Belmonte Para Lá do Castelo: O Que Ninguém Vai Ver
Durante cinco séculos, uma comunidade judaica sobreviveu em segredo em Belmonte, convencida de que era a última do mundo. A maioria dos visitantes passa pela vila em meia hora. Se ficar, encontra uma das histórias mais extraordinárias do interior de Portugal.
A maioria dos visitantes chega a Belmonte, tira uma fotografia ao castelo, lê a placa sobre Pedro Álvares Cabral e vai-se embora. Trinta minutos, talvez quarenta. É uma pena, porque Belmonte é uma daquelas vilas que recompensa quem fica mais uma noite, ou duas. As camadas de história aqui não são decorativas: são reais, contraditórias, e por vezes perturbantes.
A história que não está no castelo
Sim, o Castelo de Belmonte é bonito. Sim, foi aqui que nasceu Pedro Álvares Cabral em 1467, antes de partir para o Brasil com treze navios e mil e quinhentos homens. Há uma estátua, há um museu dos Descobrimentos, e tudo isso merece uma visita rápida. Mas a história mais extraordinária de Belmonte não está dentro das muralhas. Está nas ruelas abaixo delas.
Durante mais de quinhentos anos, uma comunidade de judeus viveu em Belmonte praticando a sua fé em segredo. Depois da conversão forçada de 1497, quando o rei D. Manuel I obrigou todos os judeus a converter-se ao catolicismo ou a abandonar o país, os judeus de Belmonte escolheram uma terceira via: ficaram, converteram-se oficialmente, e continuaram a praticar o judaísmo às escondidas. Rezavam em casa, sempre com as janelas fechadas. As cerimónias eram conduzidas pelas mulheres da família, não por rabinos. As velas do Shabat eram escondidas dentro de potes de barro para que a luz não fosse vista do exterior.
Pensem nisto: durante cinco séculos, sem contacto com outras comunidades judaicas, estas famílias acreditaram que eram os últimos judeus do mundo. Só em 1917, quando o engenheiro polaco Samuel Schwarz chegou a Belmonte para trabalhar nas minas, é que alguém de fora descobriu o que se passava. Schwarz publicou as suas descobertas em 1925, mas a comunidade só regressou oficialmente ao judaísmo em 1989. A sinagoga Beit Eliahu, no antigo bairro judaico, foi inaugurada em 1996.
O Museu Judaico de Belmonte, que abriu em 2005 e foi renovado em 2017, conta esta história com uma sobriedade que impressiona. Não é um museu grande, mas os objectos expostos, desde instrumentos rituais a objectos do quotidiano, são de uma intensidade rara. Para quem quiser ir mais fundo, a visita privada à comunidade sefardita de Belmonte é uma das experiências mais singulares que se podem ter no interior de Portugal. Não é folclore turístico: é uma história viva.
A torre que ninguém sabe explicar
A cerca de cinco quilómetros do centro de Belmonte, na encosta do Monte de Santo Antão, está uma das estruturas mais estranhas de Portugal. A Torre de Centum Cellas é uma ruína romana do século I d.C., com doze metros de altura, paredes de blocos de granito e uma presença quase irreal na paisagem. Vista de longe, parece um esqueleto de edifício moderno. De perto, percebe-se que tem quase dois mil anos.
Ninguém sabe ao certo para que servia. Durante décadas, pensou-se que era um forte militar, mas escavações nos anos 90 revelaram que fazia parte de uma villa rustica, uma espécie de propriedade rural romana. A teoria mais recente é que funcionava como estalagem na estrada que ligava Mérida a Braga. A construção em blocos de granito, sem argamassa visível, é rara na Europa e lembra técnicas usadas na Síria e no Norte de África.
A torre é monumento nacional desde 1927, mas continua a ser um local pouco visitado. Não há bilheteira, não há café, não há loja de recordações. Há a torre, a paisagem da Serra da Estrela ao fundo, e o silêncio. É gratuita e está sempre acessível. Leve água e protector solar no Verão.
Onde comer sem ilusões
Belmonte não é um destino gastronómico, e não vale a pena fingir que é. Mas a cozinha serrana da Beira Interior tem o seu mérito, especialmente quando não tenta ser mais do que é. Procure cabrito assado, enchidos locais, e queijo da Serra da Estrela, que aqui está no seu território natural.
Na vila, o restaurante O Brasão, junto ao castelo, é uma escolha segura para cozinha tradicional. Está numa casa de pedra antiga e serve pratos como javali estufado. Não é sofisticado, é honesto. A Pousada Convento de Belmonte, instalada num convento do século XIII, tem um restaurante com uma leitura mais contemporânea dos pratos tradicionais, incluindo cabrito com broa e porco assado lentamente. Os preços são mais altos, claro, mas o espaço justifica. Confirme os horários localmente, porque podem variar fora da época alta.
Uma nota sobre as alheiras: em Belmonte, este enchido tem um significado especial. Os judeus forçados à conversão faziam alheiras de galinha (em vez de porco) e penduravam-nas à janela para simular que comiam carne de porco como os cristãos. A alheira é, literalmente, um acto de resistência culinária. Peça-a em qualquer restaurante da zona.
Onde dormir, e porquê ficar
O erro clássico é fazer Belmonte como paragem de meia hora entre Covilhã e Guarda. Se ficar uma noite, ganha a manhã seguinte: o castelo vazio às oito da manhã, o bairro judaico sem grupos, a torre de Centum Cellas só para si.
Para turismo rural com carácter, Kazas do Serado é uma excelente opção na paisagem em redor de Belmonte. Se prefere algo mais íntimo, TheVagar Countryhouse tem o tipo de tranquilidade que é difícil de encontrar perto das cidades maiores. E a Quinta do Rio oferece uma localização junto ao rio que, no Verão, é difícil de bater.
Qualquer uma destas opções coloca-o a minutos da vila, mas suficientemente longe para sentir que está no campo a sério.
O que fazer com um dia inteiro
De manhã: castelo, Igreja de São Tiago (com o panteão da família Cabral e uma pietà pintada em granito do século XIV), e o Museu Judaico. Almoço na vila. De tarde: carro até à Torre de Centum Cellas, e depois regresso com paragem para um café.
Se tiver dois dias, o segundo merece ser gasto nos arredores. A Serra da Estrela está ali ao lado. Pode seguir até Manteigas para explorar os poços de neve, que é uma das caminhadas mais recompensadoras da serra. Se for na Primavera, a Gardunha fica a menos de meia hora e é onde as cerejeiras do Fundão florescem de forma espectacular entre finais de Março e meados de Abril.
Belmonte está no centro de uma região que a maioria dos turistas atravessa de carro a caminho de outro sítio. E isso, paradoxalmente... não, isso é simplesmente uma oportunidade para quem tem a paciência de parar.
Como chegar e informações práticas
Belmonte fica no distrito de Castelo Branco, a cerca de 3 horas de Lisboa e 2h30 do Porto pela A23. Não há comboio directo: a estação mais próxima é a da Covilhã, a cerca de 20 km. De lá, vai precisar de carro. Aliás, vai precisar de carro para quase tudo nesta região.
A vila é pequena e percorre-se facilmente a pé. O centro histórico, do castelo ao bairro judaico, faz-se em menos de uma hora de caminhada. O Museu Judaico e o Museu dos Descobrimentos são pagos (confirme preços actualizados localmente). A Torre de Centum Cellas é gratuita.
O Verão é quente e seco, o Inverno é frio. As melhores épocas são a Primavera e o início do Outono, quando a luz é boa e as temperaturas são agradáveis. Se vier na Primavera, combine Belmonte com um roteiro pelas Aldeias de Xisto a partir da Covilhã para uma viagem mais completa pela região.