Sesimbra Refrescante: As Enseadas que Batem as Praias Fluviais
Guia

Sesimbra Refrescante: As Enseadas que Batem as Praias Fluviais

· · Sesimbra

Toda a gente sobe à serra à procura de uma praia fluvial e da água gelada de um rio. Mas a quarenta minutos de Lisboa, Sesimbra tem enseadas de água turquesa, peixe acabado de pescar e mar que dá mesmo para nadar. Eis porque vale a pena o desvio.

Há um ritual de verão que metade do país conhece de cor: pegar no carro, subir até à serra e procurar uma praia fluvial. A água gelada de um rio represado, a sombra de um plátano, a sandes de fiambre suada dentro da mochila. É bonito, é tradição, e em julho está cheio. Quem chega depois das dez da manhã estaciona a um quilómetro e desce a pé. A água, essa, raramente passa dos quinze graus, o que é ótimo nos primeiros trinta segundos e tortura a partir do minuto dois.

A minha proposta é simples: se o objetivo é arrefecer, vá para sul de Lisboa em vez de para o interior. Sesimbra fica a menos de quarenta minutos da capital e tem aquilo que nenhuma praia fluvial consegue oferecer: enseadas de água transparente protegidas pela serra da Arrábida, com fundo de areia clara que pinta o mar de turquesa. É a água mais bonita a sul do Tejo e, ao contrário do que muita gente pensa, dá para nadar sem ficar roxo.

Porque Sesimbra ganha à serra

O segredo está na geografia. A serra da Arrábida cai a pique sobre o mar e funciona como uma barreira que quebra o vento norte. O resultado são águas calmas, quase de piscina, e uma temperatura que no pico do verão chega a ser agradável, coisa rara no Atlântico português. Enquanto a praia fluvial da serra vive à mercê da chuva do inverno anterior e do caudal do rio, aqui a maré é generosa todos os dias.

Sesimbra continua a ser, antes de tudo, uma vila de pescadores. Às seis da manhã as traineiras descarregam no porto e ao almoço o peixe está no prato. Esse detalhe muda tudo: depois de uma manhã de praia não vai comer uma bifana de bomba de gasolina, vai comer um peixe grelhado que estava vivo ao amanhecer. Para perceber a vila para além da fila de toldos, vale a pena fazer o walking tour de história e petiscos com os Pexitos, que tira o turista da marginal e mete-o nas ruas de trás, onde a vila realmente acontece.

As enseadas, por ordem de esforço

Praia do Ouro e Praia da Califórnia: as fáceis

São as praias urbanas, a dois passos do centro e da marginal. Areia, esplanadas atrás, salva-vidas no verão e zero esforço para chegar. Não são as mais bonitas da zona, mas são imbatíveis para quem viaja com crianças, com avós ou com preguiça. A vantagem é óbvia: sai da água e em cinco minutos está sentado a almoçar peixe. A desvantagem também: em agosto a toalha do vizinho fica encostada à sua.

Conselho prático: chegue antes das dez ou depois das quatro da tarde. O sol da tarde na Califórnia é mais brando e a multidão da manhã já foi para casa fazer a sesta.

Praia dos Lagosteiros: a do meio-termo

Mais a oeste, perto do Cabo Espichel, é uma praia maior e mais selvagem, com fama de ondulação mais forte. Não é a melhor para quem só quer mergulhar tranquilo, mas é espetacular para quem gosta de espaço e de paredões de arriba. Curiosamente é também um sítio com pegadas de dinossauro fossilizadas na rocha, o que faz dela um programa perfeito para entreter miúdos entre dois banhos. Confirme as condições do mar localmente antes de pôr a criançada na água.

Praia da Ribeira do Cavalo: a que vale o suor

Esta é a fotografia que toda a gente já viu sem saber onde fica. Água cor de piscina dos Açores, areia branca, falésias a toda a volta. O senão é a chegada: o trilho a pé desde Sesimbra é íngreme, escorregadio em sítios e definitivamente não é para sandálias de praia. Leve ténis, água a sério e não vá a meio da tarde com calor de quarenta graus.

A alternativa civilizada é apanhar um barco-táxi a partir do porto de Sesimbra, que faz a viagem em poucos minutos e poupa os joelhos. Os preços variam com a época e o operador, por isso confirme no cais no próprio dia. Leve tudo o que precisa: na Ribeira do Cavalo não há bar, não há sombra alugada, não há nada. É esse o ponto.

Quando o calor aperta a sério: a Arrábida

Tecnicamente já não é Sesimbra vila, mas faz parte do mesmo concelho e é o motivo número um para vir até aqui. Portinho da Arrábida, Galápos e Galapinhos são as praias que aparecem nas listas das mais bonitas da Europa, e por uma vez a internet não exagera. A água é transparente, o fundo é claro e a serra coberta de vegetação mediterrânica cai mesmo em cima da areia.

O senão é o acesso. No verão, o Parque Natural da Arrábida limita a entrada de carros para proteger a zona, e há um sistema de transporte e estacionamento condicionado que muda de ano para ano. Não confie na sua memória de 2019: confirme localmente as regras de acesso e os horários do transporte antes de sair de casa. Quem ignora isto acaba a fazer meia-volta numa estrada estreita com as crianças a chorar no banco de trás.

A recompensa, para quem se organiza, é aquilo que nenhuma praia fluvial alguma vez vai ter: nadar em água salgada cristalina com vista para o mar aberto e, ao fundo, a silhueta da serra. Leve mergulho e máscara. O fundo rochoso de Galápos esconde mais peixe do que se imagina.

O que comer, e onde não cair na esparrela

A regra de ouro de Sesimbra: coma peixe e coma simples. A vila vive do mar e o melhor que tem para oferecer é peixe grelhado na hora, regado com azeite e pouco mais. O choco frito é quase obrigatório, vinha de tradição setubalense e aqui faz-se bem feito. Peça também as cavalas ou o carapau grelhado, que são baratos, frescos e melhores do que metade dos robalos caros que tentam impingir aos turistas na marginal.

Desconfie das ementas com fotografias e dos empregados que abordam quem passa. As melhores casas não precisam de o agarrar pelo braço. Se quiser perceber a tradição doceira da região antes de viajar, o roteiro de doces tradicionais de Mafra dá boas pistas sobre o que distingue a doçaria conventual desta zona da do resto do país.

Para o fim de tarde, quando o sal já secou na pele e apetece uma cerveja com vista, Sesimbra tem onde escolher. O Onda Selvagem Bar é o sítio certo para quem quer continuar com os pés na areia e a música a subir de volume à medida que o sol desce. Mais clássico e descontraído, o Bar Inglês é o tipo de casa onde se bebe sem pressa e se conversa de verdade. E se quiser algo com mais postura para a noite, o Contraste Bar fecha bem o serão.

Onde dormir para esticar a estadia

Sesimbra dá para um dia a partir de Lisboa, mas é um erro. A vila ganha à noite, quando os autocarros de excursão se vão embora e fica só quem ficou. Para quem decide pernoitar, o SANA Sesimbra Hotel tem a vantagem da localização junto à praia, o que num dia de verão vale ouro: voltar do banho a pé e tomar duche antes do jantar é o luxo que faz a diferença.

Dormir aqui também resolve o problema do trânsito. As estradas de acesso à Arrábida engarrafam de manhã e ao fim do dia, e quem dorme na zona pode ir cedo, apanhar a praia vazia e voltar antes da confusão. Quem vem e volta a Lisboa no mesmo dia passa metade do tempo de verão preso numa fila.

Para além da praia

Há vida em Sesimbra quando o mar está revolto ou simplesmente quando se está farto de areia. O castelo medieval no alto da vila dá uma vista que justifica a subida, sobretudo ao fim da tarde, com a luz dourada a bater na baía. E para quem gosta de levar uma recordação que não seja um íman de frigorífico, o workshop de flores silvestres com a Miúda das Flores é uma forma diferente de passar uma manhã, a aprender a compor com o que cresce mesmo aqui ao lado, na encosta da Arrábida.

Se estiver a montar um roteiro mais largo pela região de Lisboa, vale a pena cruzar Sesimbra com outras paragens com personalidade própria. O guia de bairros de Sintra serve para os dias de nevoeiro, em que a praia não convida, e o guia de cultura local de Lisboa ajuda a equilibrar o sal do mar com o asfalto da cidade.

O plano em três linhas

  • Manhã: praia cedo. Arrábida se conseguir resolver o acesso, Ribeira do Cavalo se quiser aventura, Califórnia se viajar com família.
  • Almoço: peixe grelhado ou choco frito na vila, sem ementas com fotografias.
  • Fim de tarde: castelo para a vista, cerveja num bar com os pés na areia, jantar sem pressa e dormir na vila em vez de fugir para Lisboa.

As praias fluviais da serra têm o seu encanto e a sua nostalgia. Mas se o que procura é água transparente, peixe acabado de pescar e uma vila que ainda cheira a mar a sério, o desvio para Sesimbra é dos mais fáceis de justificar a sul de Lisboa. A água é mais quente, a paisagem é maior e, no fim do dia, há sempre uma cerveja à sua espera com o pôr do sol pela frente.

praias Arrábida Sesimbra Lisboa e Vale do Tejo verão