Baloiço da Torre (Barrozinha)
Batalha
Um terraço de pedra minúsculo em São Mamede, dez minutos de carro do Mosteiro, virado para um vale de oliveiras e telhados de barro. Vai-se ao final da tarde, fica-se vinte minutos, e percebe-se porque é que a Batalha não se esgota no claustro.
O Miradouro da Portela das Cruzes não consta nos folhetos da Câmara da Batalha, e isso é parte do encanto. Fica em São Mamede, freguesia rural a poucos minutos de carro do centro monumental, num cruzamento de estradas que a maior parte dos visitantes do Mosteiro nunca chega a ver. É um pequeno terraço de pedra, simples, sem cafés nem painéis interpretativos, virado para a colina verde polvilhada de casas brancas e telhados de barro. Vai-se lá para olhar, e depois vai-se embora. Essa é a proposta inteira.
A vista é doméstica, no melhor sentido da palavra. Não há aqui o drama do Atlântico nem a vertigem das serras: há um vale ondulado, oliveiras, vinhas pequenas, hortas de quintal, e, ao longe, o desenho recortado da serra de Aire e Candeeiros. As casas espalham-se sem grande lógica urbanística, como acontece nas freguesias do interior centro, e ao fim da tarde, quando o sol baixa, o calcário das paredes apanha um tom rosado que dura uns vinte minutos e desaparece. Esse é o momento para estar aqui. De manhã a luz é demasiado dura e ao meio-dia o vale fica achatado.
O miradouro em si é minúsculo. Conta-se uma muralha baixa de pedra, um banco ou outro, e o nome da localidade num poste. Cabem cinco ou seis pessoas confortavelmente. Se aparecer um grupo, espere cinco minutos, eles passam.
Está em Portela das Cruzes, São Mamede, 2495-031 Batalha. A forma mais simples é de carro: do centro da Batalha, segue-se para São Mamede pela estrada municipal e, à entrada do lugar de Portela das Cruzes, o miradouro fica do lado da estrada, identificado. São cerca de dez minutos do Mosteiro. Há espaço para estacionar duas ou três viaturas na berma, sem parquímetros nem complicações.
De transportes públicos é mais difícil. Os autocarros que ligam a Batalha às freguesias rurais têm horários reduzidos, sobretudo aos fins de semana. Se não tem carro, vale mais combinar uma corrida de táxi a partir da Batalha (uma volta curta, ida e volta com espera de quinze minutos sai por valor razoável, confirme diretamente com o motorista antes de partir) do que arriscar ficar pendurado à espera do regresso.
Final da tarde, sempre. Idealmente uma hora antes do pôr do sol, com tempo para ver a luz mudar. No verão isso significa lá pelas oito da noite; no inverno, cinco e meia. Em dias de muito vento ou chuva forte, esqueça: o miradouro está exposto e não há onde abrigar.
A primavera é a melhor estação. Os campos estão verdes, as flores silvestres ainda dão cor às bermas, e a temperatura permite ficar parado dez minutos sem desistir. No agosto seco, a paisagem fica amarela e dura, mas tem o seu encanto austero. Para uma leitura mais demorada do território à volta, vale a pena cruzar esta paragem com a leitura de O Crepúsculo do Calcário: Onde o Sol se Põe na Batalha, que mapeia outros pontos altos do concelho na hora dourada.
Sozinho, o miradouro dá para vinte minutos. É preciso enquadrá-lo num itinerário maior, e é por isso que recomendamos sempre combiná-lo com a visita ao Mosteiro da Batalha, que está a poucos quilómetros e é, sem rodeios, uma das três maiores obras de arquitetura gótica em Portugal. A leitura recomendada antes de entrar no claustro é o nosso guia Batalha: A Geometria da Promessa e o Silêncio da Pedra, que explica porque é que aquela pedra rendilhada não se parece com nada do resto do país.
Para almoçar antes de subir até São Mamede, ou para jantar depois, a escolha mais sólida no centro continua a ser o Restaurante Dom Duarte: cozinha regional, porções honestas, vinho da casa decente. Se quiser entender porque é que a Batalha vale mais do que a meia hora que os autocarros turísticos lhe dão, leia Onde o Tempo Estaciona: Um Mergulho na História da Batalha.
Quem está na Batalha pela arquitetura e quer cinco minutos de respiro fora do circuito turístico. Quem gosta de paisagem rural portuguesa sem encenação. Fotógrafos pacientes, pessoas em viagem lenta, casais que querem um sítio calmo para conversar antes do jantar. Não é para quem precisa de espetáculo: é para quem entende que a beleza, no centro de Portugal, é frequentemente uma coisa pequena, sem placa, à beira de uma estrada secundária. Vinte minutos. Mais do que isso é exagero. Menos do que isso é não ter percebido nada.