Monchique: O Calendário de Festas e Romarias da Serra
Monchique tem dois calendários: o oficial e o que se sussurra entre cervejas no Bar Travessa. Da Feira dos Enchidos em abril ao Magusto em novembro, este é o ano festivo da serra explicado por quem o vive, sem cartazes nem floreados.
Há uma coisa que ninguém te conta sobre Monchique até ser tarde demais: a vila tem dois calendários. Há o calendário oficial, com datas redondas e cartazes pendurados nos cafés do Largo dos Chorões. E há o outro, o que os locais murmuram entre cervejas, o que decide se vais apanhar a procissão certa, o medronho a sair do alambique no momento exato, ou se vais chegar uma semana antes e perder tudo. Este guia é sobre o segundo calendário.
Monchique não é o Algarve dos roteiros. Está a 458 metros de altitude, tem ar fresco em agosto, e o seu ano cultural não obedece ao ritmo da praia. Aqui as festas seguem o castanheiro, o medronho, o porco preto da serra e o santo do dia. Se vieres em julho à espera de DJ sets ao pôr do sol, vais para o lado errado da serra. Se vieres em outubro à procura de um almoço de javali com castanhas e três avós a discutir a colheita, chegaste a casa.
Janeiro a março: o silêncio antes da serra acordar
O inverno em Monchique é uma coisa séria. Chove. Chove muito. As nuvens descem até à Fóia e ficam lá agarradas como se tivessem alugado quarto. É a pior altura para vir se procuras festas, e a melhor se queres a vila para ti.
O grande momento desta estação é o Carnaval, normalmente em fevereiro. Esquece o Brasil. Esquece Torres Vedras. O carnaval de Monchique é pequeno, com gente da terra fantasiada de coisas absurdas, miúdos a partir confettis nas montras, e um cortejo curto que termina invariavelmente no Bar Travessa a meio da tarde. Não é Instagram. É melhor que isso.
Em março, a serra começa a despertar. As mimosas explodem em amarelo nas encostas (sim, são uma praga, mas ninguém resiste à fotografia) e o programa cultural começa a ganhar peso. Confirma localmente as datas das primeiras feiras de produtores, normalmente associadas ao Dia do Pai ou ao equinócio.
Abril e maio: a Festa dos Enchidos e a temporada começa a sério
Aqui é onde Monchique te apanha desprevenido. A Feira dos Enchidos Tradicionais da Serra de Monchique acontece tipicamente em março ou abril, no recinto da feira. Não é uma festa de turistas, é o evento gastronómico mais importante do calendário local. Vens cá, comes morcela, paio, presunto da serra, bebes medronho, ouves um grupo coral alentejano (sim, alentejano: a fronteira cultural é mais permeável do que a geografia sugere), e percebes porque é que esta gente fala da matança como outros falam de futebol.
Conselho prático: vai num sábado, ao almoço. Os domingos enchem com gente do Porto e de Lisboa que vêm de carro, comem mal e vão embora cedo. Ao sábado, encontras os produtores ainda dispostos a explicar-te a diferença entre um chouriço de carne e um chouriço de sangue. Reserva uma noite, dorme em Monchique, e na segunda-feira vai almoçar tarde ao Snack Bar Retiro da Bola, onde a sopa do dia te custa menos do que um café em Lisboa e o prato principal vem como deve vir: sem cerimónia.
Em maio, há a Festa de Nossa Senhora do Desterro, ligada ao convento em ruínas que dá nome à zona. É uma romaria pequena, com missa, procissão e arraial. Não há programação cultural sofisticada. Há vinho da casa, há sardinha quando é altura, e há uma noite em que metade da vila vai à missa porque sim, e a outra metade fica no café.
Junho: o mês dos santos populares (à maneira da serra)
Sim, há Santos Populares em Monchique. Não, não é Lisboa. Não há sardinhada em massa nem manjerico nas avenidas. O que há são pequenos arraiais de bairro, fogueiras de São João onde ainda se salta por cima sem ironia, e jantares improvisados em ruas estreitas onde a vizinhança põe mesa fora.
O São Pedro, a 29 de junho, é o santo dos pescadores. Aqui em Monchique, a cento e tal metros do mar, faz menos sentido, mas a tradição mantém-se nas freguesias do concelho. Em Alferce, especialmente, o São Pedro é levado a sério. Se quiseres juntar isto a uma experiência mais imersiva, vale a pena combinar com a aula de culinária em Alferce onde se amassa pão à moda antiga: ficas a perceber que a relação destas pessoas com o forno a lenha não é folclore, é infraestrutura.
Junho também é o mês em que o calor começa a ser sério. Quem vier de fora apercebe-se de que Monchique a 35°C é uma bênção comparada com Lagos a 35°C. A 458 metros, ainda há sombra fresca, ainda há corrente de ar, ainda se consegue dormir.
Julho e agosto: a festa grande e os concertos
O grande evento do verão é a Festa em Honra de Nossa Senhora do Desterro ou, dependendo do ano, a feira de verão. Há música, há pequenos concertos, há barraquinhas com farturas, há tasquinhas das associações locais a venderem pratos por preços que ainda fazem sentido (verifica localmente, mas conta com 8 a 12 euros por dose generosa de carne).
É também a altura das Noites de Verão, programa cultural municipal que costuma incluir cinema ao ar livre, concertos no Largo dos Chorões e sessões de fado. A qualidade varia. Há anos em que o cartaz é uma raridade, com músicos algarvios que merecem mais atenção do que têm. Há anos em que parece preenchido a custo. Pergunta no café. Os locais sabem distinguir.
Conselho contraintuitivo: se em agosto sentires que precisas de mar, não vás à praia mais próxima (Portimão, Carvoeiro, Lagos: cheias). Conduz uma hora até à costa oeste e vai à Arrifana. Aliás, se ficares uma semana em Monchique, este é o desvio mais inteligente que podes fazer. A costa atlântica em Aljezur é tudo o que o Algarve do sul deixou de ser. Para tornar a coisa mais séria, podes tentar o surf na Praia da Arrifana com aulas para quem fica em Monchique: uma manhã na água, almoço de polvo numa tasca, regresso à serra ao fim da tarde, e ainda chegas a tempo de um arraial.
Setembro e outubro: o medronho e o porco
É aqui, e não no verão, que Monchique mostra a sua melhor cara. As temperaturas descem para os vinte e tais, há luz dourada às cinco da tarde, e o calendário enche-se de festas ligadas à colheita.
O medronho é colhido em outubro e novembro. Os alambiques começam a trabalhar e o cheiro toma conta de algumas zonas do concelho. A Feira do Medronho ou eventos similares costumam acontecer no outono e celebram a aguardente que define a região. Provar medronho artesanal autêntico, fora do balcão de uma loja, é uma experiência diferente do que sair com uma garrafa de aeroporto. Aproveita.
Outubro é também o início da caça e, com isso, a temporada de javali, lebre, perdiz. Os restaurantes de Monchique e arredores começam a meter pratos sazonais nas ementas. Não esperes que esteja escrito no quadro: pergunta. "Há javali esta semana?" é a pergunta certa.
Novembro: a Festa do Castanheiro e o porco preto
O grande evento gastronómico de outono é a Feira da Castanha ou Magusto Concelhio, normalmente perto do São Martinho (11 de novembro). Aqui partilha-se castanha assada com vinho novo (água-pé ou jeropiga, dependendo de quem te serve), aprende-se que há mais variedades de castanha do que pensavas, e percebe-se que a serra ainda vive parcialmente da sua produção florestal.
A castanha de Monchique tem denominação e é levada a sério. Os preços de mercado variam entre 4 e 7 euros por quilo, dependendo do calibre e da época. Se vieres a um magusto, leva casaco. A 458 metros, em novembro, à noite, sem fogueira por perto, vais arrepender-te de ter vindo de t-shirt.
É também a altura ideal para entender o ritmo doméstico da serra. As matanças particulares ainda acontecem (com regulamentação, mas acontecem), e os enchidos que vais comer na feira de março começam aqui, em novembros frios. Se quiseres aprofundar a relação entre cultura local e gastronomia algarvia mais a leste, vale a pena ler sobre a cultura local em Faro e as tradições do Algarve autêntico: percebes melhor as diferenças entre o Algarve da serra e o Algarve da costa, que são quase dois países.
Dezembro: o Natal pequeno e os presépios
O Natal em Monchique é íntimo. Há iluminação modesta no centro, há concertos de Natal nas igrejas e capelas das freguesias, há um ou outro mercado de Natal pequeno onde se vende mel, queijo, doçaria conventual e enchidos. Não é Estrasburgo. É melhor: é silencioso.
A missa do galo ainda enche a Igreja Matriz e há quem vá lá só para sair depois para o café. O dia 25 é dia de família, e a vila fecha-se. O dia 26, abre tudo, e os restaurantes oferecem menus especiais com bacalhau, polvo, e os doces conventuais (D. Rodrigos, morgados) que merecem uma viagem só por eles.
O que ninguém te diz
Primeiro: muitas das festas de Monchique acontecem nas freguesias (Marmelete, Alferce) e não na vila. Se ficares só na vila, perdes metade. Aluga carro, ou pelo menos pergunta no turismo onde está a festa real desta semana.
Segundo: as datas mudam. As festas religiosas seguem o calendário litúrgico, mas as feiras civis dependem de orçamentos municipais e disponibilidade de produtores. "Costuma ser em abril" pode significar abril deste ano, ou maio do próximo. Confirma sempre.
Terceiro: Monchique funciona muito bem como base para explorar o resto do Algarve durante o dia, voltando para a serra para dormir e jantar. Se viajas com miúdos e queres dias mais leves, vale o desvio até Silves: já temos um guia honesto sobre Silves com crianças, sem filtros. Lagos também merece um dia, especialmente se gostas de cidades com bairros distintos: o guia de bairros de Lagos ajuda-te a evitar as armadilhas de turistas e a ir aos sítios certos.
Resumo prático
- Melhor altura para festas gastronómicas: março/abril (enchidos) e novembro (castanha, magusto)
- Melhor altura para festas religiosas pequenas: maio (Desterro) e junho (santos populares nas freguesias)
- Melhor altura para concertos e cultura ao ar livre: julho e agosto
- Pior altura se procuras festa: janeiro e fevereiro (mas ótima para silêncio)
- Custo médio de uma noite de festa popular: 15 a 25 euros por pessoa, com comida e bebida
- Dormir: reserva com antecedência se vieres em fim de semana de feira; a oferta é limitada
Monchique não te pede nada. Não tem programa para te entreter. Tem um calendário próprio, escrito em ardósia no balcão dos cafés, e cabe-te a ti decifrá-lo. Faz isso, e a serra paga-te bem.