Parapente em Linhares da Beira: Voar na Serra da Estrela
Linhares da Beira é a Catedral do Parapente: a 820 metros, na vertente poente da Serra da Estrela. Voe em biplace com a Montanae durante o ano, ou no festival do Clube Vertical em agosto, onde o batismo de voo custa 80 euros.
Há aldeias que se visitam de baixo para cima. Linhares da Beira pede o contrário. Aqui, a 820 metros de altitude, no sopé poente da Serra da Estrela, o melhor ponto de vista não é o castelo nem a torre, é o ar. Esta encosta tem nome no mundo do voo livre: chamam-lhe a Catedral do Parapente, e não é por marketing. A orientação da serra, o aquecimento das vertentes e as térmicas que sobem da planície fazem de Linhares um dos sítios mais consistentes do país para voar.
Não é preciso saber nada. O voo que interessa à maioria das pessoas é o biplace, ou batismo de voo: vai amarrado a um piloto certificado, ele faz tudo, e você limita-se a correr uns passos no arranque e depois a deixar de tocar no chão.
Quem organiza, e o que é real
Há duas vias verificadas para voar aqui, e vale a pena perceber a diferença.
Montanae, voos durante o ano
A Montanae faz voos biplace na Serra da Estrela e usa a vertente poente, onde fica Linhares, como um dos locais de descolagem. O piloto, Pedro Ferrão Patrício, tem licença de biplace emitida pela FAI (Fédération Aéronautique Internationale) e mais de 1700 horas de voo registadas. O voo inclui briefing de segurança, técnica de arranque, condução no ar e instrução de aterragem. Há quem aprenda, no próprio voo, a identificar as térmicas observando para onde sobem as aves de rapina, que voam ali ao lado.
A Montanae não publica preço fixo no site. A reserva faz-se por WhatsApp, por email ([email protected]) ou pelo formulário online, e o local exato e a hora dependem do vento e do dia. Confirme diretamente com o operador o valor, a duração e o ponto de encontro antes de contar com o voo.
Clube de Voo Livre Vertical e o festival
A outra via é o Clube de Voo Livre Vertical, que organiza em Linhares o evento Voar na Serra da Estrela e o Festival de Parapente, habitualmente em agosto (a edição recente decorreu entre 14 e 17 de agosto). Durante o festival, a inscrição para batismo de voo em biplace, com instrutores certificados, custa 80 euros, e faz-se em www.clubevertical.org. É a forma mais barata e mais animada de voar aqui, porque o céu enche-se de velas e a aldeia vibra com pilotos nacionais e estrangeiros.
Como é, do princípio ao fim
Chega à descolagem, na encosta voltada a poente por baixo da aldeia. O piloto estende a vela no chão, prende-lhe o arnês, explica a única coisa que tem de fazer: quando ele disser para correr, corre em frente e não se senta. Parece contraintuitivo, mas é o passo que mais falha. Três ou quatro passadas, a vela enche, e o chão desaparece debaixo dos pés sem solavanco.
Depois é silêncio. O parapente não tem motor, por isso o que se ouve é o vento e, se houver sorte, o assobio de uma ave por perto. A serra abre-se à frente, a planície da Beira estende-se atrás, e dá para ver a aldeia inteira, o casario apertado, o castelo no alto. Se houver térmica, o piloto pode subir em espiral e prolongar o voo; se preferir descida calma, basta dizer. A aterragem é num campo combinado em baixo, sentado, com o piloto a travar a vela nos últimos metros.
O melhor momento, e o que saltar
O melhor bocado não é a vista, é o segundo a seguir ao arranque, quando o corpo percebe que já não há chão e o estômago ainda não decidiu o que sente. Dura pouco e fica muito tempo. A meio do voo, peça ao piloto para fazer uma viragem larga sobre o castelo: ver Linhares de cima, com as muralhas a fechar a aldeia, vale a viagem só por si.
O que saltar: não insista em acrobacia se for a primeira vez. Os "wingovers" e descidas rápidas valem mais quando já se está habituado à sensação. E não pague o vídeo às cegas; pergunte primeiro como é filmado e se sai do próprio voo.
Prático
- Vestuário: calçado fechado e bem preso (ténis de corrida ou botas), calças compridas, casaco corta-vento. A 800 metros e no ar está sempre mais frio do que na aldeia, mesmo no verão.
- Levar: óculos de sol, gorro fino se for inverno, e nada solto nos bolsos. Telemóvel só se tiver fio de segurança.
- Quando reservar: o voo depende totalmente do vento. Reserve com margem e conte com a possibilidade de remarcar. As condições costumam ser melhores de manhã ou ao fim da tarde, quando o ar está mais limpo e as térmicas mais previsíveis.
- Quem pode: não é preciso experiência. Confirme limites de peso e idade diretamente com o operador.
- Como chegar: Linhares fica a poucos minutos de Celorico da Beira e da A25. O ponto de descolagem é fora da aldeia, na encosta; combine boleia ou transfer com o operador, porque há que subir até ao topo.
Fazer disto um dia
O voo dura pouco, mas a aldeia justifica ficar. Depois de aterrar, suba a pé pelas ruas de pedra e leia a aldeia como quem leu o céu primeiro, no guia da aldeia inteira como museu ao ar livre. Se quiser esticar as pernas em terra firme, há trilhos classificados por dificuldade que passam exatamente pelas encostas que viu de cima. Para dormir, o INATEL Linhares da Beira Hotel Rural é a opção mais prática para acordar perto da descolagem, e se andar a contar trocos vale ver como visitar Linhares sem gastar muito.
Voar aqui não é proeza de coragem. É deixar que a serra faça o trabalho e ficar a olhar. Poucos sítios em Portugal devolvem tanto por tão pouco esforço.