Monsaraz Sem Filtros: Um Fim de Semana Real
Monsaraz merece mais do que quinze minutos e uma foto na muralha. Um cromeleque com 7000 anos que quase ninguém visita, a primeira Reserva Dark Sky do mundo, e uma praia fluvial onde o Alentejo parece impossível.
Vou ser directo: Monsaraz tem um problema. É tão fotogénica que se tornou cenário. Nos meses de Verão, a Rua Direita enche-se de gente que sobe, tira a foto na muralha com o Alqueva ao fundo, compra um íman e desce. É uma pena, porque a vila merece mais do que quinze minutos. E o que está à volta merece bastante mais do que ser ignorado.
Este guia é para quem quer ficar. Dois dias, sem pressa, com a certeza de que vai encontrar coisas que nenhum autocarro de excursão consegue mostrar.
Sexta à Noite: Chegar e Não Fazer Nada
O melhor conselho que posso dar é este: chegue ao fim da tarde. O Alentejo de dia é calor e planície. O Alentejo ao pôr do sol é outra coisa. Entre na vila pela Porta da Alcoba, que quase ninguém usa, e caminhe até às muralhas do castelo. Lá em baixo, o Lago Alqueva fica cor de cobre. São cinco minutos a pé, zero turistas, e provavelmente o melhor pôr do sol que vai ver em Portugal sem pagar bilhete.
Para jantar, não entre no primeiro restaurante que vir na Rua Direita. A maioria serve comida aceitável a preços inflacionados. A Sabores de Monsaraz, dentro das muralhas, trabalha com produtos locais e porções sérias. Se preferir sair da vila, a zona de Telheiro e Barrada tem tascas com migas de espargos e ensopado de borrego que valem o desvio. Peça sempre o vinho da casa: estamos na região do Alentejo, e até o mais simples costuma ser honesto.
Sábado de Manhã: Pedras com 7000 Anos
Esqueça a Rua Direita por agora. Antes do calor apertar, vá até ao Cromeleque do Xerez. Fica a poucos quilómetros da vila, num terreno aberto junto ao lago, e é um dos monumentos megalíticos mais importantes da Península Ibérica. Um círculo de menires com cerca de 7000 anos, anterior a Stonehenge, e que quase ninguém visita. Na maioria das manhãs, vai estar sozinho com as pedras e os grilos.
O acesso é por estrada de terra batida, mas qualquer carro faz o caminho. Não há bilheteira, não há loja de souvenirs, não há café. Leve água. É exactamente esse despojamento que faz do sítio algo especial: não há mediação entre si e uma coisa que alguém construiu há sete milénios. A visita demora trinta a quarenta minutos, dependendo de quanto tempo quiser ficar a olhar para o horizonte.
Ainda na zona, vale a pena passar pelo Parque Megafauna Monsaraz. É um projecto curioso: esculturas em tamanho real de animais pré-históricos que habitaram esta região, espalhadas por um percurso ao ar livre junto ao lago. Funciona especialmente bem com crianças, mas mesmo sem elas há qualquer coisa de surreal em encontrar um mamute de metal numa planície alentejana. A entrada é gratuita.
Sábado à Tarde: Lago e Silêncio
Depois do almoço (não ignore as açordas alentejanas, especialmente a de alho com ovo escalfado por cima, que é uma das grandes invenções da cozinha portuguesa), desça até ao Parque de Merendas da Praia Fluvial de Monsaraz. A praia fluvial do Alqueva é daqueles sítios que parecem impossíveis no Alentejo: água doce, sombra de árvores, mesas de piquenique, e uma tranquilidade que os resorts algarvios vendem a 200 euros a noite mas não conseguem entregar.
Leve fruta, queijo e pão. Uma garrafa de vinho, se estiver de férias a sério. A zona de merendas é bem mantida e nos dias de semana está praticamente vazia. Ao fim de semana pode ter mais gente, mas nunca ao ponto de incomodar. A água do lago é surpreendentemente limpa e a descida é suave. Confirme localmente as condições de banho, que variam com a estação.
A tarde no Alqueva é lenta por natureza. Não lute contra isso. Leia, durma, nade. A grande tentação é querer fazer mais coisas. Resista.
Sábado à Noite: O Céu de Monsaraz
Aqui está o argumento decisivo para ficar uma noite em Monsaraz: o céu. A região do Alqueva foi a primeira Reserva Dark Sky do mundo, certificada pela UNESCO, e a diferença nota-se a olho nu. Se viver em Lisboa ou no Porto, prepare-se: vai ver estrelas que não sabia que existiam.
Há duas formas de aproveitar isto. A mais independente é simplesmente sair das muralhas depois do jantar, afastar-se das poucas luzes da vila, e olhar para cima. Sem telescópio, sem guia, sem programa. Já vale a pena.
A mais estruturada é reservar uma sessão de observação de estrelas na Reserva Dark Sky, com telescópios e explicação. Ou, para quem quer ir mais longe, a observação astronómica no Observatório do Lago Alqueva é uma experiência à parte: equipamento profissional, guias que sabem do que falam, e uma localização isolada que minimiza a poluição luminosa. Reserve com antecedência, especialmente nos meses de Verão.
Domingo de Manhã: A Vila, Finalmente
Agora sim, a Rua Direita. Mas com uma condição: vá cedo. Às nove da manhã, a vila é sua. As lojas ainda estão fechadas, os autocarros ainda não chegaram, e a luz rasante faz as paredes caiadas brilhar de forma diferente. O Castelo de Monsaraz, no topo, é de acesso livre e oferece uma vista de 360 graus sobre o lago e a planície. Dentro do recinto, a antiga arena de touros (uma das poucas com formato quadrangular em Portugal) merece atenção.
A Igreja Matriz, na Rua Direita, tem um interior simples mas elegante. A Ermida de São Bento, mais abaixo, passa despercebida à maioria. Ambas são gratuitas.
Passe pela Galeria São Lourenço se estiver aberta. É uma das mais antigas galerias de arte contemporânea no Alentejo e expõe artistas portugueses e internacionais num espaço pequeno mas bem curado.
Onde Ficar
Dentro das muralhas há alojamento local de qualidade variável. A vantagem é acordar na vila; a desvantagem é que os preços reflectem a localização. Fora das muralhas, na zona de Telheiro e junto ao lago, há montes alentejanos reconvertidos que oferecem mais espaço, piscina e silêncio por preços semelhantes ou inferiores. Uma noite em quarto duplo varia entre 70 e 150 euros, dependendo da época e do tipo de alojamento. Reserve directamente sempre que possível.
Como Chegar e Quanto Custa
Monsaraz fica a cerca de duas horas de Lisboa pela A6 e A2. Não há transporte público prático, por isso carro próprio ou alugado é quase obrigatório. O estacionamento fora das muralhas é gratuito e nunca vi lotado fora de Agosto.
Orçamento para o fim de semana, para duas pessoas: alojamento (uma noite, 80-130€), refeições (três a quatro, 60-100€ total), observação astronómica (20-30€ por pessoa), combustível desde Lisboa (ida e volta, 30-40€). Total estimado: 200 a 350 euros. Para o que se recebe, é uma das melhores relações qualidade-preço no país.
E Depois de Monsaraz?
Se este formato de fim de semana real lhe agradou, o mesmo princípio funciona noutras vilas do interior. Fizemos um exercício semelhante em Portalegre, que é maior, mais urbana e igualmente ignorada pelos roteiros convencionais. Se preferir algo mais compacto, o guia sobre os bairros de Portalegre a pé dá para uma tarde inteira. E para comer a sério no Alto Alentejo, o guia gastronómico de Portalegre é provavelmente o mais útil que temos.
Monsaraz não precisa de adjectivos grandiosos. Precisa de tempo. Um fim de semana chega.