Mercado da Guarda: O Que Comprar, Provar e Evitar
Sábado de manhã, oito da manhã, mercado da cidade mais alta de Portugal. Um guia franco sobre o queijo DOP que vale o investimento, o mel que cristaliza como deve, e as compotas com etiquetas demasiado bonitas que é melhor evitar.
Às sete e meia da manhã, na Praça Luís de Camões, ainda está frio mesmo em Junho. A Guarda fica a 1056 metros de altitude e o termómetro lembra-se disso todos os dias do ano. É a esta hora que começa o ritual: as carrinhas de caixa aberta encostam ao Mercado Municipal, descarregam grades de couves do tamanho de bebés, sacos de batata da Beira ainda com terra agarrada, e queijos embrulhados em papel manteiga que, se forem bons, deixam mancha gordurosa antes de chegarem à banca.
Este artigo é um guia prático e francamente opinativo para fazer uma volta ao mercado da cidade mais alta de Portugal. Vai-lhe dizer o que comprar, o que provar no balcão, e o que ignorar mesmo que a senhora insista. Não é um postal turístico. É a forma como eu faria as compras de sábado se vivesse em Sé.
Onde ir, e a que horas
O Mercado Municipal da Guarda funciona de segunda a sábado de manhã. Sábado é o dia. A partir das nove enche-se de gente local a empurrar carrinhos de feira, e por volta das onze começa a esvaziar porque o melhor já foi. Se quer escolha, vá às oito. Se quer pechinchas, vá às onze e meia, quando os produtores preferem vender barato a levar de volta.
A entrada principal dá para a banca dos hortícolas. Ignore a tentação de virar logo à esquerda para os legumes coloridos arrumados em pirâmides perfeitas. Esses são, na maior parte das vezes, de grossista. Vá ao fundo do mercado, onde estão as senhoras com três caixas de fava, um molho de salsa e um cesto de ovos. É lá que está o que interessa.
O que comprar: a lista curta e honesta
Queijo da Serra DOP
Estamos a sopé da Serra da Estrela, e seria um crime gastronómico passar pela Guarda sem levar um queijo. Mas atenção: nem tudo o que se chama "Queijo da Serra" o é. O verdadeiro Queijo Serra da Estrela DOP é feito com leite cru de ovelha bordaleira ou churra, coalhado com cardo, e tem um selo numerado que parece um postage stamp colado na crosta. Sem selo, é queijo de ovelha, que pode ser excelente, mas não é DOP e não devia custar o mesmo.
Procure o queijo amanteigado, com a crosta cor de palha e a pasta a ceder ao toque. Se a senhora cortar uma fatia e a pasta correr ligeiramente, é o que quer. Custa entre 18 e 28 euros o quilo dependendo da época, mais caro no fim do Inverno quando há menos. Peça meio queijo se for para levar para casa: um queijo inteiro pesa um quilo a um quilo e meio, é demasiado para duas pessoas e não congela bem.
Aceite a prova. Os bons produtores cortam uma esquina e dão-lhe a mascar com pão. Se não oferecerem, peça. Se recusarem, mude de banca.
Cobertor de papa, fora de época
Não no mercado, propriamente, mas vale o desvio: a tradição têxtil desta zona é tão forte como a do queijo. A poucos quilómetros da cidade, em Maçainhas, ainda se tece o cobertor de papa em tear de pedais, uma peça de lã grossa e crua que aquece como nenhum edredão sintético consegue. Se está a passar mais de um dia na região, recomendo vivamente fazer o workshop de tecelagem do cobertor de papa: é mais barato do que comprar um cobertor pronto e leva-se uma peça pequena feita pelas próprias mãos.
Mel da Beira Alta
O mel daqui é escuro, denso, com sabor a urze e rosmaninho. Não é o mel doce e dócil de supermercado. Procure os frascos com etiqueta caseira, sem desenhos a computador, e pergunte sempre de que floração é. "Multifloral" é a resposta honesta para quem mistura. "Urze" ou "rosmaninho" deve ter uma cor e um aroma muito específicos: se cheira a pouco e tem cor uniforme amarela, é mel açucarado. Pergunte se cristaliza no Inverno: deve cristalizar. Mel que nunca cristaliza foi aquecido a alto. Frasco de meio quilo: 5 a 8 euros.
Enchidos: farinheira sim, alheira com cuidado
A farinheira da Beira é seca, esfumada e densa. Boa para grelhar partida ao meio, melhor ainda dentro de uma feijoada. Compre. A alheira da Guarda existe, mas a alheira boa, francamente, é mais a norte, em Mirandela ou Vinhais. Se vir alheira aqui, prove primeiro um pedacinho cru da ponta cortada (a senhora não se vai ofender) e veja se tem aquele sabor a alho e azeite ou se sabe sobretudo a pão. Se sabe a pão, deixe ficar.
O presunto da Beira pode ser muito bom mas é caprichoso. Peça para verem ao corte e cheire a fatia: deve cheirar a frutos secos e a sal limpo. Se cheira a ranço, é presunto velho de mais ou mal curado.
Castanha, no Outono
Se for entre Outubro e Dezembro, leve castanha. Esta é zona de castanha grande, de casca lustrosa, das melhores do país. A 3 ou 4 euros o quilo é um bom negócio. Assa-se com sal grosso e um copo de jeropiga e está-se em casa.
O que provar no balcão
Há três coisas que se devem provar antes de comprar, e que quase ninguém oferece se não pedir.
- Azeite virgem extra: várias bancas têm garrafa aberta. Peça uma colherzinha. Deve picar um pouco na garganta e ser ligeiramente amargo. Se é só doce, é azeite mediano. Se cheira a azeitona fresca, leve.
- Requeijão: feito com soro de queijo da Serra. Come-se com mel ou com doce de abóbora. Provar antes de comprar é obrigatório porque o requeijão da véspera tem sabor azedo. O fresco é doce e leve.
- Pão de centeio com chouriço: não é exactamente uma prova, é uma compra. Há um padeiro que aparece sábado de manhã com pães redondos pesados como tijolos com chouriço cozido lá dentro. Custa cerca de 4 euros e é o melhor pequeno-almoço para comer no carro a caminho de outra paragem.
O que evitar (com afecto, mas com firmeza)
O ginjinha em garrafas decorativas com paisagens da Serra. É xarope. Compre uma garrafa de aguardente velha numa loja a sério se quer levar bebida.
Os "queijos da Serra" embalados a vácuo em supermercado dentro do mercado. Se vai investir em queijo, faça-o no produtor, não na refrigeração industrial.
As azeitonas em barricas plásticas perto da entrada. Quase sempre são as mesmas que se vendem em qualquer mercado do país. Se quer azeitonas, prove primeiro: as boas têm uma carnudidade firme, não são mossadas e não sabem a vinagre.
As compotas com etiquetas demasiado bonitas. Trabalho gráfico cuidado é, na minha experiência neste tipo de mercados, sinal de revenda. As boas compotas vêm em frascos reaproveitados com etiqueta autocolante manuscrita.
O que comer ao almoço, depois das compras
O mercado fecha por volta das duas. Antes disso, tem fome a sério. A cidade tem várias casas honestas no centro histórico onde se come bem por 12 a 15 euros, mas vou dizer-lhe a verdade que muitos guias não dizem: a melhor comida da Guarda raramente está nos restaurantes do centro junto à Sé. Está nas tabernas das traseiras, onde se almoça com motoristas de camião e funcionários públicos.
Procure pratos do dia escritos em ardósia. Cabrito assado ao Domingo (em sítios sérios, é cabrito mesmo, não é borrego barato), bacalhau à Beirã às sextas, e sopa de feijão e couve em qualquer dia. Beba o vinho da casa: a Beira Interior produz tintos honestos, e a casa cobra 4 ou 5 euros pela jarra.
Se está a almoçar para celebrar e quer subir um nível, há uma ou outra mesa séria perto da muralha. Não vou recomendar nominalmente porque os menus mudam e arrependo-me sempre que ponho um nome num guia que depois fica desactualizado: pergunte ao senhor que vende o queijo onde ele almoça aos Sábados. Vai ouvir a verdade.
Misturar mercado com cultura: a tarde
Depois do almoço, sem pressa, faça uma volta a pé pela cidade. A Guarda compacta-se à volta da catedral, e em duas horas vê o essencial. Recomendo três paragens.
Primeiro, o Museu da Guarda, instalado num antigo seminário. Tem peças que contam a história desta cidade fronteiriça desde a pré-história até ao século XX, com uma colecção de arte sacra que é melhor do que se espera de uma cidade deste tamanho. Não é o Louvre, mas é a uma escala humana e ganha-se contexto para tudo o resto.
Segundo, o Museu de Tecelagem dos Meios, para fechar o ciclo daquilo que viu na lã do mercado e nas mantas do Maçainhas. Aqui percebe-se que a Guarda foi durante séculos uma cidade de têxteis, e que muito do património da Beira passa pela mão das tecedeiras.
Terceiro, suba à Torre de Menagem, o que sobrou do castelo. A vista do alto, num dia limpo, abre-se sobre a Serra da Estrela a sul e os planaltos da Beira a norte. Não é uma vista bonita no sentido edulcorado: é uma vista austera, larga, que explica porque é que esta cidade existiu como praça-forte na fronteira durante oitocentos anos.
Se ficar mais um dia
A Guarda é boa base para a serra. Se gosta de andar a pé, considere uma caminhada na zona de Folgosinho: paisagem rural pura, aldeias de granito a sério, e silêncio que, a 1300 metros de altitude, é uma coisa diferente do silêncio de cidade.
Se anda a planear roteiros mais longos por Portugal, posso indicar outras leituras nesta linha de guias práticos e francos: temos o guia honesto dos trilhos de Caldas da Rainha, o guia honesto da Queima das Fitas de Coimbra, e o guia honesto da peregrinação a Fátima a 13 de Maio. Servem como modelo para quem quer viajar pelo país sem cair nos clichés do costume.
Logística mínima
- Como chegar: A Guarda tem estação de comboios na linha da Beira Alta (ligação directa de Lisboa em cerca de 4h, do Porto em cerca de 4h30 com mudança). De carro, fica na A23 ou na A25, três horas de Lisboa, duas e meia do Porto.
- Estacionamento: há parque pago perto do Mercado Municipal e estacionamento gratuito a cinco minutos a pé, junto ao parque urbano.
- Roupa: mesmo no Verão, traga um casaco para o início da manhã. A 1056 metros, o vento corta às oito da manhã mesmo em Agosto.
- Dinheiro: os pequenos produtores preferem dinheiro vivo. Tenha notas pequenas e moedas. Multibanco a duzentos metros do mercado.
- Sacos: leve sacos de pano grandes. Os de plástico do mercado são frágeis e o queijo pesa.
Faça-se uma vez. Comece às oito, prove de tudo o que lhe oferecerem, compre meio quilo de queijo, um frasco de mel, uma farinheira, e um pão com chouriço. Almoce numa taberna sem nome, suba à Torre de Menagem, e à tarde escolha entre museu e serra. Volta a casa cansado, com um saco pesado e a sensação, rara, de ter visto uma cidade portuguesa pelos olhos de quem cá mora.