Parapente em Linhares da Beira: Voar na Catedral do Voo Livre
Experiência

Parapente em Linhares da Beira: Voar na Catedral do Voo Livre

Linhares da Beira · 2h · easy

A descolagem fica a 1152 metros, 450 acima do vale, e os pilotos chamam a Linhares a Catedral do Parapente. Voos de batismo em biplace com o Clube de Voo Livre Vertical, o clube que gere a rampa e organiza o festival internacional todos os verões.

Há um momento, uns três segundos depois de os pés deixarem o chão na encosta acima de Linhares da Beira, em que o cérebro finalmente aceita que aquilo está mesmo a acontecer. A rampa fica a 1152 metros de altitude, cerca de 450 metros acima do vale, e de repente o castelo templário lá em baixo parece uma maquete. Não é por acaso que os pilotos portugueses chamam a este sítio a Catedral do Parapente. Não é marketing de câmara municipal: é o nome que a comunidade de voo livre lhe dá há décadas, porque as condições térmicas aqui são das melhores do país e o festival internacional que se realiza na aldeia todos os verões atrai pilotos de meia Europa.

Quem organiza os voos

A entidade que gere a zona de voo é o Clube de Voo Livre Vertical, com sede em Sameiro, perto de Manteigas. É um clube a sério, não uma empresa de animação turística genérica: organizam o Festival Internacional de Parapente de Linhares, campeonatos, e são eles que mantêm a descolagem e a aterragem oficiais. Para quem nunca voou, oferecem batismos de voo em biplace, ou seja, voos em parapente de dois lugares com um piloto certificado pela Federação Portuguesa de Voo Livre. Nas edições do festival, a inscrição para um batismo tem custado 80 euros, o que serve de referência, mas confirme o valor atual diretamente com o clube. Contactos: telefone +351 966 387 251, email [email protected], site clubevertical.org.

Alternativa igualmente verificada: a Montanae, do piloto Pedro Ferrão Patrício, que tem licença tandem da FAI, mais de 1700 horas de voo registadas e voa regularmente em Linhares e noutras rampas da Serra da Estrela. Reserva-se por WhatsApp (+351 969 574 509) ou email ([email protected]), através de montanae.com. Não publicam preços online, por isso peça orçamento quando marcar.

Como funciona, passo a passo

O ponto de encontro habitual é o campo de aterragem oficial, à entrada da aldeia, mas confirme diretamente com o operador quando reservar. Dali sobe-se de carro até à descolagem: são 6,5 quilómetros, 5 de alcatrão e 1,5 de terra batida, uns 15 minutos de curvas com vista.

  • Briefing: o piloto explica a corrida de descolagem, a posição do corpo e o que fazer na aterragem. Demora dez minutos e a única coisa que lhe pedem é que corra quando mandarem correr e não se sente antes de tempo.
  • Equipamento: arnês com proteção, capacete, tudo fornecido. Você vai à frente, o piloto atrás.
  • Descolagem: meia dúzia de passos encosta abaixo e a asa faz o resto. É muito menos violento do que se imagina, mais elevador que montanha-russa.
  • O voo: a duração depende das condições do dia. Com térmicas boas, o piloto pode ganhar altura em espiral; num dia calmo é um planado suave até ao vale. Conte o tempo total da experiência em duas horas, entre transporte, briefing e voo.
  • Aterragem: no campo à entrada da aldeia. Levantar os pés, deixar o piloto trabalhar, e está feito.

O melhor momento

Para mim, o melhor não é a descolagem nem a adrenalina. É o minuto em que se para de pensar na mecânica da coisa e se olha mesmo para baixo: as ruas de Linhares desenhadas entre penedos, o castelo com as suas duas torres, o vale do Mondego a abrir para norte. É a única perspetiva que faz justiça à aldeia, e percebe-se num instante porque é que os pilotos vêm de longe para voar aqui. Se tiver sorte, voa perto de aves de rapina a aproveitarem as mesmas térmicas que vocês. Os pilotos experientes usam-nas como indicador de onde o ar sobe, e vê-las a rodar a vinte metros da asa é o tipo de coisa que não se esquece.

Dicas práticas de quem já passou por isto

  • Roupa: mesmo em julho, leve um corta-vento. A 1500 metros com vento na cara, a temperatura sentida cai a pique. Calçado fechado com bom apoio, nada de sandálias.
  • Estômago: coma algo leve antes, não vá em jejum nem acabado de sair de um almoço de três pratos. Guarde o festim para depois, no Restaurante Cova da Loba, que fica na aldeia e é a recompensa certa.
  • Meteorologia: o voo só se confirma 24 a 48 horas antes, porque depende do vento. As direções favoráveis em Linhares são sudoeste, oeste, noroeste e norte. Se o operador cancelar, é um bom sinal: significa que leva a segurança a sério. Reserve com flexibilidade na agenda.
  • Época: a primavera e o início do verão têm as térmicas mais generosas. Se quiser ambiente de festa, aponte para o festival de verão, quando a aldeia enche de asas coloridas e os batismos se fazem em série; se preferir sossego, marque um dia normal de semana.
  • Fotos: pergunte ao operador se o piloto leva câmara. Segurar o telemóvel em voo é pedir para o perder.

Antes e depois do voo

Não faça disto uma visita relâmpago. Durma na aldeia, por exemplo no INATEL Linhares da Beira Hotel Rural, e assim garante estar no ponto de encontro sem madrugadas na estrada. A manhã seguinte pede uma caminhada para ver de baixo aquilo que sobrevoou: os trilhos à volta de Linhares vão de passeios fáceis a subidas a sério. E a própria aldeia merece duas horas com calma, porque é, como já escrevemos, um museu sem bilhete nem paredes: pelourinho, solares, o castelo onde provavelmente vai querer voltar a subir só para ver os parapentes a passar.

Como chegar

Linhares da Beira fica no concelho de Celorico da Beira, a cerca de 20 minutos da saída da A25. Não há transporte público prático até à aldeia, por isso carro próprio é quase obrigatório. O campo de aterragem fica à entrada da povoação e é impossível falhar: é o grande prado plano onde, em dias de voo, vai ver asas a dobrar e pilotos a arrumar material.

Última nota honesta: isto não é uma atração de parque temático com horários fixos. É voo livre a sério, gerido por gente que voa por paixão, e a meteorologia manda em tudo. Essa imprevisibilidade é meio caminho para a experiência valer a pena. Quando o dia está bom e a asa enche acima da Catedral, percebe-se porque é que há quem organize a vida inteira à volta disto.

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