Arraiolos Para Lá do Tapete: Castelo, Convento e Mármore
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Arraiolos Para Lá do Tapete: Castelo, Convento e Mármore

· · Arraiolos

Quase toda a gente vai a Arraiolos comprar tapete e parte ao fim da manhã. É um erro. Há um castelo redondo no cimo do cabeço, um convento com azulejos de Oliveira Bernardes, e a trinta minutos as pedreiras de mármore do triângulo Vila Viçosa-Borba-Estremoz. Esta é a versão sem o tapete.

Toda a gente vai a Arraiolos pelo tapete. Compra-se, fotografa-se, leva-se para casa enrolado num saco de pano, e parte-se a meio da tarde rumo a Évora. É um erro. Não pelo tapete em si, que merece todas as honras, mas porque sair de Arraiolos sem subir ao castelo redondo, sem espreitar o Convento dos Lóios, e sem desviar trinta quilómetros para os fornos de mármore de Estremoz e Vila Viçosa é desperdiçar uma das geografias mais teimosamente próprias do Alentejo Central.

Esta é a versão sem o tapete. Ou melhor: a versão em que o tapete é uma desculpa para ficar mais tempo.

O castelo que não devia existir (e mesmo assim existe)

Há castelos por todo o lado em Portugal, mas o de Arraiolos é uma esquisitice arquitectónica. É redondo. Não quadrangular com torres nos cantos, não trapezoidal a aproveitar o relevo: redondo, como um anel posto no cimo de um cabeço, com a igreja matriz a espreitar por dentro como se tivesse sido lá deixada por engano. Manda a tradição que se diga que foi inspirado em modelos árabes, e há historiadores que discordam, e a verdade é que ninguém olha para uma planta circular do século XIV e fica indiferente.

Suba a pé desde o Largo do Município. São dez minutos, talvez quinze se parar a tirar fotografias, e o que vai encontrar lá em cima é uma muralha baixa, um pátio com oliveiras e uma vista que vale a subida sozinha: a planície alentejana a abrir-se em todas as direcções, salpicada de azinheiras e de manchas brancas que são casas e por vezes cisternas e por vezes nada. A entrada no Castelo de Arraiolos é, à data desta visita, gratuita, mas confirme localmente porque estas coisas mudam. Vá ao fim da tarde, idealmente uma hora antes do pôr do sol, quando a luz fica cor de tijolo e os turistas de autocarro já partiram para o jantar em Évora.

Não há cafetaria lá em cima. Não há loja de souvenirs. Há vento, pedra e o som distante de cães a ladrar nos quintais lá em baixo. É exactamente isso que faz com que valha a pena.

O detalhe que ninguém repara

Dentro do recinto amuralhado, a Igreja do Salvador é fácil de ignorar porque está em obras com mais frequência do que aberta. Se a apanhar aberta, repare nos azulejos seiscentistas do coro alto. Se a apanhar fechada, sente-se à porta. Há uma pedra rasa, à direita, onde os locais sentam as crianças para fazerem o lanche. Em Arraiolos quase tudo se faz devagar.

O Convento dos Lóios: a outra surpresa

A cerca de um quilómetro do centro, descendo na direcção de Pavia, está o Convento dos Lóios de Arraiolos, fundado no século XVI pelos Cónegos de São João Evangelista, a mesma ordem que ocupou o convento gémeo em Évora hoje transformado em pousada. Aqui também houve pousada, durante anos, e há agora um projecto de reabilitação que tem aberto e fechado conforme a fase. Mesmo do lado de fora, vale a paragem: a igreja conventual tem uma fachada sóbria que esconde um interior com azulejaria de António de Oliveira Bernardes, dos mais espectaculares do país, com cenas hagiográficas que cobrem as paredes do chão ao tecto.

Pergunte na recepção (ou na junta de freguesia, se estiver fechada) se é possível visitar. Em alturas mortas da semana, é frequente alguém com a chave aparecer em vinte minutos. Em Agosto, esqueça: ou compra bilhete oficial ou fica pela fachada.

Há aqui um conselho que vale ouro: leve garrafa de água. Não há fontes pelo caminho e o estacionamento é num descampado sem sombra. Se for de carro, deixe o ar condicionado a refrigerar antes de sair, porque o regresso a pé é uma fornalha entre Maio e Setembro.

O tapete que não ia mencionar (e afinal menciono)

Está bem, falemos do tapete. Não porque seja inevitável, mas porque ignorá-lo seria mau jornalismo. O tapete de Arraiolos é Património Cultural Imaterial e é genuinamente diferente de tudo o que se faz noutro lado: ponto cruzado oblíquo sobre tela de juta, lã tingida, padrões que vão do mudéjar ao folclórico oitocentista. O problema é que metade das lojas no Largo Lopo de Carvalho vende coisas feitas em fábrica ou, pior, importadas.

A regra simples: se o preço por metro quadrado parece bom demais, é. Um tapete feito à mão em Arraiolos, com lã portuguesa e desenho tradicional, custa centenas de euros por metro quadrado, não dezenas. Pergunte sempre se pode ver alguém a bordar. As casas a sério mostram. As outras mudam de assunto.

Se quer mesmo perceber o que está a comprar, faça antes uma das experiências de bastidor. O Fio do Tempo: Uma Masterclass de Tapeçaria de Arraiolos é a versão imersiva, com várias horas a aprender a manejar a agulha, a ler um padrão e a perceber porque é que uma camisola de lã da serra de Mértola dá um tapete diferente de uma de lã industrial. A versão mais curta e directa é o Workshop de Tapetes em Arraiolos com Artesãs Locais, onde se senta com mulheres que fazem isto há quarenta anos e que vão dizer-lhe, sem rodeios, se o seu primeiro ponto cruzado está direito ou torto. Saia de lá com um pequeno quadrado bordado por si. Vale mais do que qualquer souvenir.

Onde comer (e o que pedir)

Arraiolos não é uma capital gastronómica. É uma vila pequena com meia dúzia de tascas que se sustêm com clientela local e o passageiro do turismo. Há dois conselhos sólidos.

Primeiro: ao almoço, peça migas alentejanas. Não a versão refinada de Évora, com filetes e enfeites, mas a versão de tasca, com carne de porco frita por cima e a gordura a embeber o pão. É a coisa mais alentejana que pode pôr na boca em Arraiolos. Acompanhe com tinto da casa. Não pergunte muito sobre a denominação de origem; nesta zona, o vinho de pasto é frequentemente melhor do que o engarrafado.

Segundo: ao jantar, se for em época de caça, peça lebre à caçador ou perdiz estufada. Fora de época, vá de bacalhau dourado, que é uma das versões menos heróicas mas mais reconfortantes do bacalhau, e fica bem com um copo de Pêra-Manca tinto se a carteira aguentar (ou um Cartuxa, se preferir o meio termo).

Doces: encharcada e sericaia. A sericaia idealmente com ameixa de Elvas em calda, que é o que se faz a sério. Se vir sericaia sem ameixa ao lado, mude de pastelaria.

Para além de Arraiolos: as aldeias do mármore

É aqui que muita gente perde a paciência e volta para Évora. Não faça isso. A trinta minutos de carro para nascente começa o triângulo do mármore: Vila Viçosa, Borba e Estremoz. Esta é uma das paisagens industriais mais surreais da Península Ibérica: enormes pedreiras a céu aberto onde o mármore branco, rosa e amarelo é cortado em blocos do tamanho de contentores marítimos. Há miradouros oficiais, mas o melhor é simplesmente conduzir devagar pela N4 entre Borba e Vila Viçosa e parar onde a vista impressionar mais.

Vila Viçosa é onde fica o Paço Ducal dos Braganças, sede dos últimos reis de Portugal antes da implantação da República. A visita é guiada, demora cerca de hora e meia, e mostra-se o quarto onde D. Carlos dormiu a noite antes de ser assassinado em Lisboa em 1908. A história está toda lá, materializada em pratas, retratos e papel pintado a desbotar. Confirme horários e preços localmente; estes têm mudado nos últimos anos.

Borba é menos protocolar e mais vinho. Faça a Estrada do Vinho, pare em duas adegas, prove sem comprar se não quiser, e siga. As tabernas no centro de Borba servem petiscos por meia dúzia de euros e o ambiente é genuíno, não cenográfico.

Estremoz, ao domingo de manhã, tem o mercado da praça do Rossio Marquês de Pombal. Vai encontrar bonecos de barro estremocenses, queijo de Évora curado, enchidos, hortaliças e um número assustador de pessoas a discutir o preço do feijão. É um dos mercados rurais mais bem conservados de Portugal. Chegue antes das dez.

Dormir: ficar ou seguir?

Honestamente: para uma única noite, fique em Évora, que tem mais opções e melhor jantar. Para duas ou mais noites, vale a pena dormir num agroturismo nos arredores de Arraiolos ou Évoramonte. Há uma meia dúzia de monte-hotéis a preços razoáveis fora de Julho e Agosto. Em Agosto, multiplique tudo por dois e reserve com meses de antecedência, ou então fique em pousadas mais a norte.

Se está disposto a alargar o raio, pondere subir mais a norte para o distrito de Portalegre, onde a Serra de São Mamede muda tudo. As temperaturas baixam, a paisagem fica mais verde, e a comida ganha influências beirãs. Para um itinerário sério, vale a pena cruzar a nossa proposta de fim de semana em Portalegre sem armadilhas para turistas, ou se quer pormenor ao nível do bairro, o roteiro a pé pelos bairros de Portalegre. E para almoço e jantar, confie em onde os locais comem em Portalegre em vez de seguir a primeira recomendação do hotel.

Como chegar e como circular

De Lisboa, são cerca de 130 quilómetros pela A6, saindo em Vendas Novas ou Montemor-o-Novo e seguindo depois pela N4 ou N370. Calcule uma hora e quarenta. De Évora são vinte minutos. De Faro, no Algarve, são quase três horas, o que significa que se está a fazer Algarve-Alentejo num só dia, vai chegar a Arraiolos depois das três da tarde, ou seja: tarde demais para o castelo bem visto. Planeie melhor.

Sem carro, é difícil. Há autocarros da Rede Expressos que ligam Lisboa a Arraiolos, mas com frequências limitadas e horários que não conversam bem com o resto do Alentejo Central. Para o triângulo do mármore, esqueça transportes públicos: ou alugue carro em Évora ou contrate transfer privado.

Quando ir

Evite Julho e Agosto se puder. Não é por causa dos turistas, que são poucos; é por causa do calor, que regularmente passa os 40 graus à sombra, e em Arraiolos a sombra é um privilégio. Maio e Junho são ideais: a planície ainda verde, as cegonhas nos ninhos das chaminés do convento, os dias longos. Outubro é a outra janela boa, com a vindima já feita, as tabernas a abrir vinho novo, e a luz a cair em ângulos quase italianos sobre o castelo.

O Inverno é frio mas bonito. Janeiro e Fevereiro são meses de lareira nas tascas, sopa de cação, e silêncio absoluto nas ruas a partir das nove da noite. Se gosta de aldeias vazias, é a melhor altura.

O que levar para casa (se não for um tapete)

Se decidiu que o tapete fica para a próxima, há alternativas inteligentes. Uma almofada bordada em ponto de Arraiolos pelas mesmas artesãs custa entre 60 e 150 euros e cabe na mala de cabine. Lã virgem em meadas, para quem tricota, vende-se em algumas oficinas. Bonecos de Estremoz, em barro pintado à mão, são Património Imaterial da UNESCO e vão de 15 a várias centenas de euros consoante o ceramista. Queijo de Évora curado, ameixa de Elvas em calda, mel da Serra de São Mamede: tudo vácuo, tudo embarcável.

E se levar mesmo um tapete, leve um pequeno. Um tapetinho de cabeceira, 60 por 90 centímetros, feito por uma artesã que conheceu e cujo nome sabe. Vai durar cinquenta anos. O preço será sério mas é uma das poucas compras turísticas que ainda fazem sentido nesta era de souvenirs de plástico made in elsewhere.

Arraiolos não se entrega em duas horas. Dê-lhe um dia inteiro. Dois, se puder. Deixe o castelo para o fim da tarde, almoce migas, perca-se um bocado nas ruas brancas, e saia de lá com a sensação de que o tapete foi, no fundo, o menos interessante do que aconteceu.

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