Monchique do Alto: Miradouros e a Hora Certa da Luz
Há vinte minutos antes do nascer do sol, no alto da Fóia, em que se vê o mar de Sagres a Vilamoura num único enquadramento. Um guia honesto sobre os miradouros de Monchique e a hora exata em que cada um vale a pena.
Há uma hora, em Monchique, que muda tudo. Não é o nascer do sol, apesar do que dizem os manuais de fotografia. É os vinte minutos antes, quando a serra ainda está azul-cinzenta e o nevoeiro do Atlântico se enrola pelas encostas como se alguém tivesse esquecido o lume aceso lá em baixo, em Portimão. A esta hora, do alto da Fóia, vê-se o mar de Sagres a Vilamoura num único enquadramento. Depois o sol levanta-se, a luz fica branca, dura, e a fotografia já não presta. É por isso que vale a pena estabelecer hora marcada com a serra. Esta não é uma cidade que se visite a meio da tarde de chinelos.
Vou ser direto: Monchique tem dois miradouros que toda a gente conhece e meia dúzia que ninguém referencia. Os primeiros valem a pena se souber a que horas aparecer. Os segundos valem a pena sempre. Neste guia digo-lhe quais são, a que horas a luz cai bem em cada um, e onde comer e beber a meio do percurso sem cair em armadilhas para turistas.
A Fóia: o cliché que ainda funciona, se cumprir o horário
902 metros. É o ponto mais alto do Algarve e, num dia limpo, vê-se desde o Cabo de São Vicente até à Ria Formosa. Está cheio de antenas, há um restaurante panorâmico, e a meio da manhã enchem-se autocarros de gente em t-shirts a tirar a mesma fotografia. Pode ser desanimador. Não vá a meio da manhã.
A Fóia é um sítio para duas horas do dia: muito cedo (digamos, das 6h45 às 8h00 no verão, das 7h30 às 8h45 no inverno) e na última meia hora antes do pôr do sol. De manhã apanha aquela camada de nuvens baixas a entrar do mar, e a serra parece flutuar. Ao fim da tarde, com o sol nas costas, os tons de Portimão e Lagos no horizonte ficam cor de pêssego durante uns dez minutos exatos. Confirme a previsão de nevoeiro antes de subir, é o factor que decide tudo.
Detalhe prático: a estrada é a M267 a partir do centro, são oito quilómetros de subida sinuosa. Há parque de estacionamento gratuito junto à esplanada. Não há transportes públicos a horários decentes para a Fóia, é táxi ou carro próprio. E o vento corta. Mesmo em julho, leve um casaco. Já vi gente a tremer de manga curta em pleno agosto.
Onde se posicionar
- Para o pôr do sol: não fique junto às antenas. Caminhe duzentos metros para oeste, onde há um pequeno trilho que desce para um afloramento rochoso. Ali tem o sol no enquadramento certo, sem cabos elétricos a estragar a fotografia.
- Para a alvorada: fique no lado este da esplanada principal. O sol nasce por trás de Picota e a luz lateral desenha as cristas da serra com uma definição que justifica a viagem.
- Para dias enevoados: não desista, suba na mesma. Acima dos 750 metros costuma estar acima da nuvem, e o efeito de mar de nuvens é, sem exagero, o melhor que se vê em Portugal continental.
Picota: o miradouro que os algarvios guardam para si
Se a Fóia é o pico oficial, a Picota é o pico secreto. 774 metros, sem antenas, sem restaurante, sem autocarros. Acede-se a pé, por um trilho marcado de cerca de três quilómetros desde a estrada secundária que sobe a partir de Casas Velhas. Demora hora e meia ida e volta, com algum esforço.
Aqui a luz boa é diferente. A Picota olha mais para nascente, para o interior do Algarve, e portanto a hora gloriosa é o nascer do sol propriamente dito, não o instante anterior. Quando o sol sai por cima de Silves, a serra inteira fica laranja durante uns oito minutos. Leve uma frontal para a subida no escuro, leve água, leve sapatos com aderência, as pedras estão cobertas de líquen e escorregam.
Se for em maio, vai apanhar os medronheiros em flor e os rododendros selvagens, que crescem aqui em maior densidade do que em qualquer outro ponto do sul do país. É também a melhor altura para ver os grifos a planar. Nunca tinha visto grifos no Algarve antes de subir a Picota.
Os miradouros menores que ninguém referencia
O cruzeiro acima do convento
A meio da subida da Fóia, há um desvio à direita para o antigo Convento de Nossa Senhora do Desterro. As ruínas do convento, sozinhas, já merecem a paragem. Mas suba mais cinquenta metros, até ao cruzeiro de pedra que está num pequeno planalto. Daqui tem o casario de Monchique enquadrado pelo verde da serra, com Picota como pano de fundo. À hora dourada da tarde, quando o sol bate de lado, as fachadas brancas ganham um tom amarelo manteiga que não se vê de mais lado nenhum. Cinco minutos de paragem, máximo. Não há ninguém. É de graça.
O caminho velho para Alferce
Da estrada N267, sai uma estrada secundária para Alferce, a leste. Nos primeiros três quilómetros há quatro ou cinco curvas com vista aberta sobre o vale do Odelouca. Pare na terceira curva depois da bifurcação (há um pequeno espaço de terra à direita). Ao amanhecer, o vale enche-se de neblina e os topos das colinas aparecem como ilhas. Ao fim do dia, o sol põe-se exatamente no centro do enquadramento, com as silhuetas dos sobreiros recortadas a contraluz.
Já que está em Alferce, vale a pena ficar para a manhã seguinte. Há uma aula de culinária em Alferce onde se amassa pão num forno comunitário a lenha que ainda funciona como há cem anos. É a coisa mais autêntica que pode fazer nesta serra, e dá uma boa história para acompanhar as fotografias do amanhecer.
O depósito de água acima da vila
Soa pouco romântico. Eu sei. Mas suba pela Rua do Rio até ao depósito municipal de água (basta seguir as placas para o reservatório). Há um pequeno terreiro com uma vista direta para a vila, com a torre da igreja matriz no centro do enquadramento e a serra atrás. Ao final da tarde, as luzes acendem-se uma a uma e tem aquele momento de transição entre o azul da hora azul e o amarelo das janelas. Trinta minutos. Tripé útil, mas não obrigatório se o telemóvel tiver modo noturno decente.
Onde recarregar entre fotografias
Subir a Picota antes do nascer do sol e descer a Fóia ao pôr do sol no mesmo dia é um plano para almoços decentes e jantares ainda melhores. Atenção a uma coisa: Monchique não é um destino gastronómico de chef, é um destino de cozinha de serra. Quem espera tartares e espumas vai ficar mal disposto. Quem aceita o jogo, come muito bem.
Para almoço, depois da Picota, vá ao Snack Bar Retiro da Bola. Não se deixe enganar pelo nome de snack bar, é cozinha portuguesa de família, com pratos do dia escritos a giz. Peça o que estiver em quadro nesse dia, é sempre o mais fresco. As doses são generosas, os preços continuam decentes, e a clientela é maioritariamente local, o que para mim é sempre o melhor termómetro.
Ao fim do dia, depois de descer da Fóia com as pernas mortas, há um sítio onde se senta com uma medronho e ninguém lhe pergunta de onde é. O Bar Travessa é exatamente isso: o bar de bairro de Monchique. Pequeno, sem pretensões, com o aguardente de medronho que a serra produz há séculos. Peça medronho local (não o industrial), prove a um euro e tal, e perceba porque é que esta serra produz aquilo que produz. Se tiver fome leve, há petiscos simples.
Uma nota sobre o medronho: não é só uma bebida turística para tirar fotografias. É um produto agrícola sério, com regulamentação, e os pequenos produtores da serra vivem disto. Comprar uma garrafa boa para levar para casa custa entre quinze e trinta euros e é um souvenir muito mais honesto do que ímanes de frigorífico.
O equipamento que faz diferença (e o que não faz)
Esta secção é para quem leva fotografia minimamente a sério. Quem só quer publicar no Instagram, salte este pedaço.
- Filtro polarizador: obrigatório. A luz no Algarve é dura e o polarizador faz uma diferença enorme nos verdes da serra e no azul do mar ao fundo. Sem ele, perde metade do contraste.
- Tripé: útil para a alvorada e para a hora azul. Não precisa do mais caro, qualquer tripé estável serve. Se for caminhar até à Picota no escuro, leve um pequeno e leve.
- Filtro de densidade neutra graduado: dispensável. A serra raramente tem aquele contraste céu-terra extremo que justifica o filtro. Faça bracketing e resolve em pós-produção.
- Lente grande angular: 16-35mm equivalente é o ideal para os miradouros mais abertos. Mas a 70-200mm faz fotografias melhores das encostas com camadas, especialmente na alvorada nebulosa.
O que não faz diferença: drones. Há regulamentação local que limita os voos em parte da serra, e francamente, as fotografias de drone na Fóia são todas iguais. Confie no enquadramento de pés assentes na rocha.
Itinerário de 36 horas para fotógrafos
Para quem vem de propósito para fotografar, este é o plano que recomendo a amigos.
Dia 1, tarde: chegada a Monchique a meio da tarde. Reconhecimento dos locais, sem pressa de tirar fotografias. Subida ao depósito de água para o pôr do sol. Jantar leve no centro da vila.
Dia 2, alvorada: subida à Picota a pé, partir uma hora antes do nascer do sol. Pequeno-almoço tardio na vila. Manhã livre para as termas (as Caldas de Monchique são separadas da vila, mas valem a pena se quiser pausar dos miradouros).
Dia 2, almoço e tarde: almoço no Snack Bar Retiro da Bola. Tarde a explorar a estrada para Alferce, parando nas curvas com vista. Subida à Fóia para o pôr do sol. Bebida no Bar Travessa.
Dia 3, alvorada: Fóia outra vez (sim, vale a pena, a luz é completamente diferente da Picota). Descida tranquila para fotografar as ruínas do convento à luz da manhã. Saída de Monchique antes do almoço.
Combinar com outros pontos do Algarve
Monchique funciona bem como base de fotografia para a serra, mas combina melhor com outras partes do Algarve do que com o resto do Algarve combina entre si. Se vai estar uma semana inteira na região, sugiro alternar serra e mar.
Para quem quer descer ao mar a partir de Monchique, a costa oeste é a opção interessante. A meia hora de carro está a Costa Vicentina, e há uma opção de aulas de surf na Praia da Arrifana pensada para quem está alojado em Monchique e quer alternar dias de altitude com dias de prancha. As ondas da Arrifana são honestas, há ondulação consistente quase todo o ano, e o contraste entre uma manhã na Picota e uma tarde na água é, fotograficamente, ouro.
Se o seu interesse é mais cultural do que paisagístico, vale a pena cruzar a serra para Faro e perceber a outra face do Algarve. Tenho um guia sobre cultura local em Faro que aponta para os sítios onde a tradição ainda mexe, longe da praia. Para quem vai com família, recomendo também o guia de Silves com crianças, a meia hora de Monchique, que serve de pausa do tipo serra para dias mais calmos. E quem quer um contraste citadino, com peso turístico assumido mas com ainda assim cantos genuínos, encontra no guia de bairros de Lagos a melhor maneira de não cair nas mesmas três ruas que toda a gente fotografa.
Última coisa: a paciência é o equipamento mais importante
Já vi gente subir à Fóia, ficar oito minutos, dizer que não estava o melhor tempo, e descer. Está tudo errado nesta abordagem. A serra não dá fotografias a quem chega e parte. Dá fotografias a quem espera. As nuvens deslocam-se, a luz muda, o vento sopra ou para. Leve um livro, leve um termo de café, leve disposição para ficar duas horas no mesmo sítio.
O melhor enquadramento que já fiz desta serra apareceu quarenta e cinco minutos depois de eu pensar que tinha perdido a viagem. O nevoeiro abriu sem aviso, durante uns noventa segundos, e a serra inteira ficou perfeita. Se eu tivesse ido embora aos vinte minutos, não estaria aqui a contar. Monchique é assim. Recompensa quem fica.