Caminhar em Elvas: Trilhos por Dificuldade e Paisagem
Cinco trilhos a partir de Elvas, ordenados do passeio matinal pelas muralhas até aos 18 km até à fronteira do Caia. Onde dormir, o que comer, e porque é que Novembro é o melhor mês para apanhar azeitona com os locais.
Elvas não é destino óbvio para botas de caminhada. As pessoas vêm pelas muralhas, pela ameixa d'Elvas, por aquela fotografia obrigatória do Aqueduto da Amoreira a cortar o céu como se fosse cenário de ópera. Depois almoçam, dormem a sesta, vão-se embora. Erro. A geografia que torna esta cidade um milagre militar do século XVII, as colinas baixas, as planícies que se desdobram até Espanha, os olivais teimosos, é exactamente a mesma geografia que faz dos arredores um dos sítios mais subestimados do Alentejo para andar a pé.
O truque é não esperar a Serra da Estrela. Aqui não há vertigem, não há pinhal denso, não há sinalética perfeita. Há sol implacável de Maio a Setembro, há sombra escassa, há chãos de xisto e cascalho que dão cabo das solas baratas. Há também silêncio real, daqueles que já quase não existem em Portugal, e horizontes onde se vê a curvatura da Terra ao fim da tarde. Vale a pena. Mas é preciso planear.
Antes de calçar as botas: o que ninguém vos diz
Primeiro: não venham caminhar entre Junho e meados de Setembro a não ser que saiam à porta às seis da manhã e regressem antes das dez. O Alentejo no Verão não é uma metáfora, é um problema de saúde pública. Levem dois litros de água por pessoa, mesmo num percurso curto, mesmo que vos pareça exagero. Não é.
Segundo: o calçado. Tenis de corrida não chegam para a maioria destes percursos. As pedras soltas em torno dos fortes da Graça e de Santa Luzia são pequenas armadilhas para tornozelos. Levem botas de cano médio, ou pelo menos sapatilhas de trail decentes.
Terceiro: para uma base de operações sensata, há duas opções honestas em Elvas. O Vila Galé Collection Elvas ocupa o antigo Convento de São Paulo dentro das muralhas, com piscina para o regresso suado e pequeno-almoço a sério. Para algo mais íntimo e a preço bem mais terreno, o Alojamento Escola do Fado em Vila Fernando, a quinze minutos de carro, é a escolha que recomendaria a um amigo, sobretudo se a ideia for misturar caminhadas com noites longas e vinho.
Trilho 1 (Fácil): O perímetro das muralhas, ao amanhecer
Distância: cerca de 4 km. Desnível: residual. Duração: 90 minutos sem pressa.
Começa-se na Praça da República e contorna-se a cintura abaluartada pelo lado de fora, sempre que possível. Não é trilho oficial, é caminho de cabras combinado com estradinhas asfaltadas, mas funciona. Saiam às sete da manhã. Sério. A luz do sol a bater nas cortinas das muralhas, as andorinhas em parafuso por cima dos baluartes, o cheiro a pão acabado de cozer numa das padarias da Rua de Olivença: é um dos melhores momentos sensoriais que a Alta Alentejo oferece, e é gratuito.
Quem já tiver feito caminhadas urbanas em cidades muralhadas sabe a graça que isto tem. Para uma versão noutra cidade alentejana, o nosso guia das caminhadas pelos bairros de Portalegre aplica a mesma lógica: andar devagar onde os turistas só passam de carro.
Dificuldade real: 2/10. Cenário: 7/10, sobretudo se o céu colaborar.
Trilho 2 (Fácil-Moderado): Aqueduto da Amoreira até ao olival
Distância: 6 a 7 km ida e volta. Desnível: ligeiro. Duração: cerca de 2 horas.
Pegam no aqueduto na zona do largo onde os arcos atingem altura máxima e seguem-no para fora da cidade, pelo lado norte. Há um caminho de terra que acompanha a estrutura durante quase toda a sua extensão útil. O aqueduto da Amoreira, lembrem-se, demorou cerca de um século a construir e ainda hoje é uma das maiores obras hidráulicas civis da Península Ibérica. Caminhar por baixo dele, vendo os arcos a baixar de altura à medida que o terreno se eleva, é uma aula de engenharia sem texto.
O que ninguém vos vai dizer: leve um saco. Em Outubro e Novembro, os olivais à beira do percurso ficam carregados de azeitona e, se forem com sorte e simpatia, encontrarão produtores que vos vendem azeite novo directamente do lagar, em garrafa reaproveitada, por valores ridículos comparados com o que se paga em Lisboa. Confirmem horários localmente, isto não é Disneylândia, é vida real, com horários de almoço sagrados.
Dificuldade: 4/10. Cenário: 8/10. Melhor mês: Novembro, com a apanha em curso.
Trilho 3 (Moderado): Forte da Graça e a colina de Nossa Senhora da Conceição
Distância: cerca de 8 km circular. Desnível: 200 m acumulados. Duração: 3 horas.
Este é o trilho que justifica as botas a sério. Saem da cidade pela Porta do Cano, descem para a planície que separa Elvas do Forte da Graça (também conhecido como Forte de Nossa Senhora da Graça, ou Forte do Conde de Lippe), atravessam essa terra rasa e sobem a colina onde o forte se planta como um navio de pedra. Demora o seu tempo. A subida final é exposta ao sol e nunca acaba quando parece que vai acabar.
O forte foi concebido para ser inexpugnável e, vendo-o de perto, percebe-se porquê. Foi finalista das fortificações modernas em Portugal e parte da inscrição UNESCO da cidade. A entrada paga compensa, sobretudo pelas vistas do telhado, mas confiram horários no próprio dia, porque mudam por estação.
O regresso pode fazer-se por uma volta mais a poente, passando pelos vestígios do Forte de Santa Luzia, o irmão menor mas igualmente teimoso, em forma de estrela perfeita. Quem gosta deste tipo de circuito vai gostar também do enquadramento que damos no guia de fim de semana em Portalegre sem armadilhas, que segue uma filosofia parecida: combinar uma cidade-base com escapadelas a pé.
Dificuldade: 6/10. Cenário: 9/10. Aviso: zero sombra entre a cidade e o forte. Não tentem em pleno Agosto.
Trilho 4 (Moderado-Exigente): Vila Fernando e o circuito dos montes
Distância: 12 km circular. Desnível: 250 m. Duração: 4 horas.
Este é o meu favorito, e não é por acaso que recomendo dormir em Vila Fernando se quiserem fazê-lo bem. A aldeia fica a leste de Elvas, ainda no concelho, e está rodeada por caminhos rurais antigos que ligavam herdades, fontes, oratórios. Pouca gente caminha por aqui. Vão cruzar-se com mais ovelhas do que humanos.
O percurso clássico parte da igreja de Vila Fernando, sobe pela parte alta da aldeia, sai pelo caminho das Fontainhas, contorna duas herdades cuja sebe de oliveiras parece desenhada por alguém com TOC, e regressa por um vale onde, na Primavera, o tapete de papoilas e malmequeres é coisa de fotografia que ninguém acredita.
O bónus desta opção é o que vos espera ao fim da tarde. Vila Fernando tem uma tradição de fado pouco conhecida fora do Alentejo, e quem dorme no Alojamento Escola do Fado está a meros metros do espaço onde se realiza a noite de fado e tradição na antiga escola de Vila Fernando. Caminhar 12 km de manhã, sesta longa, fado à noite, jantar de tábua de enchidos: é a sequência perfeita.
Dificuldade: 7/10. Cenário: 9/10.
Trilho 5 (Exigente): Margens do Caia até à fronteira
Distância: 18 km ida e volta. Desnível: pouco, mas implacável pelo sol e pela distância. Duração: 5 a 6 horas.
Para quem quer o desafio sério, descer ao rio Caia e seguir o seu curso na direcção da fronteira espanhola é o trilho mais ambicioso que recomendo a partir de Elvas. Não é tecnicamente difícil. É psicologicamente longo. O Caia é um rio raso, com pegos onde os locais se banham no Verão, e a paisagem alterna entre choupos, sobreiros e milhares de tonalidades de castanho-amarelo dependendo da estação.
Levem comida. Não há cafés. Não há nada. Há um silêncio que se torna físico ao fim de duas horas, e isso é o ponto. Levem também uma vacina mental contra o tédio: este trilho não impressiona com vistas espectaculares, impressiona com persistência. É o trilho do peregrino, não do turista.
Dificuldade: 8/10. Cenário: 7/10 (ganha pontos extra se gostarem de paisagens monótonas no melhor sentido da palavra).
Onde comer depois (e o que evitar)
O erro de quem caminha em Elvas é cair nos restaurantes da praça com menus turísticos plastificados em quatro línguas. Fujam. A regra que aplico no Alentejo é simples: comer onde os carros à porta tenham matrícula portuguesa antiga e o televisor esteja ligado num canal qualquer ao volume do almoço. Para uma análise mais aprofundada da mesma filosofia aplicada noutra capital alto-alentejana, leiam o nosso guia de onde comem mesmo os locais em Portalegre.
Em Elvas, peçam migas com carne de porco, ensopado de borrego, e, se a tasca tiver, bochechas de porco preto. De sobremesa, ameixa d'Elvas, mas só fora da época turística (no resto do ano costuma estar mais fresca). Vinhos da região: peçam tinto de talha, se tiverem, e se o empregado fizer aquela cara de quem percebeu que sabem o que estão a pedir, ainda melhor.
E à noite, depois das pernas estarem moídas
Há quem ache que a vida em Elvas se acaba às oito. Não é verdade, mas exige conhecimento local. Quem dormir intramuros pode acabar a noite em qualquer terraço da Praça da República, com um copo lento, mas a melhor surpresa cultural da cidade é, paradoxalmente (perdoem a palavra), uma associação juvenil. A Arkus, Associação Juvenil tem uma programação irregular mas sempre interessante, mistura de fado, teatro e iniciativas comunitárias. Verifiquem agenda antes de ir, mas se calhar uma noite de programação, é o melhor que vão fazer em Elvas fora das muralhas iluminadas.
Veredicto: vale fazer da caminhada o motivo da viagem?
Sim, mas com asterisco. Elvas não é Gerês, não é Arrábida, não é o que as pessoas associam imediatamente a caminhadas em Portugal. É outra coisa. É o trilho onde se anda mais devagar, onde não se cruza ninguém, onde a paisagem não grita mas trabalha-vos por dentro durante semanas depois de regressarem. Combinem dois ou três destes percursos com noites bem comidas, vinho a sério, e uma noite de fado que ninguém em Lisboa sabe que existe, e terão um fim de semana que justifica os 200 km a contar de Lisboa.
Depois não digam a ninguém. Que isto continue assim, por favor.