A Ponte Romântica e a Rota dos Doces de Amarante: De São Gonçalo à Confeitaria da Ponte
Amarante esconde-se a uma hora do Porto, entre a ponte seiscentista de São Gonçalo e um punhado de confeitarias que guardam séculos de tradição conventual. Uma rota de menos de um quilómetro, muitas calorias e um santo casamenteiro que ainda hoje dá que falar.
Amarante é uma daquelas cidades que se revelam de forma lenta, quase tímida. Chega-se pelo IP4, vindo do Porto, pouco mais de uma hora de estrada, e a primeira impressão é a de uma vila nortenha como tantas outras: granito, varandas de ferro forjado, uma ou outra fachada azulejada. Mas depois vira-se uma esquina, desce-se uma rua estreita, e de repente ali está: a Ponte de São Gonçalo, suspensa sobre o Tâmega com uma elegância que não se ensaia. O rio passa devagar por baixo, espesso e verde, e nas margens os edifícios seiscentistas inclinam-se uns sobre os outros como confidentes de longa data. É um cenário que justifica, por si só, uma viagem de um dia a partir do Porto.
Mas Amarante não se visita apenas pelos olhos. Visita-se pelo estômago. Esta cidade pequena, com pouco mais de onze mil habitantes no centro urbano, concentra uma tradição doceira que rivaliza com qualquer outra no país, e fá-lo com um sentido de humor e uma irreverência que a distinguem de conventos e mosteiros mais solenes. Os doces de Amarante são, literalmente, escandalosos. E são extraordinários.
A ponte que deu corpo a uma lenda
A Ponte de São Gonçalo, na sua versão actual, data do século XVIII, foi reconstruída após as cheias de 1763 terem destruído a ponte medieval anterior. Mas a história que lhe dá alma é bem mais antiga. São Gonçalo de Amarante, frade dominicano do século XIII, terá sido o responsável pela construção da primeira ponte sobre o Tâmega, ligando as duas margens de uma cidade então dividida. A lenda, como todas as boas lendas portuguesas, mistura devoção com pragmatismo: Gonçalo não se limitou a rezar, arregaçou as mangas e pôs pedra sobre pedra.
O que a lenda também lhe atribui, e aqui as coisas ficam mais interessantes, é o papel de santo casamenteiro. São Gonçalo é o patrono dos solteiros e das solteiras, das almas que procuram companhia, dos corações ainda por ocupar. Durante as Festas de São Gonçalo, no primeiro fim-de-semana de Junho, a cidade transforma-se numa celebração do desejo que não tem paralelo em Portugal: os doces fálicos que as confeitarias produzem todo o ano são distribuídos às centenas, acompanhados de pancadas com alhos-porros, sim, alhos-porros, que se supõe trazerem sorte no amor. É pagão, é católico, é profundamente português.
Fora do período festivo, a ponte mantém a sua gravidade serena. Atravessá-la ao fim da tarde, quando a luz rasante ilumina as fachadas da margem sul e o Convento de São Gonçalo se recorta contra o céu, é um daqueles momentos em que se percebe por que razão Amarante seduziu pintores como Amadeo de Souza-Cardoso, filho da terra, figura central do modernismo português, cujo museu ali ao lado merece uma manhã inteira.
A rota dos doces: um percurso de menos de um quilómetro e muitas calorias
A concentração de confeitarias de qualidade em Amarante é inversamente proporcional ao tamanho da cidade. Num perímetro de poucos quarteirões, encontram-se casas que trabalham receitas transmitidas há gerações, muitas delas com origem conventual, o Convento de Santa Clara e o de São Gonçalo foram, durante séculos, laboratórios de doçaria fina, onde freiras transformavam ovos, açúcar e amêndoa em pequenas obras de arte calórica.
Confeitaria da Ponte
Comecemos pelo óbvio, porque às vezes o óbvio é óbvio por boas razões. A Confeitaria da Ponte ocupa um edifício na Rua 31 de Janeiro, a poucos metros da ponte, e é provavelmente a casa mais fotografada de Amarante, o que não lhe retira um grama de autenticidade. O interior mantém o ar de outra época: balcões de vidro, azulejos, uma sobriedade que contrasta com a exuberância do que está exposto.
O que pedir: as lérias, pequenos folhados recheados de ovos-moles com um toque de canela; os papos de anjo, esponjosos e encharcados em calda; e os foguetes, uma especialidade local que combina massa folhada com creme de ovos. Se for em Junho, peça um dos doces fálicos, os chamados «doces de São Gonçalo», não por provocação, mas porque são genuinamente bons. Conte com 1,50€ a 2,50€ por unidade. Um café e três doces ficam por menos de 8€.
Confeitaria São Gonçalo
Do outro lado da ponte, a Confeitaria São Gonçalo tem menos fama internacional mas igual dedicação. Aqui o destaque vai para os brisas do Tâmega, pequenos bolos de amêndoa com uma textura que fica algures entre o macaron e o mazapán, e para as toucas, doces de origem conventual que envolvem fios de ovos numa casca estaladiça de açúcar. A esplanada, voltada para o rio, é um bom sítio para tomar o pequeno-almoço antes de explorar a cidade.
Pastelaria Moreira
Para quem prefere o pão ao doce, ou quer uma pausa do açúcar antes de voltar a ele, a Pastelaria Moreira, na Rua Cândido dos Reis, faz um bolo de carne que é uma refeição em si. Mas o verdadeiro motivo para entrar são as queijadas de Amarante, uma variação local que usa menos açúcar e mais amêndoa do que as suas primas de Sintra, resultando num sabor mais seco e mais complexo.
Além dos doces: o que fazer com o resto do dia
Amarante tem uma manhã cheia de conteúdo para lá das confeitarias. O Museu Amadeo de Souza-Cardoso, instalado no claustro do Convento de São Gonçalo, alberga uma colecção notável do pintor modernista, além de exposições temporárias que surpreendem pela ambição para uma cidade desta dimensão. A entrada custa 3€ e o espaço merece pelo menos uma hora.
A Igreja de São Gonçalo, adjacente ao convento, é um exercício de barroco nortenho que vale a pena ver, mesmo para quem não se interessa especialmente por arquitectura religiosa. O portal lateral, com as suas colunas salomónicas e a profusão de anjos e flores de granito, é um espectáculo de excessos talhados na pedra mais dura.
Para quem quer esticar as pernas, o percurso ao longo da margem do Tâmega oferece cerca de três quilómetros de caminho plano e arborizado, ideal para digerir os doces do meio da manhã antes de atacar os do almoço. O rio é calmo o suficiente para que se vejam trutas a saltar nos meses mais quentes, e as margens estão razoavelmente bem cuidadas.
Almoço e vinho verde
Amarante está em plena zona de produção de vinho verde, e qualquer restaurante decente servirá garrafas da sub-região que não se encontram facilmente em Lisboa ou no Algarve. O Restaurante Largo do Paço, no centro, serve uma cozinha regional sem pretensões excessivas: vitela barrosã, bacalhau à moda de Amarante, arroz de cabidela. Conte com 15€ a 22€ por pessoa para uma refeição completa com vinho.
Para algo mais informal, as tascas na Rua 31 de Janeiro servem petiscos e meias-doses a preços que fazem lembrar que estamos no interior norte: uma meia-dose de polvo com batatas a murro sai por 7€ ou 8€, acompanhada de um copo de vinho verde por 1,50€.
Quando ir e como chegar
Amarante é uma cidade para todas as estações, mas cada uma oferece uma experiência diferente. A Primavera, de Abril a Junho, traz as Festas de São Gonçalo e o rio mais cheio; o Verão é quente, por vezes muito quente, acima dos 35°C, mas as noites são agradáveis e a cidade enche-se de emigrantes regressados; o Outono pinta a Serra do Marão de ocres e vermelhos e é talvez a altura mais fotogénica; o Inverno é frio e húmido, mas as confeitarias ficam mais acolhedoras e não há filas.
De carro, são 60 quilómetros desde o Porto pelo IP4, cerca de uma hora, dependendo do trânsito à saída da cidade. Há autocarros da Rodonorte com partida de Campanhã, mas os horários são irregulares e o serviço limita-se a três ou quatro ligações diárias. O carro é, francamente, a opção mais prática, e o estacionamento no centro de Amarante ainda é possível e maioritariamente gratuito.
Para quem faz base no Porto e quer combinar destinos, Amarante funciona bem como parte de um roteiro nortenho que inclua Guimarães, a cidade onde Portugal aprendeu a ser Portugal, ou Braga, a cidade que não pede licença ao tempo. Os três destinos formam um triângulo no Minho e Trás-os-Montes que se percorre confortavelmente em dois ou três dias, dormindo em qualquer um deles.
O que levar para casa
Os doces de Amarante viajam razoavelmente bem, sobretudo os mais secos: brisas do Tâmega, queijadas e foguetes aguentam dois a três dias fora do frigorífico se mantidos em caixa de cartão. A Confeitaria da Ponte e a São Gonçalo embalam para viagem com o cuidado de quem sabe que metade dos seus clientes são visitantes. Conte com 10€ a 15€ por uma caixa sortida generosa.
Para além dos doces, o vinho verde local, sobretudo os brancos da sub-região de Amarante, feitos com castas como Azal e Avesso, representa uma excelente relação qualidade-preço. A Adega de Amarante, na saída da cidade em direcção ao Marão, vende garrafas a partir de 3,50€ que não envergonham ninguém.
Uma nota final sobre o tempo
Amarante é uma cidade que recompensa a lentidão. Não há motivo para correr entre a ponte e o museu, entre a confeitaria e o almoço. O Tâmega não tem pressa, o granito não tem pressa, as senhoras que embalam os doces nas caixas de cartão não têm pressa. A melhor coisa que um visitante pode fazer é adoptar o ritmo do lugar: sentar-se na esplanada da Confeitaria da Ponte com um café e uma léria, olhar o rio, olhar a ponte, olhar as fachadas, e perceber que há sítios em Portugal onde o tempo ainda funciona como deve ser, sem urgência, sem ansiedade, sem a necessidade de justificar cada minuto com uma experiência instagramável.
É por isso que se volta a Amarante. Não pelos monumentos, que se vêem numa manhã. Não pelos doces, que se comem numa tarde. Mas por aquela qualidade rara que certas cidades pequenas ainda conservam: a capacidade de nos fazer sentir que chegámos, finalmente, a um sítio onde não é preciso ir a lado nenhum.