Angra do Heroísmo: Onde os Terceirenses Realmente Comem
Guia

Angra do Heroísmo: Onde os Terceirenses Realmente Comem

· · Angra do Heroísmo

Esqueça as ementas plastificadas na porta. Em Angra do Heroísmo, a verdadeira mesa terceirense acontece em sítios onde a alcatra chega no alguidar de barro e as queijadas da Dona Amélia ainda se comem mornas. Um guia para comer como os locais.

Há uma forma fácil de identificar os restaurantes para turistas em Angra do Heroísmo: são os que têm fotografias plastificadas do menu na porta. Não há nada de errado com eles, a comida até pode ser decente, mas não é ali que os terceirenses gastam o dinheiro ao fim de semana. A verdadeira mesa de Angra acontece em sítios sem pretensões, onde o vinho da casa vem em jarro de barro e a ementa muda conforme o que o mar e o pasto decidiram nesse dia.

E é precisamente isso que torna a Terceira diferente das outras ilhas açorianas. Aqui, a cozinha não é apenas boa, é identitária. A alcatra não é um prato, é quase uma declaração de princípios.

A Alcatra: O Prato Que Define a Ilha

Se há uma coisa que precisa de comer em Angra, é alcatra. Não é uma sugestão, é uma obrigação gastronómica. Carne de vaca cozinhada lentamente num alguidar de barro com vinho tinto, cebola, alho, cravinho e pimenta da Jamaica, durante horas, até a carne se desfazer com um olhar. Servida com massa sovada, sim, pão doce, que embebe no molho até ficar completamente encharcada. A combinação parece estranha no papel. Na boca, faz todo o sentido.

A alcatra nasceu por volta de 1450, provavelmente inspirada na chanfana beirã que os primeiros colonos trouxeram consigo. Ao longo de séculos, a receita adaptou-se ao que a ilha tinha: gado criado em pastagens de um verde absurdo, vinho de cheiro local, e o barro dos oleiros terceirenses. Cada família tem a sua versão, cada avó jura que a dela é a melhor, e ninguém está completamente errado.

Para quem quer ir além de simplesmente provar e perceber como se faz, a experiência gastronómica da alcatra na Terceira é uma forma excelente de entrar na cozinha e meter as mãos na massa, literalmente.

A Canadinha: O Refeitório dos Locais

Se pedisse a dez angrenses para escolherem um sítio para almoçar num dia normal de trabalho, metade diria A Canadinha. É daqueles restaurantes que se reconhecem pelo que são mal se entra: toalhas de papel, televisão ligada, meia dúzia de velhos a discutir futebol ao balcão, e doses que fazem duas refeições.

A Canadinha é provavelmente o restaurante mais barato de Angra para a qualidade que serve. A ementa é dominada por carne, bifanas, costeletas, carne guisada, e tudo vem em quantidades que parecem desenhadas para alimentar trabalhadores de campo. Não é cozinha de autor. É cozinha de quem sabe o que está a fazer há décadas e não precisa de impressionar ninguém. A alcatra daqui é das melhores da cidade, servida sem cerimónia no alguidar de barro em que foi cozinhada.

Vá ao almoço, entre semana. Ao jantar e ao fim de semana já há mais turistas, e o ambiente muda. Se a mesa ao lado estiver toda a falar em português com sotaque terceirense, está no sítio certo.

Tasca das Tias: A Excepção Moderna

Na Rua de São João, número 117, a Tasca das Tias é o restaurante que prova que tradição e contemporaneidade não se anulam. Abriu em 2014 num espaço que antes estava vazio, criado por um grupo de amigos que decidiu simplesmente cozinhar para os outros. A decoração é moderna, madeiras, fotografias enormes de figuras históricas da cidade, mas a cozinha olha para os ingredientes açorianos com respeito.

Aqui a aposta é nos produtos do mar: lapas grelhadas, amêijoas de Santo Cristo (uma espécie de moeda de troca gastronómica nos Açores, quem tem acesso a estas amêijoas tem estatuto), salada de polvo, bife de atum. As lapas, se nunca provou, são um rito de passagem açoriano: pequenas, salgadas, grelhadas com manteiga e alho, comem-se a arrancar da concha com os dentes. Não é elegante. É extraordinário.

Um aviso: reserve mesa. Especialmente ao jantar, a espera pode chegar a uma hora. Se aparecer sem reserva, vá cedo, às 19h já tem mais hipóteses.

Beira Mar: Para os Dias em Que o Mar Decide

A cerca de quinze minutos de carro de Angra, na aldeia piscatória de São Mateus, o Beira Mar é o restaurante de peixe que os locais guardam para ocasiões especiais, ou para domingos preguiçosos em que apetece almoçar com vista para o porto. A decoração é simples, quase espartana, e é isso que o torna credível: ninguém está a tentar impressionar com design de interiores.

O que importa aqui é o que chega à mesa. Peixe grelhado do dia, o que houver, e varia conforme a maré e a sorte dos pescadores. Espetadas de peixe são uma especialidade. Para entrada, perceves, lapas, e quando há lagosta, é uma festa. Os preços sobem quando se entra nos mariscos, como seria de esperar, mas o peixe grelhado com batata cozida e salada é uma refeição honesta a um custo razoável. Confirme localmente os preços e horários antes de ir, é uma aldeia pequena e o ritmo é ditado pelo mar, não pelo Google.

O Forno: Onde a Dona Amélia Ainda Manda

Não se pode falar de comer em Angra sem falar de doces. E não se pode falar de doces sem falar d'O Forno, a pastelaria que é provavelmente o sítio mais famoso da Terceira para quem tem apetite por açúcar e história.

A estrela absoluta é a Queijada da Dona Amélia. A história: em 1901, a Rainha Amélia visitou a Terceira e foi presenteada com estas queijadas. Gostou tanto que o nome ficou. São densas, ligeiramente húmidas, feitas com ovos, mel de cana, canela, farinha de milho e passas, com um toque de melaço que lhes dá um sabor que lembra vagamente o gingerbread. Polvilhadas com açúcar em pó. Uma ou duas chegam, são ricas e intensas.

Vá de manhã. Há quem argumente que as queijadas acabadas de fazer são superiores, e embora eu ache que são boas a qualquer hora, a experiência de as comer ainda mornas, com um café, é difícil de superar.

Caneta: A Viagem Que Vale a Pena

No norte da ilha, longe do centro histórico, o Caneta é o restaurante para quem leva a carne a sério. A família Dias cria o seu próprio gado, o que muda tudo: a qualidade da matéria-prima é evidente em cada garfada. A alcatra daqui é excelente, mas a grande revelação são as espetadas de carne maturada de Black Angus. Se está a pensar que Black Angus nos Açores parece improvável, é. E é por isso que funciona. A carne criada em pastagens açorianas, com aquele clima húmido e fresco, tem uma textura e um sabor que se nota.

Não é um restaurante de passagem, fica fora de mão para quem está em Angra. Mas se estiver a explorar a ilha de carro (e deveria estar), planeie o almoço aqui. É o tipo de refeição que se lembra semanas depois.

O Que Beber

O vinho dos Açores é uma descoberta para a maioria dos visitantes. A Terceira não tem a tradição vinícola do Pico, mas isso não significa que não haja o que beber. Peça vinho da casa, normalmente é vinho de cheiro local, frutado e ligeiro, perfeito para acompanhar pratos pesados como a alcatra. Nos restaurantes mais modernos como a Tasca das Tias, a carta de vinhos já inclui rótulos açorianos de qualidade, nomeadamente do Pico e da Graciosa.

Quanto a cervejas, a Especial é a cerveja local. Não é extraordinária, mas é fresca e honesta, e pedi-la num bar de Angra é quase um gesto de integração.

Além da Mesa

Se a gastronomia açoriana lhe despertou o apetite por mais, saiba que cada ilha tem a sua própria identidade à mesa. Em Ponta Delgada, a expedição gastronómica pela cidade revela uma cena completamente diferente, mais cosmopolita mas igualmente enraizada nos produtos locais. E se estiver a planear saltar para o Faial, vale a pena consultar o nosso guia da Horta em 24 horas, outra perspectiva do Atlântico, outra mesa.

De volta à Terceira, entre refeições, há mais para fazer do que digerir. Uma expedição de observação de aves no Cabo da Praia é uma forma surpreendentemente boa de queimar calorias e descobrir um lado da ilha que a maioria ignora.

Regras Práticas para Comer em Angra

  • Ao almoço, a maioria dos restaurantes serve entre as 12h e as 14h30. Chegue perto do meio-dia para ter escolha e espaço.
  • Ao jantar, as 19h é cedo e as 20h30 é tarde. O pico é por volta das 20h.
  • Reserve sempre que possível. Os restaurantes são pequenos e a ilha tem menos opções do que parece.
  • Não tenha medo de perguntar ao empregado o que recomenda, nos sítios mais locais, a ementa escrita é muitas vezes incompleta. Há pratos do dia que não estão lá.
  • Cartão é aceite na maioria dos restaurantes do centro, mas leve dinheiro para os mais pequenos e tradicionais.

Angra do Heroísmo não é uma cidade de restaurantes de destino. Não vai encontrar estrelas Michelin nem menus de degustação de doze momentos. O que vai encontrar é melhor: pessoas que cozinham como as suas avós cozinhavam, com produtos que vieram do pasto ao lado ou do mar em frente, e uma honestidade à mesa que é cada vez mais rara. Sente-se, peça a alcatra, confie na dona da casa, e deixe a Terceira alimentá-lo como alimenta os seus.

alcatra açores terceira gastronomia açoriana angra do heroísmo restaurantes locais queijada dona amélia