Fado ao Centro
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Fado ao Centro

Esqueça o fado de Lisboa: o de Coimbra é de homens, de capas e de guitarras choronas. No Fado ao Centro, na íngreme Rua do Quebra Costas, há um concerto diário de 50 minutos às 18:00, com um copo de Porto incluído e os músicos a explicar tudo entre canções.

Há uma diferença que poucos turistas conhecem antes de chegar a Coimbra: o fado daqui não é o de Lisboa. Não há mulheres a cantar dor e desilusão amorosa entre mesas de jantar. O Fado de Coimbra é coisa de homens, de estudantes, de capas pretas e guitarras afinadas para serenatas debaixo de janelas. É académico, é masculino, e é tocado de pé. Se há um sítio para perceber esta distinção sem precisar de uma noite inteira nem de um doutoramento em musicologia, é o Fado ao Centro.

Onde fica e como chegar

O Fado ao Centro está na Rua do Quebra Costas 7, e o nome da rua não é decorativo: é uma calçada íngreme que liga a Baixa à Alta, ao lado da Sé Velha. Chama-se Quebra Costas porque, durante séculos, foi exatamente isso que fez a quem subia. Hoje tem corrimão e degraus, mas continua a ser um teste para joelhos cansados. Venha a pé a partir da Praça do Comércio ou desça da Universidade. Esqueça o carro: a Alta é um labirinto medieval onde estacionar é uma forma de sofrimento. Se quiser enquadrar a visita, leia primeiro o nosso guia sobre Coimbra e a sua relação com o tempo, porque esta cidade entende-se melhor quando se sabe onde pisar.

O que é, na prática

Não é um restaurante com música de fundo nem um bar de fados onde os turistas batem palmas no sítio errado. É um centro cultural pequeno e dedicado, com um espetáculo diário às 18:00 que dura cerca de 50 minutos. Senta-se, ouve, e percebe. Entre as canções, os músicos explicam o que está a acontecer: a diferença entre uma guitarra de Coimbra e uma guitarra portuguesa de Lisboa, porque é que a serenata é cantada no escuro, o que significa o pé batido no chão em vez do aplauso. É a forma mais inteligente de iniciar alguém no género sem o aborrecer.

Está incluído um copo de vinho do Porto. Pode parecer um detalhe pequeno, mas é o gesto que transforma os 50 minutos numa experiência em vez de uma aula. Bebe-se devagar, enquanto a guitarra de Coimbra faz aquele som choroso e metálico que não existe em mais lado nenhum.

A guitarra que faz a diferença

Preste atenção ao instrumento. A guitarra de Coimbra tem um som mais grave e melancólico do que a de Lisboa, e os solos instrumentais, os chamados "falsetas", são tão importantes como a voz. Há momentos em que o cantor cala e a guitarra fala sozinha. É aí que o Fado de Coimbra mostra para que serve. Não está ali para o fazer chorar; está ali para o impressionar.

Dicas práticas

  • Reserve. A sala é pequena e os lugares enchem, sobretudo na época alta. Confirme diretamente pelo site oficial fadoaocentro.com ou pelo telefone +351 239 837 060. Não conte com aparecer à porta e entrar.
  • Chegue cedo. O espetáculo começa pontualmente às 18:00. Suba o Quebra Costas com margem, sobretudo se tiver pernas que reclamam.
  • Preço: €€. Para o que é, uma introdução guiada e honesta a uma tradição classificada pela UNESCO, com bebida incluída, é dinheiro bem gasto.
  • Código de vestuário: nenhum. Vá confortável. Os calções e ténis são perfeitamente aceitáveis.
  • Horário: o concerto é às 18:00. Outros horários de funcionamento da loja e do espaço, confirme diretamente.

O que fazer à volta

Os 50 minutos terminam por volta das 19:00, exatamente à hora certa para jantar, e está no sítio ideal. Suba a colina até ao Zé Manel dos Ossos, a tasca minúscula onde os pratos vêm fartos e as paredes estão cobertas de papéis escritos à mão por clientes. É a cara da Coimbra que não cabe em folhetos. Se preferir respirar antes, suba mais um pouco e procure o Miradouro do Vale do Inferno para ver a cidade cair sobre o Mondego ao fim do dia.

Para quem fica mais tempo, a Alta de Coimbra dá para dias. A arte urbana que mudou a cara da Alta merece uma caminhada própria, e se vier em maio vai apanhar a Queima das Fitas, a semana académica em que toda a cidade se vira do avesso. Aí o fado deixa de estar na sala e passa para as ruas, nas serenatas que se cantam de madrugada.

Vale a pena?

Vale, e por uma razão simples: poucos sítios em Portugal explicam tão bem uma tradição em tão pouco tempo. Não vá à espera de uma noite épica de fado com jantar e três horas de música. Vá à espera de 50 minutos honestos, bem tocados e bem explicados, com um copo de Porto na mão e a Sé Velha lá fora. É o aperitivo cultural perfeito para uma cidade que leva muito a sério aquilo que canta.