Almada: As Praias Que Dispensam o Algarve
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Almada: As Praias Que Dispensam o Algarve

· · Almada

Enquanto meio mundo planeia a descida ao Algarve, Almada tem quilómetros de costa praticamente deserta entre Março e Junho. Da Costa da Caparica às enseadas da Arrábida, este é o guia para quem quer praia sem multidões, e bons bares ao fim da tarde.

Todos os anos, a mesma conversa. Mal o sol aparece com alguma consistência, metade de Lisboa começa a planear a descida ao Algarve. Autoestrada A2, portagens, três horas de carro se houver sorte, cinco se o universo conspirar contra. E para quê? Para chegar a uma praia onde o lugar na areia custa a sanidade mental e um café com leite custa o dobro do razoável.

Entretanto, do outro lado do Tejo, Almada tem quilómetros de costa que a maioria dos lisboetas trata como plano B. É um erro. Um erro que, confesso, me convém, menos gente nas praias que frequento antes de Junho.

A Costa da Caparica Antes das Multidões

A Costa da Caparica não é segredo nenhum. Qualquer pessoa que viva na margem sul conhece aquela extensão interminável de areal que começa na Caparica e desce até à Fonte da Telha e mais além. O que muita gente não sabe é que entre Março e meados de Junho, esta costa transforma-se num sítio completamente diferente daquilo que é em Agosto.

Sem os bares de praia montados, sem as filas para estacionar, sem o som constante de colunas bluetooth. Fica o essencial: areia larga, ondas decentes e aquele vento do Atlântico que lembra que estamos vivos. É nesta altura do ano que os surfistas locais têm as melhores sessões, as ondulações de primavera são consistentes e a água, embora fria (estamos a falar de 15-16 graus), é perfeitamente suportável com fato.

O meu conselho: esqueçam as praias numeradas mais perto do centro da Caparica. Caminhem para sul. A partir da Praia da Riviera, o areal alarga, as pessoas rareiam e começa-se a sentir aquela sensação de espaço que normalmente só se encontra fora da Grande Lisboa.

Praia da Foz: O Segredo Mal Guardado de Almada

Nem toda a costa de Almada é areia infinita. Junto à Trafaria, a Praia da Foz oferece algo diferente, uma praia mais recolhida, virada para o estuário do Tejo em vez do oceano aberto. A água é mais calma, a perspectiva sobre Lisboa é cinematográfica e, em dias de semana antes do Verão, podem contar os outros banhistas com os dedos de uma mão.

O acesso mais interessante é pelo cacilheiro até à Trafaria e depois uma caminhada curta. Há algo de profundamente satisfatório em chegar a uma praia de barco em vez de carro. O cacilheiro parte do Cais do Sodré com frequência razoável e a travessia demora cerca de vinte minutos, tempo suficiente para um café no bar de bordo e para apreciar a margem sul a aproximar-se.

Quando ir e o que levar

Antes do Verão, o vento na costa de Almada é imprevisível. Pode sair-se de casa com sol e chegar à praia com uma brisa que corta. Levem sempre uma camada extra, um corta-vento leve resolve o problema. E levem comida. Os restaurantes de praia só abrem a sério em Maio ou Junho, e mesmo assim com horários erráticos. Um bom pão com queijo da serra, fruta e uma garrafa de água resolvem qualquer almoço de praia.

Praias da Arrábida: A Escapadela Que Vale o Desvio

Tecnicamente, as praias da Arrábida ficam no concelho de Setúbal, não em Almada. Mas a partir de Almada chega-se lá em meia hora de carro pela A33, o que faz delas uma extensão natural do território para quem mora na margem sul. E estas, sim, competem directamente com qualquer coisa que o Algarve tenha para oferecer.

Praia de Galapinhos foi votada como uma das melhores praias da Europa há uns anos, e com razão. Água transparente, protegida do vento pela serra, rodeada de vegetação. O problema? No Verão, o acesso de carro é cortado e os autocarros enchem. Antes de Junho, chega-se lá sem drama. Estacionam junto à estrada, descem o trilho de dez minutos entre pinheiros, e encontram uma praia que parece impossível a meia hora de Lisboa.

A Praia dos Coelhos, mesmo ao lado, exige uma descida mais íngreme mas recompensa com mais isolamento. Praia de Figueirinha é a opção mais acessível, tem estacionamento, bar, e funciona bem para famílias. Confirme localmente as condições de acesso, especialmente em dias de chuva recente, porque os trilhos podem ficar escorregadios.

Depois da Praia: A Outra Margem ao Fim da Tarde

Uma das vantagens de trocar o Algarve por Almada é que o dia não acaba quando se sai da areia. Não estão a três horas de casa, estão praticamente em casa. E Almada tem vindo a desenvolver uma cena de bares que merece atenção.

Para quem gosta de cocktails bem executados, o Ophelia Cocktail Bar é o sítio certo para fechar uma tarde de praia com alguma elegância. Não é o tipo de bar onde se entra de chinelos e areia no cabelo, mas depois de um duche e uma muda de roupa, é exactamente o tipo de recompensa que um dia de praia merece.

Se o registo for mais descontraído, o The Corkman Irish Pub funciona para aquelas noites em que se quer simplesmente uma cerveja decente sem complicações. E para quem prefere vinho, e estamos em Portugal, portanto seria estranho não preferir, o Carmen Wine Bar tem uma selecção que vale a pena explorar com calma. Peçam recomendações ao staff sobre vinhos da região de Setúbal, a Península de Setúbal produz brancos e moscatéis excelentes que raramente aparecem em cartas fora da zona.

Como Organizar o Dia

O plano ideal para um dia de praia em Almada antes do Verão é mais simples do que parece:

  • Saiam cedo. Antes das 10h já devem estar na praia. O vento tende a levantar durante a tarde, e as manhãs de primavera na costa são frequentemente calmas e luminosas.
  • Se forem de transportes públicos, o comboio da Fertagus até Pragal ou Corroios e depois autocarro TST até à Costa da Caparica é a combinação mais prática. Para a Arrábida, precisam de carro.
  • Levem protector solar mesmo em dias nublados. O reflexo na areia em Março queima com a mesma eficiência que em Julho, mas sem o aviso do calor.
  • Reservem energia para o final do dia. Os pores-do-sol vistos de Almada, seja da Cova da Piedade, de Cacilhas, ou do Cristo Rei, são dos melhores da região de Lisboa.

A Questão Que Ninguém Faz

Porque é que toda a gente insiste em ir para o Algarve quando tem isto à porta? Parte da resposta é marketing, o Algarve investiu décadas a construir uma imagem de destino de praia. Parte é hábito, as famílias portuguesas vão ao Algarve porque os pais iam ao Algarve. E parte é desconhecimento genuíno. Muitos lisboetas nunca passaram da margem sul de Almada, conhecem Cacilhas para comer peixe e pronto.

A verdade é que a costa entre a Caparica e a Arrábida oferece uma diversidade de paisagens que o Algarve, com as suas falésias douradas repetidas ao longo de quilómetros, simplesmente não iguala. Aqui passa-se de praias oceânicas selvagens para enseadas protegidas em vinte minutos. Da areia branca para rochas cobertas de mexilhões. Do surf para o mergulho em águas calmas.

Se estão a planear as primeiras idas à praia da temporada, experimentem ficar deste lado do Tejo. Guardem o Algarve para Setembro, quando os preços baixam e as praias esvaziam. Almada em Abril e Maio é uma das melhores experiências que a região de Lisboa tem para oferecer, e depois de um dia de sal e vento, ainda podem ir explorar a cultura dos bairros de Lisboa no dia seguinte, ou fazer uma escapadela a Sintra e os seus recantos se o tempo virar.

E se a visita coincidir com a Páscoa, vale a pena descobrir os doces tradicionais de Páscoa em Mafra, fica a menos de uma hora e é o tipo de desvio gastronómico que transforma um fim-de-semana bom num fim-de-semana memorável.

As praias estão lá. O Tejo atravessa-se em minutos. A única coisa que falta é deixar de pensar no Algarve como resposta automática e olhar, finalmente, para o que está mesmo ali ao lado.

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