Amarante: Melão, Figos e a Rota da Fruta de Agosto
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Amarante: Melão, Figos e a Rota da Fruta de Agosto

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Em agosto, Amarante compra-se a peso: melões testados a bater com os nós dos dedos, figos colhidos direto do quintal, e uma rota entre a Confeitaria da Ponte, o Pobre Tolo e os bares junto ao Tâmega que vale mais do que qualquer postal.

Agosto em Amarante começa com o cheiro do melão a abrir ao meio-dia, quando o calor finalmente vence a casca e a polpa liberta aquele perfume adocicado que se cola às mãos de quem vende junto à Ponte de São Gonçalo. É a época em que as pequenas quintas do vale do Tâmega despejam na cidade caixas de figos ainda quentes de sol, melões que pesam mais do que parecem e pêssegos que ninguém consegue comer sem sujar a camisa. Não é a Amarante dos folhetos turísticos, com o convento e a ponte a servir de pano de fundo para fotografias. É a Amarante que se compra a peso e se come de pé, de mãos sujas, num banco à sombra.

O melão que se compra pela manhã e se come à noite

Quem chega cedo à cidade encontra as bancas de fruta a abrir perto do mercado municipal, com melões empilhados como se fossem pedras redondas, muitos deles cultivados nas margens do Tâmega, onde a terra aluvionar produz um melão doce e carnudo, diferente do melão de sequeiro do sul. A regra local é simples: bate-se no melão com os nós dos dedos e escuta-se o som oco. Se soar cheio, ainda não está pronto. Se soar vazio, está na hora. Ninguém aqui compra melão sem o testar assim, e um vendedor de fruta vai rir-se educadamente se aparecer alguém que não sabe fazê-lo.

O figo é mais imprevisível. Aparece em várias vagas ao longo do verão, mas é em agosto que atinge o pico, quando a figueira já deu os primeiros frutos em junho e agora despeja tudo o que tem. Os melhores não estão nas bancas, estão nas árvores dos quintais que dão para a rua, e mais do que uma vez alguém vai oferecer um punhado só porque sim. Aceite. É a hospitalidade rural do Tâmega a funcionar como sempre funcionou, sem cerimónia.

Confeitaria da Ponte: onde o doce conventual encontra a fruta fresca

Amarante é uma cidade de doce conventual, moldado pelas freiras do antigo Convento de Santa Clara em formas que geram sempre um sorriso mal disfarçado a quem visita pela primeira vez. Mas no calor de agosto, o doce conventual tradicional pesa demasiado, e é aí que a Confeitaria da Ponte acerta ao equilibrar o registo: um café curto, um doce pequeno de ovos e açúcar, e depois uma fatia de melão ou um prato de figos partidos ao meio para cortar o excesso de doçura. É esta combinação, e não o doce sozinho, que faz sentido no calor amarantino. Sente-se na esplanada com vista para a ponte, peça o café bem forte, e deixe que o vendedor de fruta ambulante que passa ali perto complete o pequeno-almoço com um melão fatiado na hora. Custa pouco, e é provavelmente a refeição mais honesta que vai fazer na cidade.

Pobre Tolo: o almoço que segue a época

Para o almoço, a aposta é o Pobre Tolo, um restaurante que não faz cerimónia com o menu e ajusta o que serve consoante o que chega do mercado. Em agosto isso significa que a fruta da época aparece não só na sobremesa mas também a acompanhar pratos salgados, numa lógica simples: se o melão está bom agora, usa-se agora. Não espere um menu fixo de pergaminho, espere uma explicação verbal do que há hoje, o que é sempre bom sinal num sítio pequeno. É também um dos poucos locais na cidade onde vale a pena perguntar diretamente ao empregado o que veio do mercado nessa manhã, porque a resposta muda todos os dias.

O que pedir

  • Sobremesa de fruta fresca da época, sempre que estiver disponível, em vez do doce conventual pesado ao almoço
  • Um prato principal simples, deixando o protagonismo para os acompanhamentos sazonais
  • Água bem fresca. Em agosto, o calor no vale do Tâmega não perdoa

A noite pertence aos bares junto ao rio

Ao final da tarde, quando o calor começa a ceder, a vida amarantina desloca-se para a margem do Tâmega. O Spark Bar é a escolha certa para quem quer um cocktail com fruta fresca de verão, servido junto à água, com a Ponte de São Gonçalo iluminada ao fundo. Não é sofisticação de grande cidade, é uma esplanada descontraída onde o melão e o maracujá aparecem em copos altos e ninguém se importa se a conversa dura até tarde. Para uma vista diferente, mais alta e mais aberta sobre o rio e a cidade, o Torre Jardim Bar compensa com um enquadramento que vale só por si, especialmente ao pôr do sol, quando a luz bate no granito das casas ribeirinhas e tudo fica com um tom quase alaranjado.

A dica é simples: comece no Spark Bar para o cocktail de fruta e a proximidade à água, suba depois ao Torre Jardim Bar para o final de tarde e a vista. Os dois fazem sentido na mesma noite, e a distância entre eles é curta o suficiente para se fazer a pé.

Mover-se entre os pomares: bicicleta e barco

Quem quiser ver de onde vem toda esta fruta, e não apenas comê-la, deve considerar o tour de bicicleta na Ecopista do Tâmega com a Amarante Trilhos. A antiga linha de comboio, hoje convertida em ciclovia, corre paralela ao rio e atravessa exatamente as zonas onde estão as pequenas explorações agrícolas que abastecem o mercado da cidade. Em agosto, de manhã cedo, antes do calor apertar, é possível pedalar entre pomares e ver meloeiros e figueiras a poucos metros da ecopista, um contexto que muda completamente a forma como se olha para a fruta que depois se compra na cidade.

Para quem prefere a água ao pedal, a experiência dos barcos de recreio no Tâmega oferece uma perspetiva mais lenta, quase preguiçosa, do mesmo território. Vista do rio, a cidade ganha uma escala diferente, e o calor de agosto é sempre mais suportável quando se está à superfície da água em vez de nas ruas de pedra.

Como chegar e quanto custa

Amarante fica a cerca de 45 a 50 minutos de carro do Porto pela A4, o que a torna uma excursão de um dia perfeitamente razoável para quem está hospedado na cidade invicta, sobretudo se combinada com outras paragens no Norte, como sugere o guia sobre as melhores viagens de um dia a partir do Porto. Não há ligação ferroviária direta e ativa até Amarante neste momento, por isso o carro ou o autocarro intercidades são as opções mais práticas.

Em termos de custos, este é um dos passeios gastronómicos mais baratos que se pode fazer no Norte de Portugal. Um melão inteiro comprado diretamente ao produtor custa poucos euros, um punhado de figos quase nada, e uma refeição completa no Pobre Tolo, com sobremesa de fruta incluída, fica bem abaixo do que se pagaria por algo equivalente no Porto. Os cocktails de fruta no Spark Bar e no Torre Jardim Bar seguem os preços habituais de esplanada, sem surpresas.

Quando ir

Toda a primeira quinzena de agosto costuma ser o pico da oferta, antes de o calor extremo começar a stressar as árvores e a reduzir a qualidade da fruta na segunda metade do mês. Vá de manhã cedo para comprar fruta, ao almoço para o Pobre Tolo, e deixe a tarde e a noite para os bares junto ao rio. É um dia inteiro construído à volta de uma ideia muito simples: em agosto, a melhor forma de conhecer Amarante é através daquilo que ela cultiva e cozinha, não apenas através das pedras da sua ponte.

Para quem quiser esticar a viagem pelo Norte, vale a pena olhar também para o que se passa mais a norte, na região de Braga, onde há sempre motivo para uma segunda paragem, seja através do guia de Braga ou, fora de época, do guia sobre a Semana Santa em Braga. Mas isso fica para outro dia. Em agosto, o compromisso é com o melão, o figo e o rio Tâmega, e Amarante, por uma vez, não precisa de mais nada para justificar a viagem.

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