Vila do Porto: Vinho de Cheiro e Petiscos ao Fim do Dia
Em Santa Maria, o vinho de cheiro é feito com uma uva proibida na UE e só existe para consumo doméstico. Combine-o com lapas grelhadas, alheira frita e uma caminhada nocturna pelo porto de Vila do Porto para uma noite açoriana como deve ser.
Santa Maria é a ilha mais quente dos Açores, a mais seca, e a que menos turistas recebe. E é exactamente por isso que comer e beber aqui tem um sabor diferente. Não há menus traduzidos em cinco línguas, não há terraços instagramáveis com cocktails a 14 euros. Há petiscos honestos, vinho que não encontras em mais lado nenhum do mundo, e gente que se senta à mesa como se o tempo não tivesse inventado a pressa.
Este itinerário não é um guia exaustivo. É uma noite. Uma noite bem gasta em Vila do Porto e arredores, com paragens para comer, beber e olhar para o Atlântico com um copo na mão.
Começa antes do jantar: o pôr do sol que mereces
Se vais dedicar a noite à comida, dedica o final da tarde à paisagem. O Miradouro da Macela é o sítio certo. Fica no ponto mais alto da ilha, a cerca de 590 metros, e de lá vês o contorno inteiro de Santa Maria, o mar para todos os lados, e nos dias limpos até São Miguel ao longe. Não é um miradouro com café ou loja de souvenirs. É um ponto com uma vista e pouco mais, o que é exactamente o que precisas antes de uma noite de excessos gastronómicos controlados.
Vai por volta das 18h30 no verão (mais cedo no inverno, confirme o horário do pôr do sol). Leva um casaco. Mesmo sendo a ilha mais quente dos Açores, a 590 metros o vento faz-se sentir.
O vinho que não existe oficialmente
Antes de falar em restaurantes, precisamos falar do vinho de cheiro. É o vinho de Santa Maria, feito com a casta Isabella, uma uva americana que produz um vinho aromático, frutado, ligeiramente doce e com pouco álcool. E aqui está o detalhe que o torna especial: a produção comercial é proibida na União Europeia, porque a Isabella não é uma casta autorizada para vinificação comercial. Ou seja, o vinho de cheiro é feito para consumo doméstico, partilhado entre vizinhos, servido em festas locais, e se tiveres sorte, encontras numa tasca ou restaurante da ilha.
Não esperes um vinho elegante ou complexo. Espera algo que sabe a uva, que se bebe como sumo, e que desce perigosamente bem numa tarde quente. É uma curiosidade enológica genuína, não um truque de marketing.
As vinhas mais bonitas ficam na zona de São Lourenço, no lado leste da ilha, protegidas por muros de pedra vulcânica chamados "currais", semelhantes aos que se veem no Pico. Se passares por lá durante o dia, vale a pena parar para ver a paisagem vitícola.
Quando ir para provar vinho de cheiro
A melhor altura é no início de setembro, durante a Festa das Vindimas em São Lourenço. Aí, o vinho corre literalmente. Fora dessa época, pergunta nos restaurantes locais. O Mesa d'Oito e o Clube Naval costumam ter opções locais, incluindo aguardente da ilha e vinho abafado.
Primeiro acto: petiscos no centro de Vila do Porto
Vila do Porto não é propriamente uma metrópole. A rua principal tem o essencial: uns cafés, umas mercearias, a câmara municipal. Mas a partir das 19h, as mesas começam a aparecer nas calçadas e o cheiro a grelhados escapa das cozinhas.
O Central Pub é uma instituição local com mais de 50 anos. Não te deixes enganar pelo nome: isto não é um pub britânico. É o ponto de encontro de Vila do Porto, onde locais e visitantes se misturam. Vem aqui para petiscos simples, uma cerveja fria, e para sentir o pulso da ilha. Não é sofisticado, nem quer ser.
Para petiscos propriamente ditos, procura lapas grelhadas com manteiga de alho. Santa Maria tem algumas das melhores lapas dos Açores, e são servidas em quase todos os restaurantes e bares da ilha. Pede também cracas (percebes locais) se estiverem disponíveis, e alheira frita com ovo, um clássico mariense que não vais encontrar preparado assim no continente. A alheira aqui é de porco e frango, servida com batatas fritas e um ovo estrelado por cima. Simples, calórico, perfeito.
Segundo acto: jantar a sério
Para o jantar, tens duas boas opções com filosofias diferentes.
Mesa d'Oito
Fica na Rua Teófilo de Braga, dentro do Hotel Charming Blue, mas está aberto a não-hóspedes. É provavelmente o restaurante mais cuidado de Vila do Porto, com uma cozinha açoriana moderna que não tem medo de vegetais (uma raridade nos Açores, sejamos honestos). As sobremesas são o ponto alto. Se queres uma noite com mais polish e menos barulho, é aqui.
Clube Naval de Santa Maria
Junto ao porto, com vista para o mar, o Clube Naval é a escolha certa para marisco. Lapas, búzios, peixe do dia grelhado. Nada complicado, tudo fresco. É o tipo de sítio onde a ementa depende do que o mar deu nesse dia. Pede o que o empregado recomendar e não vais errar.
Em qualquer um dos dois, pergunta pelo vinho local. Mesmo que não tenham vinho de cheiro (que é raro fora do circuito doméstico), terão provavelmente vinho abafado ou licor de amor, um digestivo doce típico da ilha.
Terceiro acto: a sobremesa é um passeio
Depois do jantar, a tentação é ir para o hotel. Resiste. Caminha até ao porto de Vila do Porto. À noite, com as luzes do cais reflectidas na água, é um dos sítios mais bonitos da ilha, e não há vivalma. Se visitaste o miradouro ao fim da tarde e jantaste bem, esta caminhada nocturna é o fecho perfeito.
Para a sobremesa propriamente dita, procura biscoitos de orelha numa padaria ou mercearia local. São biscoitos secos com forma de orelha (daí o nome), típicos de Santa Maria, bons para acompanhar um café ou um cálice de licor. Também vale a pena experimentar as cavacas, uns bolinhos leves e crocantes cobertos de açúcar.
Além da noite: o que fazer no dia seguinte
Se esta noite de petiscos te abriu o apetite para explorar mais Santa Maria, há duas sugestões óbvias. Para quem quer conhecer a ilha a pé e descobrir as praias, os trilhos e praias com a SMATUR são a melhor forma de ver o que está para lá de Vila do Porto. Os percursos passam por paisagens que justificam a viagem aos Açores por si só.
E se ficaste com vontade de continuar a exploração gastronómica noutras ilhas, o nosso guia sobre a gastronomia de Ponta Delgada é um bom ponto de partida para São Miguel. Para quem segue para o Faial, vale a pena ler sobre como aproveitar 24 horas na Horta, onde a cena gastronómica é surpreendentemente cosmopolita para uma cidade tão pequena. E se queres beber um copo com vista, o nosso guia sobre os melhores rooftops e panorâmicas da Horta complementa bem esta noite mariense.
Informações práticas
Vila do Porto é pequena. Tudo o que mencionei neste itinerário fica a distância de uma curta caminhada ou de uma viagem de carro de poucos minutos. Para São Lourenço, precisas de carro. Não há Uber em Santa Maria, mas há táxis e podes alugar carro no aeroporto.
Os restaurantes em Santa Maria não são caros pelos padrões portugueses. Um jantar completo com vinho no Mesa d'Oito ou no Clube Naval fica tipicamente abaixo dos 30 euros por pessoa, mas confirma localmente porque os preços podem variar com a sazonalidade do marisco.
Reservas: no verão e especialmente durante o festival de música MARÉ de Agosto, reserva com antecedência. No resto do ano, chegas e sentas-te.
A melhor época para este itinerário é entre junho e setembro, quando os dias são mais longos e o vinho de cheiro da última colheita ainda circula. Mas Santa Maria é agradável o ano todo, com invernos mais suaves que qualquer outra ilha dos Açores.
Uma última nota: não venhas a Santa Maria à espera de uma cena gastronómica sofisticada. Vem à espera de comida honesta, ingredientes que viajaram zero quilómetros, e de um vinho que tecnicamente não devia existir. Isso, combinado com o silêncio de uma ilha onde toda a gente se conhece, é mais do que suficiente para uma noite memorável.