Angra do Heroísmo: O Lado Que Fica Depois da Praça Velha
Angra do Heroísmo não se esgota na Praça Velha. São Mateus da Calheta, o circuito completo do Monte Brasil e as ruas onde vivem os angrenses a sério, é ali que a cidade começa a fazer sentido. Mais a alcatra na Tasca das Tias, que sozinha justifica o bilhete de avião.
A maioria dos visitantes de Angra do Heroísmo faz exactamente o mesmo percurso: desembarca, sobe até à Praça Velha, tira uma fotografia ao Palácio dos Capitães Generais, desce a Rua da Sé, olha para a baía, e segue caminho para as Furnas do Enxofre ou os Biscoitos. A cidade fica reduzida a uma paragem de duas horas num roteiro da ilha. É um erro.
Angra não se gasta num dia, mas o melhor dela exige que se vire as costas ao centro histórico mais óbvio e se caminhe na direcção contrária, para sul, para oeste, para os bairros onde ninguém leva uma câmara ao pescoço.
São Mateus: A Outra Capital da Terceira
A seis quilómetros de Angra, São Mateus da Calheta é a vila mais marítima da ilha. Não é um destino turístico, é o sítio onde os pescadores da Terceira descarregam o peixe ao fim da tarde, onde o cheiro a grelhados no carvão sai das portas das tascas sem que ninguém tenha posto o nome no TripAdvisor.
O Forte Grande de São Mateus, pintado de amarelo e construído no século XVI para proteger o porto, funciona hoje como espaço de exposições entre Maio e Setembro. Mas o verdadeiro espectáculo é o porto em si: ao final do dia, os barcos entram na pequena baía com o Monte Brasil como pano de fundo, e os gatos do cais já sabem a que horas chegam.
Para comer em São Mateus, o Beira Mar serve peixe fresco do dia com uma simplicidade que envergonha muitos restaurantes de Angra. Peça o que entrou nessa manhã, não tente ser criativo com o menu, siga a sugestão do dia. Se preferir ficar em Angra mas quiser a mesma honestidade no prato, O Forno é uma aposta segura para quem quer comer bem sem cerimónias.
Monte Brasil a Pé: Ignore o Miradouro Principal
Toda a gente sobe ao Monte Brasil. Quase ninguém faz o percurso completo. O erro habitual é ir directamente ao Pico das Cruzinhas, tirar a fotografia panorâmica, que, admito, é espectacular, e descer pelo mesmo caminho. Isso desperdiça metade do que o Monte Brasil oferece.
O circuito completo demora cerca de duas horas a passo tranquilo e percorre a floresta densa que cobre o antigo vulcão submarino. Há um trilho que desce até à costa sul, onde se vêem formações de lava que caem a pique para o mar. É ali, longe do miradouro principal, que se percebe a escala real desta península, e que se está, de facto, a caminhar sobre um vulcão extinto.
O Castelo de São João Baptista, a fortaleza que ocupa boa parte do Monte Brasil e é ainda hoje instalação militar, é visível de vários pontos do trilho. Não se pode entrar em toda a extensão do forte, mas os troços acessíveis dão uma ideia clara do tamanho da operação: este era o principal ponto de defesa do Atlântico durante séculos.
Vá de manhã cedo. Às 8h, o trilho está praticamente vazio e a luz sobre a baía de Angra é a melhor que se consegue o dia todo.
A Rua Direita Depois das Lojas Fecharem
A Rua Direita foi durante séculos a artéria principal de Angra, ligava a Praça Velha ao antigo cais. Hoje, durante o dia, é uma rua de comércio local razoavelmente banal: uma Mango, uma Benetton, sapatarias, papelarias. Nada que justifique um desvio.
Mas ao fim da tarde, quando o comércio fecha e as sombras se alongam entre os edifícios quinhentistas, a Rua Direita transforma-se. Os azulejos das fachadas, muitos originais, anteriores ao terramoto de 1980 que devastou a cidade, ganham uma qualidade diferente com a luz rasante. Os portões de ferro forjado dos pátios interiores ficam entreabertos, e vê-se a arquitectura doméstica que Angra esconde atrás das fachadas: escadarias de pedra, jardins minúsculos com hortênsias, tanques de lavar roupa que já ninguém usa.
É nesta hora que vale a pena subir também à Rua da Rosa e à Rua da Palha, ruas paralelas onde vivem os angrenses que não apareceram em nenhum guia. Aqui, os impérios do Espírito Santo, capelas pequenas e coloridas espalhadas por toda a ilha, aparecem em quase todas as esquinas. São o coração da vida comunitária da Terceira, especialmente durante as festas do Espírito Santo no Verão, quando cada bairro abre o seu império e distribui sopas e carne a quem aparecer.
O Mercado Duque de Bragança: Onde Angra Faz as Compras
O Mercado Duque de Bragança, na Rua do Rego, é o sítio onde a cidade se abastece. Não é grande nem vistoso, é funcional, como deve ser um mercado de bairro. Frutas da ilha, queijos da Terceira (o queijo vinha d'alhos é obrigatório), enchidos, e as inevitáveis malaguetas que os açorianos põem em tudo.
Passe por lá de manhã, antes das 11h, quando a selecção é melhor. Compre queijo e pão de milho para um almoço improvisado no Monte Brasil, é mais memorável do que qualquer refeição sentada num restaurante mediano.
A Alcatra: Não Saia da Terceira Sem Isto
A alcatra é o prato-emblema da Terceira: carne de vaca cozinhada lentamente num pote de barro com vinho tinto, cebola, alho, cravinho e pimenta preta, até se desfazer ao toque do garfo. Serve-se com massa sovada, um pão doce que parece estranho como acompanhamento de carne, mas funciona. É um daqueles pratos que não se consegue replicar fora do contexto: o barro, o tempo de cozedura, a qualidade da carne da Terceira.
A Tasca das Tias, em Angra, é das poucas que serve alcatra todos os dias. É um sítio sem pretensões, onde se come bem e se gasta pouco. Se quiser ir mais fundo nesta tradição, a experiência de cozinha tradicional de alcatra na Terceira é uma forma de perceber o prato de dentro, não apenas comê-lo, mas aprender a lógica por trás da técnica.
Para quem quer explorar a gastronomia açoriana noutras ilhas, a expedição gastronómica por Ponta Delgada é um bom complemento, São Miguel tem uma abordagem completamente diferente à mesa.
Cabo da Praia: Para Quem Sabe Esperar
A leste de Angra, o Cabo da Praia é uma zona costeira que quase ninguém visita. É um lugar de vento, de basalto escuro e de silêncio, e de aves. A Terceira está numa rota migratória atlântica, e o Cabo da Praia é um dos melhores pontos da ilha para observação.
Se isto lhe interessa minimamente, a expedição de observação de aves ao Cabo da Praia com a ComunicAir é conduzida por gente que conhece os ciclos migratórios e sabe onde procurar. Não é preciso ser ornitólogo, basta ter paciência e gostar de estar num sítio onde mais ninguém está.
Além de Angra: O Triângulo Açoriano
A Terceira é muitas vezes a segunda ou terceira ilha num roteiro dos Açores, depois de São Miguel e antes do Faial. Se estiver a planear o salto para a Horta, o guia de 24 horas na Horta é um bom ponto de partida, é uma cidade completamente diferente de Angra, mais cosmopolita e virada para o mar de uma forma que a Terceira não é. E se gostar de vistas, os melhores miradouros e rooftops da Horta valem o desvio.
Informações Práticas
Angra do Heroísmo tem voos directos desde Lisboa (cerca de 2h30) e ligações inter-ilhas frequentes. O aeroporto das Lajes fica a cerca de 20 minutos do centro de carro. Para explorar a ilha, alugar carro é praticamente obrigatório, os autocarros existem mas são pouco frequentes e não cobrem os sítios mais interessantes.
Para dormidas, evite os hotéis grandes na zona do porto e procure alojamentos dentro do centro histórico, nas ruas entre a Praça Velha e a Sé. Há várias casas restauradas com preços razoáveis, e a vantagem de estar a pé de tudo o que interessa.
O clima na Terceira é imprevisível o ano todo. Leve sempre um casaco impermeável, mesmo em Julho. E não se queixe da chuva, é ela que mantém a ilha tão verde que quase dói aos olhos.