em latas de azeite reconvertidas. A castanha alentejana não é a melhor castanha portuguesa, isso é mérito de Trás-os-Montes, mas comida em pé, à porta de uma tasca, com um copo de tinto da casa a 1,50 euros, é uma das experiências menores que mais memória deixam.

Dezembro: o silêncio bonito

O Natal em Elvas é discreto. Há iluminações na Praça da República, há um pequeno mercado de Natal que dura poucos dias, e há a Missa do Galo na Sé a 24 de dezembro, que vale a pena por razões que pouco têm a ver com fé e muito com a acústica de uma igreja seiscentista cheia de gente em silêncio. A 31 de dezembro, esqueça as grandes festas. A passagem de ano em Elvas é caseira, e quem tenta encontrar uma rave acaba a beber espumante numa esplanada com cinco pessoas e um casal de espanhóis perdidos.

Onde dormir, conforme o mês

  • De novembro a março: Vila Galé Collection Elvas com tarifas de inverno, ou turismo rural à volta com aquecimento (confirme).
  • De abril a junho: o Alojamento Escola do Fado em Vila Fernando faz sentido, sobretudo se vier para noites de música.
  • Julho a setembro: reserve com pelo menos dois meses de antecedência, e considere ficar fora da cidade, em Vila Boim ou Campo Maior, e entrar de carro.
  • Outubro: a melhor relação qualidade-preço do ano, com tempo ainda ameno e cidade vazia.

O que comer e o que ignorar

Algumas regras que vale a pena guardar. Primeiro: peça migas alentejanas, ensopado de borrego, sericaia com ameixa de Elvas (a verdadeira, não a importada), e queijo de Nisa. Segundo: ignore qualquer ementa em quatro línguas. Terceiro: a ameixa de Elvas verdadeira tem certificação DOP, vende-se em pequenas caixas em lojas do centro histórico, e custa o que custa porque demora dois dias a fazer. Quarto: o vinho da região é tinto, robusto, e não precisa de ser caro para ser bom. Cinco euros a garrafa, na maioria das tascas, é qualidade honesta.

O calendário festivo de Elvas é, no fundo, um manual de instruções para não confundir a cidade com as suas muralhas. As muralhas estão sempre lá. A cidade só aparece quando há festa. E há festa o ano inteiro, basta saber procurar, e estar disposto a chegar a um arraial numa freguesia que não vem nos mapas, sem saber quem está lá, e descobrir, três horas depois, que se está a dançar com um senhor de oitenta e dois anos que durante toda a vida foi pedreiro e que sabe de cor as letras de quarenta modas alentejanas. É para isso que se vem.

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