Almada Sem Armadilhas: Um Fim de Semana Fora do Óbvio
Almada é mais do que o Cristo Rei e uma selfie. Dos bares de cocktails de Cacilhas à Costa da Caparica fora de época, um roteiro de fim de semana para quem quer comer, beber e andar sem tropeçar em turistas.
Toda a gente conhece o Cristo Rei. Toda a gente tira a selfie, compra o íman no quiosque e apanha o ferry de volta para Lisboa. Almada, para a maioria dos visitantes, resume-se a isso: uma estátua e uma vista. O que é uma pena, porque do outro lado dessa fotografia existe uma cidade com vida própria, com bares que não precisam de turistas para encher, com uma costa atlântica que não pede licença a ninguém, e com cantos onde se come e bebe melhor do que em muitos sítios da capital.
Este é o roteiro para quem quer passar um fim de semana em Almada a sério. Sem filas, sem menus traduzidos em seis línguas, sem a sensação de estar a participar num desfile.
Sexta à noite: chegar e instalar-se
O ferry da Transtejo entre Cais do Sodré e Cacilhas demora dez minutos e custa pouco mais de um euro. Chegue ao final da tarde, quando a luz rasante transforma a margem sul numa coisa que quase justifica os clichés. Quase. O terminal de Cacilhas é funcional e desinteressante, mas saindo de lá para a esquerda, pela marginal, começa a perceber-se que isto não é um subúrbio: é outro sítio.
Para a primeira noite, nada de planos complicados. Almada tem uma cena de bares que funciona sem alarido. O Carmen Wine Bar é uma escolha certeira para começar: carta de vinhos portugueses bem curada, ambiente descontraído sem ser desleixado, e o tipo de sítio onde o dono sabe o nome dos clientes. Peça um tinto alentejano a copo e deixe-se estar. Não há pressa.
Se depois do vinho quiser algo com mais energia, o Ophelia Cocktail Bar tem cocktails de autor que não são exercícios de pretensiosismo. Aqui bebe-se bem sem precisar de um glossário para entender a carta. Peça uma recomendação ao barman em vez de estudar o menu. Normalmente acerta.
Sábado de manhã: Almada Velha a pé
Acorde cedo. Não por disciplina, mas porque a Almada Velha de manhã é outra cidade. As ruas estreitas entre o Castelo de Almada e a Igreja de Santiago têm um silêncio que não se compra: mercearias a abrir, o cheiro de café a sair das portas, gatos com donos que nunca aparecem. O Castelo em si é uma ruína medieval com vistas honestas sobre o Tejo, e não cobra entrada. Não é o Castelo de São Jorge, e isso é um elogio.
Desça pela Rua Capitão Leitão até ao Jardim do Castelo. Há bancos à sombra e, se for dia de semana, é provável que esteja sozinho. Ao sábado aparecem mais pessoas, mas nunca multidões. Se encontrar uma pastelaria aberta, entre. Os pastéis de nata em Almada não são piores do que em Lisboa, só não têm a fila.
Mercado e almoço
O Mercado de Almada, perto da Praça São João Baptista, é um mercado municipal como deve ser: bancas de peixe, fruta da época, queijo de Azeitão a preços que fazem chorar quem compra na capital. Dê uma volta, compre fruta para o dia, e se houver uma tasca nas imediações com prato do dia, não hesite. O prato do dia numa tasca da margem sul, com sopa, prato, sobremesa e café, raramente passa dos 10 euros. É o melhor negócio gastronómico da Grande Lisboa, e ninguém fala nisso.
Sábado à tarde: Costa da Caparica sem circo
A Costa da Caparica é, no verão, uma loucura. Trânsito, estacionamento impossível, praias lotadas. Mas fora da época alta, e mesmo no verão se souber onde ir, é uma das melhores costas da região de Lisboa. O truque é simples: evite a praia principal junto ao centro da Caparica. Apanhe o transpraia (o comboio de praia, quando está a funcionar, geralmente de junho a setembro) e saia numa das praias mais a sul. A Praia da Sereia ou a Praia do Rei são boas apostas. Quanto mais longe, menos gente.
Se preferir mimar-se, um dia de spa na Costa da Caparica é uma forma inesperadamente boa de passar uma tarde. A ideia de spa na margem sul pode parecer estranha, mas funciona: depois de uma manhã a andar por ruas de pedra, umas horas de descompressão mudam o resto do fim de semana.
Ao final da tarde, volte à zona de Cacilhas para jantar. Os restaurantes de peixe ao longo do cais têm fama, e alguns merecem-na. O segredo é evitar os que têm empregados na rua a chamar clientes. Se alguém está a puxá-lo para dentro, é porque a comida não puxa sozinha. Procure os que estão cheios de portugueses e têm a carta escrita à mão ou em folha A4 plastificada. Peça peixe grelhado do dia. Sardinhas se for época (junho a setembro), dourada ou robalo no resto do ano. Acompanhe com batata cozida e salada. É simples, e é exactamente por isso que funciona.
Sábado à noite: beber com intenção
Depois do jantar, caminhe até ao The Corkman Irish Pub. Sim, um pub irlandês em Almada. Parece deslocado, mas não é. O Corkman tem o tipo de ambiente que os pubs irlandeses em Lisboa tentam replicar sem sucesso: informal, barulhento na medida certa, e com uma selecção de cervejas que justifica a visita. É o tipo de sítio onde se acaba a falar com desconhecidos, o que em Almada acontece com mais facilidade do que na margem norte.
Se o Corkman já estiver a fechar e a noite pedir mais, volte ao Ophelia para um último cocktail. Ou simplesmente caminhe até à marginal de Cacilhas e fique a olhar para Lisboa do outro lado. É uma das melhores vistas nocturnas da cidade, e não custa nada.
Domingo: ritmo lento e despedida
O domingo em Almada pede lentidão. Comece com um pequeno-almoço tardio. Café, torrada mista, sumo de laranja natural. Os cafés em redor da Praça da Liberdade em Cacilhas servem bem e sem pressa.
Se tiver energia, vale a pena subir ao Miradouro dos Capuchos, perto do Convento dos Capuchos de Almada (não confundir com o de Sintra). A vista de lá é panorâmica e inclui a Ponte 25 de Abril de um ângulo que muda a forma como a vê. Confirme localmente se o espaço está acessível, porque por vezes há obras na zona.
Para quem quer explorar além de Almada
Se este fim de semana lhe abrir o apetite por explorar a região sem as hordas, considere um desvio a Sintra com o nosso guia de bairros de Sintra, que vai muito além do Palácio da Pena. Ou mergulhe na cultura local de Lisboa com outro olhar. Se vier na Páscoa, os doces tradicionais de Mafra merecem o desvio.
O essencial para planear
- Como chegar: Ferry Transtejo de Cais do Sodré a Cacilhas (10 min, cerca de 1,30€ com Viva Viagem). Também há autocarros da TST e o comboio da Fertagus até Pragal.
- Quando ir: Primavera e início de outono são ideais. No verão, evite fins de semana na Costa da Caparica salvo se gostar de multidões. No inverno, Almada Velha tem um charme particular em dias cinzentos.
- Orçamento: Com ferry, refeições em tascas e uns copos à noite, um fim de semana sai confortavelmente por 80-120€ por pessoa (sem alojamento). Almada não é cara.
- Alojamento: Há opções no centro de Almada e na Costa da Caparica. Consulte plataformas de reserva, mas para uma experiência local, procure alojamentos em Cacilhas ou na Almada Velha.
Almada não precisa que a descubram. Já se descobriu há muito tempo, por quem lá vive. O que precisa é que os visitantes percebam que há mais na margem sul do que uma estátua e uma selfie. Um fim de semana chega para perceber isso. Dois fins de semana, e começa a pensar em mudar-se.