Covilhã: Onde o Passado Industrial Ganha Nova Vida nas Paredes
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Covilhã: Onde o Passado Industrial Ganha Nova Vida nas Paredes

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A Covilhã transformou o seu passado industrial num dos museus de arte urbana mais vibrantes da Europa. Descubra como as fábricas de lã deram lugar a murais de Bordalo II e Vhils num roteiro que desafia as pernas e os sentidos.

Há algo de teimoso na Covilhã. É uma cidade que insiste em trepar a encosta da Serra da Estrela, desafiando a gravidade e as pernas de quem a visita. Durante décadas, foi a Manchester portuguesa, um motor fumarento de lanifícios onde o bater dos teares marcava o ritmo da vida. Depois, o silêncio instalou-se em muitas dessas fábricas, deixando para trás carcaças de granito e chaminés que apontam para o céu como dedos acusatórios.

Mas a Covilhã não se deixou ficar pelo luto industrial. Em vez de esconder as cicatrizes, decidiu pintá-las. Hoje, a cidade é um dos museus de arte urbana mais impressionantes da Europa, não porque tenha mais paredes ou tintas mais caras, mas porque aqui a arte não é cosmética; é narrativa. Cada mural conta uma história que está entranhada no ADN da cidade: a lã, os pastores, a dureza da serra e a resiliência das gentes.

O Renascimento através do WOOL

Tudo mudou com o WOOL, O Festival de Arte Urbana da Covilhã. O nome é um trocadilho feliz (e óbvio) com a herança da cidade, mas a curadoria é coisa séria. Esqueçam os tags apressados ou os graffitis genéricos que se veem em qualquer subúrbio de Lisboa ou do Porto. Aqui, os artistas são convidados a mergulhar na história local antes de tocarem na lata de spray. O resultado é uma galeria a céu aberto que dialoga com o espaço envolvente.

Caminhar por estas ruas é um exercício físico e visual. Aconselho vivamente a deixar o carro num dos parques periféricos ou no silo auto (se tiver coragem para as rampas) e usar os elevadores públicos e funiculares, ou as próprias pernas, se quiser justificar o jantar. O centro histórico é um labirinto de ruas estreitas onde o GPS perde a cabeça e os espelhos retrovisores vão para morrer.

Um dos ex-líbris é, inevitavelmente, o trabalho de Bordalo II. O seu "Coruja" (Owl), feito a partir de lixo e desperdícios industriais, olha para a cidade com uns olhos enormes e amarelos, empoleirado numa parede lateral. É uma crítica ao consumismo, claro, mas ali, no contexto da Covilhã, parece mais um guardião das memórias que o lixo representa. A textura das peças de plástico e metal funde-se estranhamente bem com a rudeza do reboco em volta.

Não muito longe, encontramos o trabalho de Vhils (Alexandre Farto). Em vez de adicionar tinta, ele removeu a superfície da parede para revelar o rosto de um local, esculpindo a imagem através da destruição criativa. É uma metáfora perfeita para a própria cidade: descascar as camadas do passado para encontrar uma nova identidade. A técnica de Vhils ganha aqui uma dimensão especial, dado que a própria cidade é feita de camadas geológicas e históricas.

Um Roteiro Improvisado (Mas Essencial)

Não tente ver tudo num dia, ou vai acabar com uma tendinite e uma sobredose de estímulos visuais. Foque-se no núcleo principal entre a Portas do Sol e a Universidade. A Rua das Portas do Sol, por exemplo, é um bom ponto de partida. Daqui, a vista sobre a Cova da Beira é desarmante, especialmente ao fim da tarde, quando a luz bate na encosta e aquece os tons frios do granito.

Se quiser compreender verdadeiramente o que está a ver, não se limite a tirar selfies. Recomendo vivamente que faça a Lã e Paredes: Uma Incursão pelo Património Industrial e Arte Urbana da Covilhã. Há detalhes sobre as antigas tinturarias e a vida operária que não vêm nas placas informativas e que dão uma profundidade totalmente diferente aos murais que vê.

Outra paragem obrigatória é o mural de Add Fuel (Diogo Machado). Ele reinterpreta o azulejo tradicional português com uma twist contemporânea e, muitas vezes, com um humor subtil escondido nos padrões. Na Covilhã, o seu trabalho baseia-se nos padrões dos tecidos de lã locais, criando uma "pele" cerâmica falsa sobre o edifício que engana o olho à distância. É um tributo técnico e estético à indústria que construiu a cidade.

Comer e Beber (Porque a Arte dá Fome)

A Covilhã não é só tinta. É também uma terra de garfo e faca, onde a comida é feita para sustentar quem trabalha no frio. Não espere pratos gourmet desconstruídos com espuma de qualquer coisa. Aqui come-se a sério.

Procure os Pastéis de Molho. Não são uma sobremesa, embora o nome engane. São uma bomba calórica de massa folhada com carne, servida com um molho de açafrão que cura qualquer constipação (e talvez algumas ressacas). É um prato que desafia a lógica dietética moderna, e ainda bem. Para algo mais convencional, a oferta de restaurantes no centro tem vindo a melhorar, com alguns espaços a modernizarem a cozinha beirã sem lhe perderem a essência.

E se estiver na cidade numa noite fria de inverno, o que é altamente provável, dado que o inverno aqui parece durar seis meses, entre num dos bares perto da universidade. A população estudantil injeta uma energia vital na cidade que impede que esta se torne apenas um museu. Há uma vibração jovem que contrasta deliciosamente com as paredes de pedra antiga.

Para Lá da Cidade: A Serra e os Vizinhos

A Covilhã é a porta de entrada para a Estrela, mas não ignore o que está à volta. Se a sua visita coincidir com o início da primavera, tem de descer a encosta. A O Despertar da Gardunha: Um Guia para Ver as Cerejeiras em Flor no Fundão é uma experiência cromática oposta à da Covilhã. Enquanto a Covilhã é cinza-granito e murais coloridos, o Fundão torna-se num manto branco e rosa efêmero. Vale a pena o desvio de 20 minutos.

Para os amantes de arquitetura que acharam piada à reconversão industrial da Covilhã, a próxima paragem lógica é Seia. Consulte o nosso guia sobre O Modernismo na Montanha: O Legado de Cottinelli Telmo em Seia. É fascinante ver como o modernismo tentou domesticar a montanha noutra vertente da serra, com linhas retas e funcionais que contrastam com a organicidade da paisagem.

Agora, se a overdose de montanha for demasiada e precisar de horizonte aberto, pode parecer contra-intuitivo, mas março é um mês curioso para rumar ao litoral. Se estiver a fazer um road trip por Portugal, o nosso Guia de Surf em Portugal em Março: Melhores Praias e Condições pode ser a antítese perfeita para os dias passados na serra. Do granito para a espuma do mar, Portugal é este contraste constante.

Veredito Final

Não vá à Covilhã à espera de uma "Sintra da Beira" ou de uma cidade postalinho perfeitamente preservada. A Covilhã é rugosa, por vezes caótica, com prédios dos anos 80 a encostarem-se a solares do século XVIII e fábricas em ruínas ao lado de hotéis de design. Mas é nessa mistura, nessa colagem urbana, que reside o seu charme.

A arte urbana aqui não é um penso rápido para tapar buracos; é uma celebração das cicatrizes. É uma cidade que soube reinventar-se sem vender a alma ao diabo do turismo de massas. Vá pelas paredes pintadas, fique pela atmosfera, e saia a planear o regresso, de preferência com sapatos confortáveis e estômago vazio.

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