O Outro Estremoz: Para Lá do Mármore e do Mercado
Toda a gente vem ao mercado de sábado e vai-se embora ao almoço. Mas Estremoz só se entrega ao domingo à tarde: as figureiras a pintar barro, as piscinas cheias de gente da terra e as praias fluviais à sombra. O guia do outro Estremoz.
Toda a gente chega a Estremoz pela mesma porta. Sábado de manhã, o Rossio Marquês de Pombal cheio até à última pedra, as bancas a venderem desde queijo de ovelha a chita aos quadrados, e os turistas de fim de semana a fotografarem a Torre das Três Coroas contra o céu branco-azulado do Alentejo. É bonito. É também o Estremoz que toda a gente vê e depois esquece, porque é exatamente igual ao que viram numa qualquer revista de viagens.
O problema não é o mercado. O mercado é genuíno e vale a pena. O problema é que quase ninguém fica para a tarde, e quase ninguém volta no domingo, quando a cidade se esvazia e finalmente se deixa ver. É aí que Estremoz deixa de ser um postal e passa a ser uma cidade onde se vive. Este artigo é sobre essa segunda cidade.
A cidade de baixo, onde ninguém aponta a câmara
Os autocarros despejam toda a gente na zona alta, junto ao castelo e à pousada. Sobe-se, tira-se a fotografia, desce-se. Mas a vida real de Estremoz acontece na cidade de baixo, em redor do Rossio e nas ruas que dele irradiam: a Rua Victor Cordon, a Rua 5 de Outubro, os becos que descem em direção ao Largo General Graça.
É aqui que estão os bonecos de Estremoz, e quero ser claro: não me refiro às lojas de souvenirs da zona do castelo. Refiro-me ao facto de esta figura de barro, modelada à mão e pintada com cores que parecem do século XVIII porque praticamente o são, ter entrado em 2017 na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Poucas cidades do tamanho de Estremoz têm uma distinção destas e dão-lhe tão pouco palco. Procure os ateliers das figureiras na cidade de baixo, fale com quem ainda os faz, e perceberá que a Rainha Santa Isabel a esconder pão no avental, o presépio, o ciclo das estações, são uma forma de contar a história do Alentejo que nenhum íman de frigorífico consegue.
Se vier de manhã cedo, antes das nove, percorra o Rossio quando ainda está vazio. Os cafés à volta abrem as portas, o cheiro a torrada e a galão sai para a rua, e tem a praça toda para si. É o oposto do caos de sábado e, honestamente, é quando a praça é mais bonita.
O que comer, e o que pedir mesmo
Estremoz come como o Alentejo inteiro come: devagar, com pão a sério e com porco que sabe a alguma coisa. Não vou inventar nomes de restaurantes que não posso garantir, mas posso dizer-lhe o que procurar na ementa e o que deixar passar.
Peça açorda alentejana, aquela sopa de pão com alho, coentros, azeite e um ovo escalfado a desfazer-se por cima. Peça migas, de preferência com entrecosto ou com espargos bravos se for a estação. Peça ensopado de borrego. E, se o vir, peça o porco preto de bolota grelhado, porque o Alentejo cria-o melhor do que quase toda a gente em Portugal. Para acompanhar, vinho da região, que é dos melhores do país e custa uma fração do que pagaria por um Douro de qualidade equivalente.
Para sobremesa, a tradição local manda encharcada, aquele doce conventual de ovos e açúcar que é doce até ao limite do suportável e depois mais um pouco. Uma colherada chega para duas pessoas. Os queijos de ovelha da região, sobretudo na época fria, são outra forma de terminar a refeição. Conte com algo entre 12 e 18 euros por pessoa numa casa honesta, sem vinho. Ao domingo, confirme localmente o que está aberto, porque muitas casas fecham.
Onde os locais vão quando aperta o calor
Aqui está a parte que os guias ignoram por completo. Estremoz em julho e agosto é forno. O termómetro passa dos 38 graus sem pedir licença, e a ideia romântica de passear pelas muralhas ao meio-dia transforma-se rapidamente em arrependimento. A pergunta certa não é "o que visitar", é "para onde fogem os locais".
A resposta mais imediata é o Complexo de Piscinas Municipais de Estremoz. Não tem o glamour de uma piscina infinita de hotel, e ainda bem. É onde as famílias da terra passam as tardes de agosto, onde os miúdos saltam para a água a tarde inteira e onde, por uns poucos euros à entrada, se compra a coisa mais valiosa do Alentejo no verão: sombra e água fresca. É o sítio mais democrático da cidade e diz-lhe mais sobre como se vive em Estremoz do que qualquer monumento.
Se quiser água a sério, e água ao ar livre, vale a pena sair um pouco. A norte, a curta distância de carro, fica a Praia Fluvial de Fronteira, uma daquelas praias de interior que o Alentejo faz tão bem: água parada e fresca, relva à volta, mesas de merenda à sombra de árvores, e zero do stress de uma praia de costa em agosto. Leve farnel, leve chapéu, e fique a tarde toda. Mais a norte ainda, junto a Sousel, a Praia Fluvial das Azenhas d'El Rei oferece o mesmo registo, com o bónus de um nome que conta uma história antiga de moinhos e água. Nenhuma das duas é Caparica. É precisamente esse o ponto.
Estremoz devagar, em duas rodas
Há uma forma de ver o que está entre a cidade e estas praias fluviais que muda completamente a experiência, e é deixar o carro parado. A paisagem entre Estremoz e as aldeias vizinhas, montados de sobreiro e azinheira, olivais antigos, searas que em maio ficam douradas, foi feita para ser atravessada devagar.
É exatamente isso que propõe a experiência Pedalar pelo Alentejo: Estremoz de Bicicleta com a Portugal Bike. O Alentejo planáltico desta zona é generoso com quem pedala: estradas secundárias com pouco trânsito, distâncias humanas, e a possibilidade real de parar numa aldeia, beber um café de 80 cêntimos no balcão, e voltar a montar. Faça-o de manhã, antes do calor apertar, ou ao fim da tarde, quando a luz fica cor de mel e os campos cheiram a erva seca. É a melhor forma de perceber porque é que o mármore desta zona, que se vê nos socalcos abertos como feridas brancas na terra, fez de Estremoz o que é.
O mármore, sem o folheto turístico
Não se pode falar de Estremoz sem falar de mármore, mas pode-se falar dele de forma diferente. Esqueça por um momento a pousada e os átrios institucionais forrados a pedra. O mármore de Estremoz, Borba e Vila Viçosa é uma das maiores reservas do mundo, e a sua presença está em todo o lado de forma quase banal: nas soleiras das portas de casas modestas, nos lava-loiças de pedra das cozinhas antigas, nas bancadas das tabernas. Numa cidade qualquer, isto seria luxo. Aqui é o material com que se faz tudo, porque é o que há.
Repare nas pedreiras quando entrar ou sair da cidade pela estrada certa. As lagoas turquesa que se formam no fundo das pedreiras desativadas são de uma cor irreal, quase tropical, resultado da água da chuva sobre o pó de mármore. Não são piscinas, não são para banhos, e algumas são perigosas e de acesso interdito. Mas como fenómeno visual, dizem mais sobre a identidade desta terra do que qualquer placa explicativa.
Quando ir, e como organizar o tempo
Se só puder vir uma vez, venha entre meados de abril e meados de junho, ou em outubro. A primavera traz os campos verdes e as papoilas, o calor ainda é civilizado, e a luz é perfeita de manhã e ao fim do dia. O verão é para quem aguenta calor a sério e tem um plano de água, que agora já tem. O inverno tem o seu charme melancólico e a vantagem de uma mesa farta de inverno alentejano, mas leve casaco, porque o Alentejo de noite em janeiro é mais frio do que se espera.
O sábado é dia de mercado e portanto dia de multidão. Se quiser o mercado, chegue cedo e saia para almoçar fora do centro. Se quiser a cidade calma, venha ao domingo ou a meio da semana, conte com algumas casas fechadas, e ganhe em troca uma Estremoz que parece pertencer-lhe.
Como base, Estremoz funciona bem para explorar o nordeste alentejano. Está a curta distância de Évora, de Vila Viçosa com o seu paço ducal, de Borba e dos seus vinhos. E está suficientemente perto de Portalegre e da Serra de São Mamede para uma escapadela de um dia. Se for por esse lado, vale a pena ler antes o guia Portalegre Sem Armadilhas: Um Fim de Semana Real, perceber que bairros valem a caminhada com Portalegre a Pé, e saber de antemão onde comem realmente os locais antes de cair em qualquer ementa turística. Portalegre e Estremoz fazem um par natural: duas cidades alentejanas que recompensam quem fica para a segunda noite.
O que levar daqui
Estremoz não se entrega no sábado de manhã. Entrega-se ao domingo à tarde, quando o mercado já desmontou e ficam as figureiras a pintar barro, as piscinas cheias de gente da terra, as praias fluviais à sombra e os campos prontos para serem pedalados. É uma cidade que premeia a paciência e castiga a pressa. Fique a noite extra, salte para a água numa praia de rio onde ninguém aponta a câmara, e perceberá que o melhor de Estremoz é precisamente aquilo que os autocarros não param para ver.