Quinta da Veiga
Gerês
Em Caldas do Gerês, a água sai da serra a 47°C como saía no tempo dos romanos. Um guia honesto sobre o balneário, os verdadeiros vestígios da Via XVIII, e porque é que ir em outubro é melhor do que em agosto.
As cascatas mais conhecidas do Gerês enchem-se de gente, mas a 20 minutos de caminhada por uma levada esquecida em Pincães, ou escondidas na Mata da Albergaria sem uma única placa, há quedas de água que provavelmente terão só para vocês. Guia prático para as encontrar.
Posta barrosã grelhada na brasa, marcos miliários romanos com dois mil anos e o silêncio real da única noite que deveria passar no Gerês. Um roteiro de 24 horas ao ritmo de quem conhece o parque, sem correria, sem checklists.
Em 1972, uma aldeia inteira foi submersa para construir uma barragem no Gerês. O museu que conta essa história é o melhor da região, e custa apenas 2€. Mas nem todos os espaços museológicos da serra merecem o desvio.
O Gerês não é uma vila que se visite, é uma vila onde se fica. As Caldas do Gerês, encaixadas num vale estreito da Serra do Gerês, começaram como estância termal no século XVIII e mantêm essa vocação de pausa forçada. A rua principal sobe pelo vale com hotéis de outra era, cafés com esplanada e o cheiro constante a floresta molhada. Não há centro histórico monumental nem museu imperdível. O que há é o único parque nacional de Portugal à porta.
A partir da vila, a estrada sobe para a Mata da Albergaria, um dos últimos bosques de carvalho autóctone do país, onde uma via romana com marcos miliários de quase dois mil anos leva até à Portela do Homem, na fronteira com Espanha. Este percurso, feito a pé ao longo do rio, é provavelmente a melhor caminhada do Gerês para quem não quer aventura técnica, plano, sombreado e com piscinas naturais pelo caminho.
As cascatas são o grande chamariz. A Cascata do Arado, a cerca de 8 km da vila, é a mais acessível e fotografada. A Fecha de Barjas, que toda a gente chama de Cascata do Tahiti, exige uma descida íngreme mas recompensa com uma lagoa de água transparente onde se pode nadar no verão. Chegue cedo: nos fins de semana de julho e agosto, o acesso é condicionado.
A cozinha do Gerês é de montanha: pesada, honesta e feita para quem andou o dia inteiro. O cabrito assado é o prato obrigatório, aparece em praticamente todas as ementas. Na vila, o Lurdes Capela serve há mais de seis décadas e é conhecido pelo "pedaço", um bife panado com migas de broa, couve e mel. A Adega Regional mantém o espírito das casas de comida minhota com doses que alimentam duas pessoas. Para quem se aventurar até Pitões das Júnias, uma aldeia de pedra no extremo norte do parque, a Casa do Preto serve posta barrosã e feijoada de montanha que justificam a viagem.
Dois dias é o mínimo razoável: um para caminhar, outro para as cascatas e a vila. De maio a junho, o parque está verde, as cascatas cheias e os trilhos vazios. Julho e agosto trazem multidões reais, filas para estacionar, acessos cortados e água mais quente, sim, mas pouca margem para improvisar. Setembro é o compromisso ideal. No inverno, muitos alojamentos fecham, mas a serra coberta de nevoeiro tem um silêncio que vale a pena, se vier preparado.