Gerês: Cascatas Secretas Fora dos Trilhos Principais
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Gerês: Cascatas Secretas Fora dos Trilhos Principais

· · Gerês

As cascatas mais conhecidas do Gerês enchem-se de gente, mas a 20 minutos de caminhada por uma levada esquecida em Pincães, ou escondidas na Mata da Albergaria sem uma única placa, há quedas de água que provavelmente terão só para vocês. Guia prático para as encontrar.

Vou ser directo: se o vosso plano para o Gerês é estacionar junto à Cascata do Arado, tirar a foto e ir embora, estão a desperdiçar o Parque Nacional. Não que o Arado não valha, vale, e muito. Mas a maioria das pessoas faz exactamente isso, e o resultado é um parque de estacionamento caótico em Julho e uma fila de tripés onde devia haver silêncio. As cascatas de que vou falar exigem mais perna, menos GPS e, em alguns casos, uma boa dose de teimosia. É esse o preço de entrada. E vale cada gota de suor.

Cascata de Pincães: A Levada Que Ninguém Promove

Pincães é uma aldeia minúscula no concelho de Montalegre, agarrada à EN308 na direcção de Cabril. Não tem restaurante trendy, não tem loja de souvenirs, não tem nada que diga "atracção turística", e é exactamente por isso que funciona.

O trilho começa na própria aldeia, onde se deixa o carro (não há alternativa, não se chega à cascata de carro). O percurso de ida e volta ronda os 2,5 km e segue uma levada antiga, daquelas que serviam para alimentar moinhos de água. Aliás, ao longo do caminho ainda se vêem as ruínas desses moinhos, meio engolidos pelo mato, com as pedras cobertas de musgo que parece veludo.

O trilho é quase plano durante a maior parte do percurso, a única subida séria são os últimos 250 metros antes da cascata. Em 20 minutos de caminhada tranquila, chegam a uma queda de água encaixada entre paredes de granito que, na Primavera, tem uma força que surpreende. Há quem lhe chame a cascata mais fotogénica do Gerês. Não sei se concordo, depende da luz e do caudal, mas percebo o argumento.

Dica concreta: ide na Primavera. Mais água, paisagem mais verde e, sobretudo, significativamente menos gente. Em Agosto, até Pincães já apanha overflow dos turistas que esgotaram a paciência noutros spots mais populares.

Mata da Albergaria: Onde o Gerês Guarda o Melhor

A Mata da Albergaria é a jóia da coroa do Parque Nacional, a floresta de carvalhos mais bem preservada de Portugal, com árvores que têm séculos. No Verão, o acesso de carro à estrada entre Portela do Homem e a zona da Albergaria é limitado e pago (confirme localmente os valores e horários, que mudam todos os anos). Mas esse filtro é parte do charme: menos carros, menos ruído, mais floresta a sério.

Perto da Cascata da Portela do Homem, que fica literalmente ao lado da estrada, a 500 metros da fronteira com Espanha, escondem-se as Cascatas das Lagoas da Mata da Albergaria. São das cascatas menos visitadas de todo o Gerês, o que é quase absurdo dado que o acesso desde o estacionamento da Portela do Homem é fácil e agradável. O problema, se é que se pode chamar problema, é que quase ninguém sabe que existem. Não há placas. Não há setas amarelas. Há um carreiro e a vossa capacidade de observação.

A cerca de um quilómetro e meio de caminhada num percurso circular de 4 km, encontram uma sucessão de quedas de água entre rochas graníticas, não são cascatas monumentais, mas são íntimas, silenciosas, e se forem em dia de semana provavelmente estarão completamente sozinhos. Se gostam de combinar natureza com história, vale a pena explorar a Caminhada pela Geira no Gerês, que passa por esta mesma zona e segue a antiga via romana com marcos miliários ainda de pé.

Poço Negro: O Mergulho Que Ninguém Conta

Pertinho das lagoas da Mata da Albergaria fica o Poço Negro, provavelmente o melhor sítio do Gerês para um mergulho a sério. Uma piscina natural ampla, profunda o suficiente para saltos (com cautela, avaliem sempre a profundidade antes), rodeada de pedras onde se pode estender uma toalha e fingir que o mundo não existe. O acesso é fácil, o que torna este poço ideal para quem quer a experiência da cascata secreta sem o trilho de três horas.

Cascata Cela Cavalos: A Descida Que Afasta as Multidões

Esta é daquelas cascatas que fica vazia por uma razão simples: é preciso descer. E tudo o que se desce, sobe-se. O ponto de partida é a Capela de Santa Luzia, em Cela, quem vem de Outeiro pela M308 encontra a indicação para "Cela Cavalos", deixa o carro junto à capela e desce por um estradão de cerca de 1,5 km.

A descida não é difícil, uns 10 minutos a bom passo. Mas é suficiente para filtrar quem quer apenas a foto rápida. O resultado é uma cascata encaixada num vale estreito, com uma piscina natural de água gelada (estamos no Gerês, convém avisar: mesmo em Agosto, a água não é para sensíveis). É das cascatas menos concorridas do Parque e, honestamente, uma das mais bonitas.

Para quem quer ir mais longe, literalmente —, daqui parte também o trilho do Poço Dola, um percurso de 13 km com mais de 1000 metros de desnível acumulado. Não é para todos: há muita pedra solta, a descida ao Poço Dola é íngreme e, em dias de chuva, é simplesmente perigoso. Mas o Poço Dola é dos locais mais selvagens de todo o Gerês, um anfiteatro natural de rocha e água que justifica o esforço para quem tem pernas e experiência de montanha.

Pitões das Júnias: Mosteiro, Cascata e o Fim do Mundo

Pitões das Júnias é uma das aldeias mais isoladas do Parque Nacional, no extremo norte, e tem aquela sensação de fim do mundo que não se consegue fabricar. A aldeia em si já vale a visita, casas de granito, espigueiros, ganadeiros que olham para os turistas com uma mistura de curiosidade e indiferença educada.

O trilho mais acessível parte do cemitério da aldeia e é circular, com cerca de 4 km de dificuldade fácil. Passa pelas ruínas do Mosteiro de Santa Maria das Júnias, um mosteiro beneditino do século XII, abandonado há séculos, meio engolido pela vegetação, e pelo miradouro da cascata de Pitões. A cascata é impressionante, especialmente depois de dias de chuva.

Mas o segredo de Pitões está mais fundo. As Caldeiras do Pereira ficam a cerca de 2,5 km da aldeia, escondidas numa floresta densa, e o acesso não tem sinalização nenhuma. O trilho começa na Rua do Pátio da Raposeira, perto do Largo Eiró, e segue ao longo do rio depois de passar o parque de merendas. São 8 km no total (ida e volta), de dificuldade média, e o terreno é irregular, não é sítio para sandálias ou para quem não quer sujar as botas. Mas as Caldeiras do Pereira são daqueles sítios que só os locais conhecem, com poços naturais encaixados entre rochas que parecem ter sido esculpidas à mão.

Notas Práticas Para Não Meterem os Pés Pelas Mãos

Quando ir

Primavera, sem discussão. As cascatas estão no seu esplendor, a paisagem é absurdamente verde e há uma fracção dos visitantes de Verão. Março a Junho é a janela ideal. Se forem em Agosto, preparem-se para partilhar os spots mais conhecidos, mas as cascatas deste artigo continuam relativamente vazias mesmo em época alta.

O que levar

  • Calçado de trilho com sola aderente, obrigatório. As rochas junto à água são traiçoeiras, especialmente quando molhadas.
  • Água e snacks. Nenhuma destas cascatas tem bar ou quiosque por perto.
  • Toalha e fato de banho se quiserem mergulhar (e devem querer).
  • Protector solar, o sol de altitude engana, e não é raro queimar-se em dias que pareciam amenos.

Como chegar

Carro é praticamente indispensável. O transporte público dentro do Parque é quase inexistente. Quem ficar baseado em Gerês-vila tem acesso fácil à Mata da Albergaria e à Portela do Homem. Para Pincães e Cela Cavalos, a EN308 é a estrada de referência. Para Pitões das Júnias, contem com 40-50 minutos de estrada sinuosa desde Gerês, mas é das estradas mais bonitas de Portugal, portanto não se queixem.

Segurança

Não subestimem o Gerês. As cascatas são bonitas, mas a montanha é montanha. Evitem trilhos junto a ribeiros após chuva forte, o caudal sobe rapidamente e as pedras ficam perigosamente escorregadias. O trilho do Poço Dola, em particular, é desaconselhado em dias de chuva. E nunca saltem para poços sem verificar primeiro a profundidade.

E Depois da Cascata?

Se o Gerês vos deixar com vontade de mais adrenalina, o canyoning no Rio Arado é a progressão natural, rappel, saltos e tobogãs naturais num dos rios mais bonitos do Parque. E se quiserem mudar completamente de registo depois de dias de trilhos e natureza, Barcelos fica a pouco mais de uma hora e é um contraste perfeito: um guia honesto para famílias que desmistifica a cidade, cafés que servem café a sério e museus que vale a pena visitar (e outros nem tanto).

Mas a verdade é esta: o Gerês não precisa de complemento. Precisa é de tempo. E as cascatas que ficam fora dos trilhos principais são a melhor razão para ficarem mais um dia.

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