Belmonte: Onde Tomar Café na Vila de Cabral
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Belmonte: Onde Tomar Café na Vila de Cabral

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Na Rua Pedro Álvares Cabral, a artéria principal de Belmonte, duas pastelarias disputam a atenção da vila inteira. Na Monumental, a bifana com imperial custa menos de cinco euros e é o pequeno-almoço de metade da população. Na Hotspace, o bolo de canela é a estrela discreta de uma vitrina sem pretensões.

Belmonte tem pouco mais de três mil habitantes, um castelo com vista para a Cova da Beira, e a distinção de ter visto nascer Pedro Álvares Cabral. Tem também, como qualquer vila portuguesa que se preze, uma cultura de café que funciona como centro de gravidade social. Os homens de boina encostados ao balcão às nove da manhã. As senhoras que param depois do mercado. O tipo que lê o jornal inteiro, do Benfica ao horóscopo, antes de pagar a bica. É nestes sítios, e não nos museus, que se percebe como Belmonte realmente funciona.

Não esperem uma cena de specialty coffee com latte art e grãos etíopes de micro-lote. Isto é a Beira Interior, e o café aqui é curto, forte, barato, e servido com uma eficiência que envergonha qualquer barista de Lisboa. O que muda de sítio para sítio é o ambiente, o pastel que acompanha, e a qualidade da conversa ao balcão.

Pastelaria Monumental: o quartel-general

A Pastelaria Monumental, na Rua Pedro Álvares Cabral 171, é provavelmente o café mais frequentado de Belmonte. É o tipo de pastelaria portuguesa clássica: vitrina cheia de bolos, televisão ligada num canto, mesas com toalhas de plástico, e um balcão onde o café sai em menos de trinta segundos. Não vão pela decoração. Vão pela bifana.

A bifana da Monumental tem reputação na vila, e com razão. O pão é simples, a carne é fina e bem temperada com alho e vinho branco, e o molho escorre o suficiente para precisarem de um guardanapo extra. Peçam uma bifana e uma imperial (ou um fino, como dizem por aqui) e estão resolvidos por menos de cinco euros. Ao almoço, o prato do dia ronda os oito euros e costuma incluir sopa e café. Para o que é, a relação qualidade-preço é difícil de bater nesta zona da serra.

A Monumental também serve um caldo verde honesto. Não é o melhor que vão comer na vida, mas às onze da manhã, numa manhã fria de Novembro na Cova da Beira, com o vento a descer da Estrela, é exactamente o que o corpo pede.

Pastelaria Hotspace: a alternativa moderna

Um pouco mais acima na mesma rua, no número 239, a Pastelaria Hotspace é a versão ligeiramente mais contemporânea do café belmontino. O espaço é mais limpo, mais claro, e atrai um público um bocado mais jovem. É o sítio onde os adolescentes de Belmonte vão depois das aulas, o que lhe dá uma energia diferente da Monumental.

Aqui, a aposta é nos doces. A doçaria da região da Beira Interior não tem a fama dos pastéis de Belém ou dos ovos moles de Aveiro, mas tem os seus méritos. Procurem o bolo de canela, que é uma especialidade local: denso, perfumado, com aquele sabor reconfortante que só a canela e o açúcar em quantidade generosa conseguem. Se tiverem sorte e apanharem dia de filhós, não hesitem. As filhós da Beira, finas e estaladiças, polvilhadas com açúcar e canela, são um dos grandes prazeres menores da pastelaria portuguesa.

Peçam um galão se precisam de volume, ou uma meia de leite se querem algo entre a bica pura e o galão. E não tenham vergonha de pedir uma torrada mista. Às vezes, a melhor refeição em Portugal é a mais simples.

O café do castelo e arredores

Se estiverem a visitar o Castelo de Belmonte, que devem, porque a vista de lá de cima sobre a planície da Cova da Beira é das melhores da região, vão encontrar o Restaurante Casa do Castelo no Largo de Santiago. Não é propriamente um café, mas tem esplanada e serve café, e a localização compensa qualquer coisa. Sentem-se cá fora, peçam uma bica, e olhem para a paisagem que Cabral viu antes de decidir que havia mais mundo para descobrir.

A Casa do Castelo é mais conhecida pelos pratos do dia, com comida regional a preços acessíveis. Se for hora de almoço e tiverem fome, vale a pena parar para um cabrito assado ou um ensopado de borrego, dois clássicos da cozinha beirã que aqui fazem com competência. Mas se só querem o café e a vista, ninguém vos vai julgar.

O que pedir (e o que evitar)

Regra geral para os cafés de Belmonte, e da Beira Interior em geral:

  • A bica (espresso) é sempre segura. O café em Portugal é consistentemente bom, mesmo nos sítios mais modestos.
  • O galão ao pequeno-almoço é um ritual. Largo, com leite, servido num copo alto. Acompanhem com uma torrada com manteiga.
  • Bifanas e pregos são quase sempre melhores do que os pratos mais elaborados neste tipo de estabelecimento.
  • Evitem os croissants industriais que vêm embalados. Em vez disso, perguntem o que é feito no dia. A pastelaria caseira, quando existe, é sempre superior.
  • Se virem queijo da Serra da Estrela na vitrina, comprem. Não para comer ali, mas para levar. O verdadeiro queijo da Serra, o DOP, com a crosta lavada e o interior cremoso, é um dos grandes queijos da Península Ibérica. Numa pastelaria de Belmonte não vão encontrar o DOP artesanal, mas podem ter sorte com uma versão regional decente.

O ritmo do café em Belmonte

O café em Belmonte, como em muitas vilas do interior, tem dois picos: de manhã, entre as oito e as dez, quando a vila acorda e toda a gente passa pela pastelaria antes do trabalho; e ao fim da tarde, entre as quatro e as seis, quando o café funciona como sala de estar colectiva. Se querem ver Belmonte como Belmonte realmente é, evitem a hora de almoço (quando os cafés estão meio vazios ou a servir refeições) e apareçam nestes horários.

Ao fim de semana, o ritmo muda. O café da manhã estende-se, as famílias aparecem, e as mesas da esplanada enchem-se quando o tempo o permite. A Rua Pedro Álvares Cabral, que é a artéria principal da vila, ganha uma vida pacata mas genuína que contrasta com o silêncio quase absoluto das ruas secundárias.

Para além do café: o que fazer em Belmonte

Belmonte merece mais do que uma paragem rápida para um café. A história da comunidade sefardita de Belmonte é uma das mais extraordinárias de Portugal: uma comunidade judaica que manteve a sua fé em segredo durante cinco séculos, resistindo à Inquisição numa vila remota da Beira. O Museu Judaico de Belmonte conta essa história com dignidade e rigor, e vale a visita.

O castelo, o Ecomuseu do Zêzere, e a Torre de Centum Cellas (uma estrutura romana enigmática nos arredores) completam um dia inteiro de visita. E se ficarem mais do que um dia, Belmonte tem alojamentos com carácter. A Quinta do Rio é uma opção junto ao rio para quem quer sossego total. Para algo mais rústico e envolvido na paisagem, as Kazas do Serado oferecem turismo rural a sério, sem a artificialidade de muitos alojamentos que usam a palavra "rural" como marketing. E o TheVagar Countryhouse é outra opção sólida para quem procura conforto sem perder a ligação ao território.

Belmonte fica também numa posição estratégica para explorar a Serra da Estrela. Manteigas e os seus poços de neve ficam a menos de uma hora. E na direcção oposta, o Fundão e as cerejeiras em flor da Gardunha são um espectáculo na Primavera que justifica a viagem por si só.

O veredicto

Belmonte não é destino de café gourmet. Não tem roasters independentes, não tem flat whites, não tem baristas com tatuagens e aventais de ganga. O que tem são pastelarias honestas onde o café custa um euro, a bifana é feita na hora, e a pessoa ao lado no balcão provavelmente conhece a vossa história de família melhor do que vocês. Isso, numa época em que metade dos cafés do mundo tentam parecer-se com um Instagram, vale mais do que qualquer latte art.

Vão à Monumental pela bifana. Vão à Hotspace pelo bolo de canela. Sentem-se na esplanada da Casa do Castelo pela vista. E deixem o telemóvel no bolso por cinco minutos. Belmonte merece esse respeito.

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