Parapente em Linhares da Beira: Catedral do Voo Livre
A descolagem está a 1.152 metros e o vento que sobe da Serra da Estrela mantém o parapente no ar tempo suficiente para vermos o castelo medieval encolher. O Clube de Voo Livre Vertical opera baptismos de voo em bilugar com pilotos certificados pela FPVL.
Há um ponto, mais ou menos a meio do voo, em que se percebe porque chamam a Linhares da Beira a Catedral do Parapente. Não é uma frase de brochura. É literal: a descolagem fica a 1.152 metros, voltada a sudoeste, e o vento que sobe da encosta da Serra da Estrela mantém-nos no ar tempo suficiente para vermos o castelo a encolher até parecer um brinquedo. Quem voa aqui há vinte anos diz que poucos sítios na Península Ibérica oferecem condições tão consistentes para baptismos de voo. Depois de experimentar, tendo a concordar.
Quem organiza: Clube de Voo Livre Vertical
O operador a ter em conta é o Clube de Voo Livre Vertical, sediado em Sameiro, a poucos minutos de Linhares. É o clube que mantém a actividade na zona desde os anos 90, que organiza o Festival Internacional de Parapente todos os Verões e que gere os pilotos certificados pela Federação Portuguesa de Voo Livre. Os baptismos de voo são feitos em parapente bilugar, ou seja, voa-se em tandem com um piloto experiente atrás. Não é preciso saber nada. Não é preciso correr muito.
Contactos directos: telefone +351 966 387 251, email [email protected], morada Largo da Reboleira, Sameiro, 6260-311. O site é clubevertical.org e tem formulário de marcação. Os preços para baptismos variam consoante a duração do voo e a época do ano, por isso confirme directamente com o operador antes de se deslocar.
Como funciona, do início ao fim
A logística é mais simples do que se imagina. Combina-se hora e ponto de encontro. O clube costuma indicar a zona de aterragem, que é um campo aberto na entrada da aldeia, junto ao cruzamento das estradas. Daí sobe-se de carro até à descolagem, no alto da serra, a cerca de 6,5 km, viagem que demora uns 15 minutos. A subida é lenta, em estrada estreita, e já faz parte do passeio.
Lá em cima, o piloto verifica o vento. Se as condições não estiverem boas, espera-se ou remarca-se. Nunca se voa por voar. Quando a janela abre, equipa-se o cliente com cadeirinha e capacete, explica-se a posição de descolagem (basicamente: continuar a correr e não se sentar antes de tempo) e em três ou quatro passos já se está no ar. Esta é a parte que mais surpreende as pessoas: a descolagem é tão rápida que mal se nota.
O voo: o que esperar lá em cima
O voo de baptismo dura tipicamente entre 15 e 30 minutos, dependendo das térmicas. Em dias bons, com bom piloto, prolonga-se. Voa-se sobre a aldeia medieval, vê-se o castelo do século XII visto de cima (uma perspectiva que mais ninguém tem), e nos dias claros distingue-se a planície da Cova da Beira a estender-se até quase à fronteira. O melhor momento, na minha opinião, não é a vista panorâmica. É a curva apertada que o piloto faz logo a seguir à descolagem, quando a aldeia inteira passa por baixo dos pés. Aí o estômago percebe que está mesmo a voar.
Se for sensível a alturas, não se preocupe. Estar suspenso debaixo de uma vela aberta é menos vertiginoso do que olhar de um varandim. Quase ninguém enjoa. Os pilotos sabem ler o cliente: se quiser calmo, é calmo; se pedir acrobacia, fazem alguns ‘wingovers’ no fim, antes de aterrar.
Quando ir e como vestir
Voa-se todo o ano, mas a melhor época vai de Maio a Setembro. As tardes funcionam melhor que as manhãs, ao contrário de muitos sítios em Portugal: a descolagem está virada a noroeste e precisa do vento que se levanta com o aquecimento do dia. Reserve sempre com alguns dias de antecedência, sobretudo em fins-de-semana, e mantenha o telefone à mão no próprio dia, caso o piloto precise de adiar.
- Calçado fechado, de preferência ténis ou botas de caminhada. Nada de sandálias.
- Calças compridas. A 1.000 metros de altitude está sempre mais frio do que em baixo.
- Casaco corta-vento, mesmo no Verão.
- Óculos de sol e creme. Vai estar voltado para o sol durante uns minutos.
- Câmara ou telemóvel com cordão de pescoço. Voar com algo solto na mão é má ideia.
Como chegar e onde ficar
Linhares fica a cerca de 50 minutos da A25, saindo em Celorico da Beira. De Lisboa são quase três horas, do Porto pouco mais de duas. A aldeia não tem transportes públicos úteis, por isso o carro é essencial.
Se quiser fazer um fim-de-semana à volta do voo, o INATEL Linhares da Beira Hotel Rural é a opção mais lógica: o clube faz parceria com o hotel para o festival e está literalmente à porta da aldeia. Para alternativas mais íntimas, veja o guia onde ficar numa aldeia sem bairros. E para encher o resto do dia depois de aterrar, vale a pena ler o museu sem bilhete nem paredes, que ajuda a perceber porque é que esta aldeia merece mais do que duas horas. Quem prefere mexer-se a pé encontra opções no guia de trilhos classificados por dificuldade e paisagem.
O que ninguém costuma dizer
Duas coisas. Primeiro, não escolha o dia pelo céu azul. Os dias com nuvens cúmulos espalhadas são os que dão voos mais longos, porque marcam as térmicas. Pergunte ao piloto o que ele acha do dia, não olhe só pela janela. Segundo, pague o vídeo se ele for oferecido. As fotos tiradas com a câmara no fim da vela ficam quase todas iguais; o vídeo, com o som do vento e a sua cara real a perceber que está a voar, é o que fica.
Linhares é, na prática, o melhor sítio de Portugal para fazer este voo pela primeira vez. Não é por marketing. É por geografia e por haver gente competente no terreno há trinta anos.