Praias do Algarve em Junho: Vistas de Sesimbra
Porque é que o melhor guia das praias do Algarve em Junho começa numa esplanada de Sesimbra? Porque a viagem começa antes da praia, e o sítio onde dorme a véspera define o dia seguinte. Aqui está o roteiro, com paragens reais, preços, e opiniões fortes.
Confesso que escrevo este guia das melhores praias do Algarve para visitar em Junho a partir de uma esplanada em Sesimbra, com vista para a baía e um café meio frio à frente. Há quem ache estranho. Eu acho que faz todo o sentido. Sesimbra é o ponto de partida lógico de quem vai descer ao Algarve em Junho de carro: 45 minutos a sul de Lisboa, acesso directo à A2, e uma noite aqui antes de pegar na estrada poupa-lhe o trânsito caótico das saídas de Lisboa às sete da manhã. Sirva-se a si próprio o favor: durma em Sesimbra, acorde com o cheiro do mar, e desça ao Algarve já com a cabeça no modo certo.
Junho é, sem grande discussão, o melhor mês para fazer praia no Algarve. A água do Atlântico, que em Maio ainda é um murro no peito, sobe para os 19 ou 20 graus na costa sul. Os dias têm 14 horas de luz. Os preços ainda não dispararam. E, sobretudo, as praias ainda não estão entaladas com a multidão de Julho e Agosto. Quem conhece o Algarve a sério sabe que Junho, juntamente com Setembro, é a janela onde se vê o sítio como ele realmente é, antes de virar parque temático.
Porquê começar em Sesimbra (e não em Faro)
Antes de chegarmos às praias propriamente ditas, deixem-me defender a tese. Quem voa para Faro e fica logo por lá, perde uma coisa: a transição. O Algarve é diferente do resto de Portugal, e essa diferença saboreia-se melhor quando se chega por terra. Sesimbra funciona como um aperitivo perfeito. Tem a pesca, tem o castelo no alto, tem a Arrábida ao lado, tem peixe acabado de chegar à lota. É costa atlântica de Lisboa, com personalidade própria, e ainda escapa razoavelmente à pressão turística.
Para a noite anterior à descida, o SANA Sesimbra Hotel resolve o problema. Frente ao mar, parque de estacionamento próprio (importante quando vai carregado para uma semana de praia), e a vinte minutos a pé do centro. Acorda, toma o pequeno-almoço, mete-se na A2 e às onze da manhã está a parar em Aljezur para um café. Antes disso, no entanto, faça-se mais um favor: jante decentemente na noite anterior. Há três sítios em Sesimbra onde acabar a noite com uma cerveja ou um copo de vinho branco. O Onda Selvagem Bar é para quem quer ficar à beira-mar, descontraído, ouvindo as ondas. O Bar Inglês é uma instituição local, sem qualquer pretensão, do tipo onde se conversa com o vizinho do balcão sobre o tempo e a pesca. E o Contraste Bar tem mais energia, ideal se quiser começar a noite antes de seguir viagem ao amanhecer.
Se tiver mais um dia, vale a pena ficar dois em Sesimbra. Reserve uma manhã para o walking tour com os Pexitos, que mistura a história da vila com paragens em tascas onde se prova choquinhos e azeitonas locais. É a melhor forma de perceber a vila em duas horas. E se viaja com alguém que aprecia coisas mais delicadas, o workshop de flores silvestres com a Miúda das Flores é uma surpresa: aprende-se a apanhar e compor flores da serra da Arrábida, em Junho ainda no pico do colorido.
A Costa Vicentina: Junho é o seu mês
Saindo de Sesimbra, o primeiro instinto é descer pela A2 até ao Algarve sul. Resistam. Façam o desvio para a Costa Vicentina, o lado oeste, atlântico bravo, onde Junho ainda tem aquela frescura matinal que torna a praia tolerável até ao meio da tarde. A 25 de Abril continua a ser a porta de entrada mais rápida.
Praia de Odeceixe
É a minha favorita da costa oeste, sem hesitação. A foz da ribeira de Seixe forma uma língua de areia em meia-lua, com a aldeia branca a cair pela colina abaixo. Em Junho, tem espaço para estender a toalha sem pedir licença. A água é fria, há sempre vento depois das duas da tarde, e por isso vão de manhã, das nove ao meio-dia. Almocem em cima, na aldeia de Odeceixe (duas ou três tascas honestas, peixe grelhado simples, vinho da casa). Custo médio de almoço: 18 a 25 euros por pessoa. Estacionamento gratuito junto à praia, mas em Junho é melhor estar lá antes das dez.
Praia da Amoreira
A norte de Aljezur, é outra praia de foz, mais larga, com a ribeira a formar um lago de água doce do lado de terra que aquece bastante mais que o mar. Ideal para famílias com crianças, ou para quem fica friorento com o Atlântico em Junho. O acesso é por estrada de terra batida, mas o parque é grande. Há um restaurante simples no início da praia, mas o melhor almoço é em Aljezur, a 10 minutos de carro: peçam batata-doce, que é a especialidade da zona, e qualquer coisa de mar.
Praia do Amado
Para quem surfa ou quer ver surf, é obrigatório. Em Junho, as ondas estão amigáveis, há escolas a operar, e mesmo que não entre na água, a tarde a ver as séries a rebentar é tempo bem gasto. Aluguer de prancha e fato à volta dos 25 euros. Aula de iniciação, 35 a 45 euros.
Sagres e a ponta de Portugal
Continuar para sul leva-os a Sagres, o fim da terra. A Praia do Tonel, mesmo abaixo da fortaleza, é estonteante em Junho: areia clara, água azul cobalto, falésias amarelas a pique. É praia de Verão completo, mas com a vantagem de não estar ainda apinhada. A Praia da Mareta, mais abrigada, tem mais infraestrutura e bares de pé na areia.
Dormir em Sagres em Junho ainda é acessível, à volta de 80 a 120 euros por noite num hotel decente, valor que duplica em Agosto. Janta-se peixe e marisco a sério no porto da Baleeira: percebes em Junho, se houver, são imperdíveis. Custam o que custam (40 a 60 euros o quilo, dependendo do dia), mas comê-los a 200 metros de onde foram apanhados pela manhã é experiência irrepetível.
O barlavento clássico: Lagos e arredores
De Sagres para leste entra-se no Algarve postal: falésias cor de tijolo, grutas, mar turquesa. Junho é o mês perfeito porque os passeios de barco às grutas de Benagil ainda partem com 60 ou 70 por cento da lotação, e não com filas de duas horas.
Praia do Camilo, Lagos
Famosa, fotografada até à exaustão, e ainda assim merecedora. As escadas de madeira que descem entre as falésias são parte do espectáculo. Cheguem antes das dez da manhã ou perdem o estacionamento. A praia é pequena, dividida em duas enseadas, e em Junho ainda se consegue estar com algum conforto. Levem água e fruta, porque não há concessão na areia.
Praia da Dona Ana
Vizinha do Camilo, recentemente ampliada por trabalhos da Câmara, perdeu um pouco da intimidade mas ganhou em conforto. Tem concessão, chuveiros, casas de banho. Boa para um dia inteiro com família. Café e tosta na esplanada: 6 a 8 euros.
Meia Praia
O contraponto: cinco quilómetros de areal extenso e plano, do lado oposto a Lagos, perfeito para quem quer caminhar com os pés na água ou alugar uma cadeira e ler durante horas. Tem mais infraestrutura, é menos fotogénica, mas em Junho consegue-se uma manhã quase sem ninguém. Os restaurantes do extremo leste, junto à marina, são turísticos. Vão antes a Lagos cidade almoçar.
O sotavento: o lado calmo do Algarve
De Faro para leste, o Algarve muda de personalidade. Acaba-se a falésia, começa-se a duna. A Ria Formosa abre-se em ilhas-barreira, e as praias passam a ter outra escala: areais infinitos, água mais quente (chega aos 22, 23 graus em Junho), maré que define o ritmo do dia.
Ilha Deserta (Ilha da Barreta)
Vai-se de barco a partir de Faro, em cerca de 45 minutos. Em Junho, é a hora certa: ainda não há multidão, e a única estrutura na ilha é um restaurante (Estaminé) onde se almoça peixe grelhado com vista de 360 graus para a Ria Formosa. Reservem com antecedência. Sem reserva, ficam à espera com fome.
Ilha de Tavira
Acessível por comboio turístico e ferry a partir de Tavira. É uma ilha-barreira longa e estreita, com bares simples, areia branca e o Atlântico aquecido pela maré baixa. Junho é ideal porque os ferries andam de hora a hora sem fila. Levem chapéu, porque sombra não há.
Praia do Cabeço, Altura
A pouco mais de 10 minutos de Vila Real de Santo António, esta praia tem dunas protegidas, areal largo e quase sempre vento ameno do levante. É a minha escolha para quem quer um dia de praia genuinamente algarvio sem pretensões, com restaurante de praia simples e razoável (peixe do dia 15 a 22 euros).
Logística, custos e a coisa do trânsito
Junho tem uma vantagem prática: o trânsito ainda é gerível. Da segunda à quinta, a A22 (Via do Infante) flui. Sextas à tarde e domingos ao final do dia, evitem. Combustível: contem 1,90 a 2 euros o litro de gasóleo na A2 (mais barato em estações fora da auto-estrada).
Alojamento em Junho continua acessível em comparação com Julho/Agosto: contem entre 90 e 180 euros por noite para hotel de três a quatro estrelas em zonas como Lagos, Tavira ou Albufeira. Apartamentos turísticos em zonas menos centrais podem ficar nos 60 a 90 euros.
Refeições: pequeno-almoço 4 a 7 euros, almoço de praia 18 a 30 euros, jantar decente 25 a 45 euros por pessoa com vinho. Evitem restaurantes com menus em cinco línguas e fotografias dos pratos: sinal universal de cozinha medíocre.
O regresso (e porquê voltar a Sesimbra)
Quem fizer este trajecto à séria, deve regressar pela mesma porta. Subir a A2 em direcção a Lisboa, sair em Setúbal ou Palmela, e dormir mais uma noite em Sesimbra antes de mergulhar de novo na cidade. É uma forma de descomprimir antes de voltar à rotina. Se ainda tiver curiosidade pelo resto da região, o nosso guia de cultura local em Lisboa aprofunda a parte urbana, o guia de bairros de Sintra arruma a serra ali ao lado, e o roteiro doce de Mafra é uma boa surpresa para sobremesa.
O Algarve em Junho é a forma certa de entrar no Verão português. Não esperem por Agosto, quando o sítio se transforma noutra coisa. Vão agora, levem chapéu, levem paciência para a estrada na sexta-feira, e provem percebes em Sagres se a sorte vos sorrir. E comecem em Sesimbra. A sério.