Pia'Donna
Braga
Capital religiosa de Portugal e cidade universitária em partes iguais, Braga combina igrejas barrocas, gastronomia minhota pesada e uma vida nocturna que desmente a sua reputação conservadora. Dois a três dias bastam para cobrir o essencial, incluindo os miradouros que os roteiros turísticos costumam ignorar.
Braga senta-se numa bacia rodeada de montes: tem o plano do Cávado para principiantes e rampas para Bom Jesus e Sameiro que fazem chorar gente de lycra cara. Um roteiro de bicicleta com paragens para hambúrguer, comida de rua e pizza pelo meio.
Da Sé ao amanhecer ao vinho verde no Miradouro do Picoto, passando por uma frigideira em casa que serve desde 1796 e um pudim Abade de Priscos que não vais esquecer. Um dia em Braga ao ritmo de quem cá vive, sem corridas.
Braga não tem mar, mas todo o bracarense tem a sua praia. O truque está em saber escolher entre o rio Cávado em Adaúfe e o Atlântico em Apúlia, e sobretudo a que horas lá chegar. Um guia honesto para fugir às multidões.
Quase tudo nas lojas de recordações junto à Sé foi feito a milhares de quilómetros daqui. Em Braga, a melhor recordação talvez nem se compre: faz-se, entre o barro do Ateliê Cobalto e uma garrafa de vinho verde de produtor pequeno.
Braga tem uma relação complicada com o tempo. É a cidade mais antiga de Portugal, sede da arquidiocese mais poderosa do país, e ao mesmo tempo uma cidade universitária onde os bares da Rua Dom Paio Mendes enchem todas as noites da semana. Esta tensão entre o sacro e o profano é o que torna Braga diferente de qualquer outra cidade portuguesa.
O centro histórico organiza-se a partir da Sé Catedral, uma das mais antigas da Península Ibérica, começada a construir no século XI. À volta dela, ruas estreitas como a Rua do Souto e a Rua dos Capelistas concentram comércio tradicional, cafés com décadas de história e igrejas barrocas que aparecem em praticamente todas as esquinas. Braga tem mais igrejas por metro quadrado do que qualquer outra cidade portuguesa, e faz questão de o lembrar, sobretudo durante a Semana Santa, quando as procissões transformam o centro numa encenação religiosa que atrai milhares de pessoas.
Mas reduzir Braga à religião é um erro. A Universidade do Minho trouxe uma energia jovem que se sente nos restaurantes, nos mercados e na vida nocturna. O Mercado Municipal, recentemente renovado, é um bom ponto de partida para entender a gastronomia minhota: bacalhau à Braga, papas de sarrabulho, rojões com arroz de feijão. São pratos pesados, honestos, feitos para dias de chuva, e em Braga chove com frequência.
O Bom Jesus do Monte, com o seu escadório barroco, é a imagem de postal de Braga e merece a visita, de preferência subindo a pé pelos 577 degraus em vez de usar o funicular. Mas o Santuário do Sameiro, poucos quilómetros adiante, oferece vistas igualmente impressionantes com uma fração dos visitantes. O Monte do Picoto, ainda mais perto do centro, é outro miradouro que a maioria dos turistas ignora.
Para comer, Braga tem uma cena gastronómica que vai além do tradicional. Ao lado das tascas de sempre, surgiram hamburguerias artesanais e espaços de street food que misturam a cozinha minhota com influências de fora. Vale a pena explorar tanto as casas de petiscos do centro como os novos espaços que estão a mudar a oferta da cidade.
Dois dias chegam para conhecer o essencial de Braga, mas três permitem incluir Guimarães (a meia hora de comboio) e montar um roteiro pelo Minho que faz sentido. A melhor altura para visitar é entre maio e outubro, evitando a chuva persistente do inverno, a não ser que venha pela Semana Santa, caso em que março ou abril são obrigatórios. Braga funciona bem como base para explorar o Norte, com ligações fáceis ao Porto, a Guimarães e ao Gerês.