Monchique e o Mar: Surf, Ondas e Fuga à Serra
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Monchique e o Mar: Surf, Ondas e Fuga à Serra

· · Monchique

Monchique não tem mar, mas tem algo melhor: 458 metros de altitude e a Costa Vicentina a vinte e cinco minutos. Como surfar a partir da serra, onde tomar pequeno-almoço antes de descer, e porque é que esta é a melhor base do Algarve para quem ama as ondas.

Vamos esclarecer uma coisa logo de início: Monchique não tem mar. Não tem praia, não tem ondas, não tem cheiro a maresia. Está a 458 metros de altitude, no meio de uma serra, e a água que aqui corre vem das nascentes da Caldas, não do Atlântico. Então porque é que estás a ler um artigo sobre surf em Monchique?

Porque é precisamente esta a vantagem injusta de Monchique. A vinte e poucos minutos de carro, dependendo da estrada que escolheres, tens acesso ao melhor surf do Algarve, talvez do país. E à noite voltas para a serra, onde a temperatura desce uns bons graus, onde os mosquitos da costa não chegam, e onde podes dormir com a janela aberta e ouvir só corujas.

É um esquema. Um esquema brilhante que os surfistas mais experientes da Costa Vicentina conhecem há décadas e que os turistas ainda não perceberam. Este artigo é sobre como tirar partido dele.

O mapa: três costas, uma serra

De Monchique tens três opções claras, e elas mudam tudo consoante o vento e a tua disposição.

A oeste, descendo pela 267 até Aljezur e depois cortando para o mar, chegas à Costa Vicentina propriamente dita. Arrifana, Amoreira, Monte Clérigo, Bordeira. Trinta e cinco a cinquenta minutos, conforme o destino. É a costa selvagem, virada a oeste, onde o swell do Atlântico bate sem filtro. Ondas grandes, fundos de areia, falésias dramáticas. Pouca gente compreende ainda que é mais rápido vir de Monchique do que ficar entalado no trânsito de Lagos no verão.

A sul, descendo pela 266 até Portimão e seguindo para Sagres, tens a Praia do Tonel, a Praia do Beliche, e mais para leste, perto de Lagos, a Praia da Luz e a Meia Praia. Cerca de uma hora. Esta costa é mais protegida, vira-se mais a sul, e quando o vento norte sopra forte (acontece muito na primavera) e a Costa Vicentina está incomível, é aqui que se vai surfar.

A leste-sul, mais perto, há praias entre Portimão e Albufeira que servem para quem está a aprender e quer mar manso. Mas se vieste até Monchique, não foi para isto. Esquece.

A escolha óbvia: Arrifana

Se só tens um dia, vai a Arrifana. É a praia que melhor combina acessibilidade, beleza, qualidade de onda e infraestrutura para quem está a aprender. Tem direita longa, fundo de areia, e pode ser surfada em quase todas as marés se souberes ler o spot.

O nosso conselho: se não tens prancha, ou se nunca surfaste, marca uma aula de surf na Arrifana pensada para quem fica em Monchique. Não é a única escola da praia, mas é a que melhor entende o ritmo de quem está hospedado na serra: horários adaptados, transporte negociável, instrutores que sabem que tu não dormiste na areia.

O que esperar de uma manhã em Arrifana: chegada por volta das oito e meia, briefing na areia, alongamentos, prancha de espuma, leash apertado. Os primeiros quarenta minutos são na zona da rebentação onde a água nunca passa do peito. Aulas de iniciação rondam tipicamente os 35 a 45 euros pelo pacote completo (prancha, fato, instrutor), mas confirma localmente. Se já és intermédio, aluga só o equipamento e paga menos de metade.

A maré certa para principiantes é a meia-maré a subir. Marés muito vazias deixam o fundo perigoso e marés muito cheias matam a onda contra a falésia. Pergunta sempre antes de entrar.

O ritual antes do mar

Há uma regra não escrita entre os surfistas que ficam em Monchique: pequeno-almoço sempre antes de descer. Não há nada mais perigoso do que entrar no mar com fome às nove da manhã, ainda mais com o frio inicial da Atlântica.

Recomendamos parar no Snack Bar Retiro da Bola antes de pegar na 267. É um daqueles sítios sem pretensão, frequentado mais por locais do que por turistas, onde se serve café decente, torradas com manteiga e, se pedires com tempo, ovos mexidos. Não é gastronomia, é combustível. E é exatamente isso que precisas antes de duas horas a apanhar pranchada.

O paradoxo da água

Aviso para quem nunca surfou no Atlântico português: a água é fria. Mesmo em agosto. A corrente fria de Canárias passa aqui ao largo, e a temperatura raramente sobe acima dos 19 graus. Em abril e maio, anda pelos 15. Em fevereiro, pelos 13.

Tradução prática: precisas de fato. De inverno, 4/3 com botas. De verão, 3/2 chega. Se a escola não fornecer, o aluguer ronda os 8 a 12 euros por dia, mas confirma localmente. Não tentes ser o herói que entra de calção em maio. Sai-se hipotérmico em vinte minutos.

O lado bom desta água fria é que mantém o mar limpo, transparente, e raramente há algas. Surfas com peixes a passar por baixo da prancha, e em dias bons vês o fundo a três metros.

Para quem só quer ver

Nem toda a gente vai à costa para entrar na água. Há uma categoria respeitável de visitantes que vêm para olhar, e Monchique é uma base perfeita para isso.

O miradouro da Arrifana, a norte da praia, é um dos melhores pontos do país para ver o mar. Em dias de swell grande, com ondas de quatro metros a rebentar contra os ilhéus, o espetáculo é hipnótico. Leva binóculos. E uma manta. O vento ali em cima é traiçoeiro mesmo em julho.

Outra opção menos óbvia: descer ao Cabo de São Vicente ao final da tarde. Sim, faz parte do circuito turístico, sim, vai estar gente, mas o pôr do sol no ponto mais sudoeste da Europa continental tem um peso geográfico que não se finge. E voltar para Monchique pela serra, com o sol já a desaparecer atrás das cumeadas, é o tipo de regresso que justifica o dia inteiro.

O outro lado: quando o mar não está

Há dias em que o mar simplesmente não dá. Vento sul forte, swell zero, neblina. Acontece. E é aqui que a estratégia Monchique se prova superior a qualquer alojamento na costa.

Em vez de bateres com a cabeça contra um mar morto, vais para a serra. Caminhas até à Picota ou à Fóia. Vais às Caldas tomar banho nas piscinas termais. Ou aproveitas para fazer uma aula de culinária em Alferce a amassar pão, que é provavelmente a melhor maneira de passar uma manhã sem mar que existe nestas serras. É o tipo de plano B que só Monchique consegue oferecer: nenhum sítio costeiro tem isto a quinze minutos.

O que fazer com as crianças

Se vens em família, a equação muda. Os mais novos não aguentam três horas de carro de ida e volta para uma sessão de surf. Mas há um meio-termo viável.

A Praia da Amoreira, em Aljezur, tem uma ribeira que corre para o mar e cria piscinas naturais de água quase doce. Os miúdos brincam ali horas. Os adultos vão ao mar. Sai-se ao final da manhã, almoça-se em Aljezur, volta-se para Monchique antes do calor pico.

Se queres explorar mais a região com família, o nosso guia honesto de Silves com crianças tem ideias para os dias em que o mar está fora de questão. Silves está a apenas vinte e cinco minutos de Monchique, é cidade medieval, tem castelo, e é menos bombástica do que as praias.

O regresso à serra: o jantar e a cerveja

Uma das melhores coisas de surfar a partir de Monchique é o regresso. Voltas exausto, com sal seco no cabelo, com aquela fome de quem queimou três mil calorias em duas horas de remada. Subes a serra. O ar muda. A cinco quilómetros de Monchique, abres a janela e cheira a eucalipto e medronheiro. É um decantador entre dois mundos.

Para a cerveja pós-surf, o Bar Travessa é a escolha óbvia. Está no centro, tem esplanada, e a clientela mistura locais de Monchique com gente que veio das praias e está com ar de quem precisa de uma cerveja muito fria, muito depressa. Pede uma imperial, deixa-te ficar. A noite na serra começa cedo e acaba ainda mais cedo, e isso é uma virtude.

Quanto a jantar, evita os restaurantes na rua principal que têm ementas em quatro línguas: estão à espera de turistas e cobram em conformidade. Pergunta no Bar Travessa onde se come bem naquele dia. Em Monchique, o jantar bom é o do dia em que o cozinheiro está disposto, e isso muda.

A logística honesta

Algumas verdades que ninguém te diz:

  • A 267 entre Monchique e Aljezur é estreita, sinuosa e tem motociclistas suicidas. Conduz com paciência. Vinte e cinco minutos é tempo realista, não vinte.
  • Estacionamento na Arrifana em julho e agosto é guerra. Chega antes das nove ou depois das cinco. Caso contrário, deixas o carro a quinhentos metros e desces a pé.
  • O Wi-Fi nas praias é inexistente. Aplicações de previsão de ondas (Windguru, Magicseaweed) usa-as antes de sair de Monchique. Vais surfar com o que sabias às oito da manhã, não às onze.
  • O combustível em Monchique é mais caro do que em Portimão ou Aljezur. Atesta em baixo se possível.
  • Se ficares mais do que três dias, considera alugar uma prancha em Aljezur por semana em vez de pagar diárias. Sai mais barato e o aluguer pode ficar dentro do carro.

Quando vir

A época de ouro para combinar Monchique e surf é entre maio e meados de junho, e depois entre setembro e meados de outubro. Tens swell consistente, ar morno na serra, água ainda surfável (com fato), e poucos turistas a competir por ondas e estacionamento.

Julho e agosto são caóticos: praias cheias, line-ups com cinquenta pessoas, calor que sufoca mesmo na serra. Se vieres nesta altura, surfa só ao nascer do sol e usa o resto do dia para a serra ou para escapar para o interior.

Inverno é para os corajosos: ondas enormes, mar muitas vezes intransitável, frio. Mas há janelas de três ou quatro dias entre tempestades em que a Costa Vicentina entrega o melhor surf da Europa, e os locais sabem-no.

O contexto maior

Surfar a partir de Monchique é uma forma deliberada de ler o Algarve ao contrário. Em vez de te plantares numa praia e nunca saíres dela, ficas em altura e mergulhas no mar. Em vez de comeres marisco às colheradas todos os dias, alternas entre cozinha de serra (porco preto, medronho, cataplanas no interior) e peixe da costa.

É também a melhor maneira de conhecer o Algarve verdadeiro, esse que existe para lá da fila de hotéis. Para isso, vale a pena complementar o teu surf com viagens curtas a outras vilas: o nosso guia da cultura local em Faro abre o lado oriental, mais urbano e tradicional; e o guia dos bairros de Lagos é útil para quem quer dois dias de cidade no meio da fartura de praias.

Mas a estratégia central, a que vale mesmo a pena, é esta: dorme na serra, surfa no mar. Acorda com nevoeiro, deita-te com estrelas. E quando alguém te perguntar onde foste de férias, diz Monchique, e fica calado o suficiente para que eles não percebam o segredo.

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