Como Fugir ao Calor em Lisboa: Miradouros, Esplanadas e Piscinas
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Como Fugir ao Calor em Lisboa: Miradouros, Esplanadas e Piscinas

· · Lisboa

A 38 graus na Avenida Almirante Reis, o asfalto derrete-se e os turistas amontoam-se na sombra do Rossio. Este é o guia para ficar em Lisboa no Verão e fazê-lo bem: miradouros ao nascer do sol, museus frescos ao meio-dia, e onde nadar quando nada mais funciona.

Lisboa em Agosto não brinca. Aos 38 graus, o asfalto da Avenida Almirante Reis derrete-se devagar, os turistas amontoam-se na sombra escassa do Rossio, e os locais que ainda não fugiram para a Costa da Caparica andam todos com a mesma expressão: a de quem está a calcular mentalmente quantos passos faltam até ao próximo café com ar condicionado. A boa notícia é que esta cidade, construída em sete colinas viradas ao Tejo, sabe há séculos como respirar quando o calor aperta. A má notícia é que metade dos sítios que aparecem nos guias internacionais são exactamente onde não devia estar entre as 14h e as 17h.

Este guia não é sobre fugir de Lisboa no Verão. É sobre como ficar e fazê-lo bem, alternando entre a brisa de um miradouro alto, a frescura de um museu com ar condicionado decente, uma esplanada à sombra de plátanos centenários, e, quando nada mais funciona, um mergulho. Há um ritmo correcto para o dia, e os lisboetas conhecem-no.

A regra de ouro: viver às avessas

Em Julho e Agosto, o erro clássico do visitante é fazer turismo entre as 11h e as 16h, exactamente quando os locais desaparecem. A cidade tem um ritmo mediterrânico que se ignora por sua conta e risco. Acorde cedo, faça o que tem para fazer ao ar livre antes das 11h, refugie-se durante as horas más, e volte a sair às 18h quando a luz amolece e o Tejo começa a devolver alguma brisa.

Isto significa, na prática, miradouro ao nascer do sol, museu ou esplanada coberta ao meio-dia, piscina ou pausa em casa à tarde, e jantar tardio numa esplanada bem ventilada. Quem inverte esta lógica acaba a chorar de exaustão térmica numa fila para o Elevador de Santa Justa às 15h. Não seja essa pessoa.

Miradouros: a 7h da manhã ou nunca

O Miradouro da Senhora do Monte, no topo da Graça, é o ponto mais alto da cidade e o sítio onde devia começar o dia. Suba a pé pela Rua da Senhora do Monte se ainda tiver pernas, ou apanhe o 28 antes das 8h, quando ainda há lugar sentado. Lá em cima, a esta hora, está praticamente vazio: dois ou três fotógrafos profissionais, uma senhora a passear o cão, e a vista sobre o castelo, a Sé, a Baixa e o Tejo a abrir-se com a luz de manhã cedo, ainda dourada e não esmagadora.

Leve um café tomado pelo caminho, ou compre um pastel num quiosque qualquer. Fique meia hora, no máximo. Pelas 9h, o sol começa a bater de frente e o efeito mágico desaparece. Voltar aqui ao pôr do sol é tentador, mas no Verão é também quando todos os outros têm a mesma ideia, e o miradouro fica praticamente intransitável. Prefira o nascer.

Há outros miradouros, claro: Graça, Senhora da Glória, São Pedro de Alcântara, Santa Catarina. Cada um tem o seu carácter. O de Santa Catarina, com o seu Adamastor de mármore e os jovens deitados na relva ao fim da tarde, é o mais boémio. São Pedro de Alcântara, com o jardim formal e a vista direita sobre o Castelo, é o mais postal. Mas se só tem tempo para um e quer mesmo escapar à multidão, fique-se pelo da Senhora do Monte de manhã cedo.

O meio-dia salva-se dentro de portas

Entre as 11h30 e as 16h, o plano é simples: estar dentro de algo com paredes grossas, tectos altos, e idealmente alguma forma de climatização. Lisboa tem uma vantagem injusta nisto, porque muitos dos seus melhores museus foram construídos precisamente para resistir ao calor.

O Museu Calouste Gulbenkian, em Sete Rios, é o refúgio perfeito para um dia inteiro. O edifício modernista dos anos 60 está cravado num parque com lagos, sombra de eucaliptos e bancos espalhados, e o interior é fresco, silencioso e generoso. A colecção do fundador, do Egipto antigo a Lalique, dá-se a ver em duas horas tranquilas. Depois saia para o jardim, descalce-se na relva, e fique a ver os patos. É a coisa mais civilizada que pode fazer em Lisboa às três da tarde em Agosto.

O Museu Nacional de Arte Antiga, perto das Janelas Verdes, é a alternativa mais clássica, e ainda subvalorizada pelos turistas que se concentram todos no MAAT ou no Berardo. Os Painéis de São Vicente de Fora, o tríptico das Tentações de Santo Antão de Hieronymus Bosch, e o jardim com a sua esplanada virada ao Tejo, justificam a viagem. A esplanada do museu, aliás, é um daqueles segredos relativos que valem por si só: sombra a sério, brisa do rio, e um café decente.

Se quer um plano cultural sem pagar bilhete, entre numa qualquer igreja do centro: São Roque, a Sé, São Vicente de Fora. Os interiores barrocos em pedra cantando uma frescura imediata. Cinco minutos sentado num banco de madeira escura, com o cheiro de incenso velho, e o corpo agradece.

Esplanadas que funcionam mesmo

A esplanada lisboeta é uma arte. Há esplanadas em pleno sol às duas da tarde que se chamam esplanadas mas são instrumentos de tortura. E há esplanadas escondidas, com toldos certos, plátanos antigos, e correntes de ar que se aproveitam da topografia. Saber distinguir é meio caminho andado.

O café A Brasileira, no Chiado, é o cliché absoluto, com o Pessoa de bronze e os preços de turista. Mas se entrar pela porta principal, atravessar o salão antigo até ao fundo, e se sentar na sala de trás (em vez da esplanada da rua), tem ar condicionado, mármore fresco, e um café pingado a preço razoável. Faça isto à hora de almoço, quando os autocarros despejam visitantes e a rua se torna inviável. Saia restaurado por volta das 16h.

Para almoço a sério, o As Bifanas do Afonso, na Rua da Madalena, é a resposta certa para quando se quer comer rápido, bem, e barato. Uma bifana boa, com o pão a absorver o molho, uma imperial gelada, vinte minutos sentado, e está despachado. No Verão, peça para sentar-se dentro: tem condições e fica-se ao fresco enquanto a Baixa lá fora estala.

O Jardim da Estrela, com a sua esplanada-quiosque centenária, é outro santuário. Plátanos enormes, patos, crianças, um pavão a passear. Peça uma água com gás e fique uma hora a ler. O Jardim do Príncipe Real e o Jardim da Cerca da Graça funcionam pela mesma lógica: sombra densa, quiosque, paciência.

Onde se vai nadar: as piscinas de Lisboa

Esta é a parte que os guias raramente cobrem como deve ser. Lisboa não tem mar dentro da cidade, mas tem piscinas municipais sérias e algumas surpresas hoteleiras. Para um banho rápido a meio do dia, três opções decentes:

  • Piscina Oceânica do Oeiras Parque: água salgada bombada do Tejo, vista para a ponte, e acesso fácil de comboio (linha de Cascais, saia em Santo Amaro de Oeiras). Vai cheia ao fim de semana, mas a meio da semana à tarde respira-se. Confirme horários e preços localmente.
  • Piscinas municipais do Areeiro, Olivais e Restelo: opções para quem quer mesmo nadar piscina, não estar à mesa. Económicas, limpas, e bem geridas. Levem chinelos e touca.
  • Praias urbanas a uma hora de comboio: para os dias em que precisa mesmo do Atlântico, Carcavelos é a praia certa. Comboio em Cais do Sodré, 35 minutos, e está com os pés na areia. Saia depois das 11h para não apanhar a multidão dos surfistas matinais.

Quem tem rodas ou quer combinar exercício com fresco do rio devia considerar a experiência de bicicleta pela margem do Tejo, feita pela manhã cedo, antes do calor instalar-se. A ciclovia de Belém a Cais do Sodré, plana e ventilada pela brisa do rio, é uma forma honesta de ver a cidade sem morrer de calor. Para os mais ambiciosos, a descida em bicicleta do topo até ao rio resolve o problema clássico de Lisboa, que é o subir.

O fim do dia: quando a cidade ressuscita

Por volta das 18h30, qualquer coisa muda em Lisboa. O sol baixa, a luz fica cor de damasco, as esplanadas começam a encher-se, e o Tejo devolve a brisa que andou a guardar o dia inteiro. É a melhor hora do dia, e é quando devia voltar a sair.

Caminhar pela margem ribeirinha, de Santos a Cais do Sodré, no fim da tarde, é uma das poucas actividades em Lisboa que continua a funcionar mesmo em pleno Agosto. Há quiosques, há sombra, há água a refrescar o ar. Pare no Ribeira das Naus, sente-se nos degraus de pedra a meio metro da água, e fique a ver os barcos.

Para jantar, prefira sempre interiores com janelas abertas ou esplanadas em ruas estreitas (que retêm a frescura nocturna). Evite esplanadas em praças abertas, que continuam a irradiar o calor do dia. E se quer terminar a noite com algo verdadeiramente lisboeta, vá ao O Faia, casa de fados, no Bairro Alto. Sala fresca de pedra, jantar cuidado, e fadistas a sério (não a versão para autocarros). Reserve com dias de antecedência, especialmente em Agosto.

Pequenos truques de quem cá vive

  • Beba água a sério: 2 a 3 litros por dia em Agosto não é exagero. Os bebedouros públicos da câmara existem e são fiáveis.
  • Use o metro em vez do 28: tem ar condicionado, é mais rápido, e poupa-lhe a fila e o roubo de carteira.
  • Almoço tardio, jantar tardíssimo: aprenda o ritmo. Almoço à uma e meia, jantar às nove. Antes disto, vai estar em sítios meio vazios e sem energia.
  • Compre uma garrafa de água nos minimercados de bairro, não nos quiosques turísticos: paga metade.
  • Roupa de linho ou algodão fino, calçado fechado mas leve. Os passeios em calçada portuguesa são bonitos mas escorregadios e quentes.

Para quem quiser perceber o que faz Lisboa pulsar para além das vistas, o guia de cultura local em Lisboa dá contexto aos bairros e tradições que vai cruzar. E se uns dias houver folga, vale fugir do calor da capital subindo à serra: o guia de bairros de Sintra mostra como aproveitar a vila encantada, onde a temperatura é sistematicamente quatro ou cinco graus mais baixa, e onde o nevoeiro de fim de tarde é quase garantido em qualquer mês do ano.

Lisboa em Agosto é dura, sim. Mas se entrar no ritmo certo, dormir uma sesta de uma hora a meio do dia sem culpa, beber mais água do que se acha possível, e escolher os sítios com a paciência de quem aqui vive, vai descobrir uma cidade que outros não vêem. A cidade dos que ficam.

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