Arcos de Valdevez: Cinco Igrejas Românicas que Justificam a Viagem
Arcos de Valdevez tem cinco monumentos românicos espalhados entre aldeias onde os carros mal se cruzam. De Ermelo a Távora, um roteiro para quem prefere capitéis do século XII a filas de turistas.
Há uma razão para o românico do Alto Minho não ter a fama do românico catalão ou do vale do Boí. Não é falta de qualidade. É falta de estrada. Arcos de Valdevez fica a hora e meia do Porto por autoestrada, e depois é preciso meter por caminhos estreitos entre muros de granito e vinhas de enforcado até chegar a igrejas que estão ali há oitocentos anos sem que ninguém lhes tenha posto um painel informativo decente. E é exactamente isso que as torna extraordinárias.
Este roteiro liga cinco monumentos românicos no concelho de Arcos de Valdevez, mais um desvio obrigatório a Ponte da Barca. Um dia inteiro, bem aproveitado. Dois dias se quiser comer como deve ser e dormir na zona.
O Mosteiro de Ermelo: o que resta de Cister no vale do Lima
Comece pelo Mosteiro de Santa Maria de Ermelo, na margem direita do rio Lima. Foi fundado no início do século XII como cenóbio beneditino, possivelmente por ordem de D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, e adoptou a regra cisterciense no século XIII, filiando-se ao Mosteiro de Fiães em Melgaço. Foi secularizado em 1560 pelo Cardeal D. Henrique, e desde então ficou ali, quieto, classificado como Monumento Nacional mas sem o assédio turístico que isso normalmente implica.
O que sobrevive é a igreja e vestígios do claustro em ruínas. Na fachada, a rosácea românica é o elemento que mais salta à vista: era o ponto de luz da nave central no plano cisterciense original. No interior, o arco triunfal e os capitéis com motivos fitomórficos e geométricos são típicos do românico da bacia do Minho. A igreja teria originalmente três naves e cabeceira com três capelas quadrangulares, mas uma das naves colaterais foi suprimida ao longo dos séculos. Consegue ver-se, do exterior, o arco triunfal dessa capela desaparecida, o que dá uma dimensão quase arqueológica à visita.
Ermelo é uma aldeia pequena, encostada à encosta íngreme do Outeiro Maior. Não há café à porta do mosteiro, não há loja de souvenirs. Leve água.
Capela de São João Baptista da Comenda de Távora
A segunda paragem é a Capela de São João Baptista, na freguesia de Távora Santa Maria. Construída no século XII, tem no lintel do portal axial uma inscrição datada de 1190, o que a coloca entre os monumentos românicos mais bem documentados do concelho. Mas a história não acaba no românico: em 1269, a Ordem de Malta instalou-se aqui, transformando o lugar numa comenda. Por isso a capela também é conhecida como Capela de Malta ou Capela de Rodes.
Os capitéis decorados com elementos fitomórficos e zoomórficos são notáveis, e as colunetas das aberturas têm representações ligadas aos patronos da Ordem. Ao longo dos séculos XIV e XV houve alterações, e na fachada sul existem sarcófagos que acompanham o percurso da parede. O conjunto todo faz sentido: uma capela românica que foi sendo apropriada por ordens militares, e que carrega as marcas de cada camada de ocupação visíveis na pedra.
Igreja de São Bartolomeu de Monte Redondo
A Igreja Paroquial de São Bartolomeu de Monte Redondo é outra peça do foco românico da Ribeira Lima. Também do século XII, também com uma inscrição de 1190 no portal. O paralelo com Távora não é coincidência: há claramente uma lógica de construção simultânea nestas duas igrejas, provavelmente ligada ao mesmo impulso de organização paroquial e senhorial que marcou a região nessa época.
A igreja é mais modesta que Ermelo em escala, mas os elementos decorativos do portal merecem atenção. Monte Redondo é uma das freguesias dispersas do concelho, o que significa que vai conduzir por estradas onde dois carros mal se cruzam. Faz parte da experiência.
Mosteiro da Miranda
O Mosteiro da Miranda, construído entre o final do século XII e o início do XIII, é outro cenóbio beneditino que contribuiu para a expansão socioeconómica medieval da região. A estrutura românica da igreja original subsiste parcialmente: o plano era, tal como em Ermelo, uma igreja de três naves com cabeceira de três capelas quadrangulares.
O mosteiro fica na localidade de Miranda, a poucos quilómetros do centro de Arcos de Valdevez. Das quatro paragens puramente arcuenses deste roteiro, é talvez a que tem o contexto paisagístico mais dramático, encaixada entre montes e terrenos agrícolas que não mudaram muito desde a Idade Média.
Capela de Nossa Senhora da Conceição: a transição
No centro da vila, a Capela de Nossa Senhora da Conceição é o monumento religioso mais antigo de Arcos de Valdevez. A sua arquitectura marca a transição entre o românico e o gótico, o que a torna interessante como ponto de comparação com os edifícios puramente românicos que visitou antes. Aqui já se notam os arcos apontados e uma verticalidade que não existe nas igrejas anteriores. É uma boa forma de fechar o circuito no centro da vila, onde pode finalmente sentar-se a comer qualquer coisa.
Desvio obrigatório: São Salvador de Bravães
Se vai a Arcos de Valdevez pelo românico, não pode deixar de desviar a Ponte da Barca, a menos de 20 minutos de carro. A Igreja de São Salvador de Bravães é, por consenso, um dos melhores exemplos de românico em Portugal. O portal ocidental, com cinco arquivoltas decoradas, é de uma densidade escultórica rara: macacos, serpentes entrelaçadas, águias, e figuras humanas que representam a Virgem e o anjo Gabriel, algo invulgar no românico português.
A igreja remonta ao século XII, fundada como mosteiro beneditino por D. Vasco Nunes. O tímpano e os capitéis do portal são o ponto alto, mas o interior também tem elementos decorativos dos séculos XV e XVI que acrescentam camadas cronológicas à visita. Se tiver de escolher apenas um monumento românico em todo o Alto Minho, escolha este.
Comer em Arcos de Valdevez
Depois de um dia a olhar para capitéis do século XII, vai querer sentar-se a sério. A gastronomia de Arcos tem identidade própria. O prato a conhecer é a carne de cachena com arroz de feijão tarreste: a vaca cachena é uma raça autóctone do Alto Minho, pequena e de cornos enormes, e a carne tem um sabor mineral que não encontra noutras raças. O arroz de feijão tarreste é o acompanhamento canónico.
Outros pratos que encontra nos restaurantes locais: cabrito mamão da serra (só na época certa, Primavera), cozido à moda dos Arcos, rojões com papas de sarrabulho, e o arroz pica no chão. Para sobremesa, os charutos d'ovos são o doce conventual local: massa de hóstia enrolada com creme de ovos. Encontra-os na Doçaria Central, no centro da vila.
O restaurante Minho Verde, perto da Casa das Artes, serve comida caseira sólida. Se quiser algo mais ambicioso, o Foral de Valdevez, no Luna Arcos Nature Hotel, tem o chef Vasco Pombo a trabalhar a gastronomia minhota com mais técnica. Confirme horários e preços localmente.
Informação prática
De carro desde o Porto, conte com cerca de 1h15 pela A3 e depois A27. É a forma mais prática, especialmente porque os monumentos ficam dispersos pelo concelho e o transporte público entre eles é inexistente. Se não tiver carro, a RenEX faz a ligação Porto-Arcos de Valdevez em autocarro, com saída de Campanhã, duas vezes por dia. A viagem demora cerca de duas horas.
A melhor altura para fazer este roteiro é entre Abril e Outubro, quando os dias são longos e as estradas de montanha estão secas. No Inverno, a neblina no vale do Lima pode ser densa, o que tem a sua beleza mas complica a condução nos caminhos mais estreitos.
Alargar o roteiro pelo Alto Minho
Se estiver a montar uma viagem mais longa pelo Minho, Arcos de Valdevez combina bem com Ponte de Lima, que fica a 25 minutos. Em Ponte de Lima, além do centro histórico e da ponte medieval, pode experimentar passeios a cavalo pela margem do rio Lima, uma forma inesperada de ver o vale.
Barcelos, a cerca de uma hora para sul, é outra paragem que vale a pena combinar. Se viajar com família, o nosso guia honesto de Barcelos com miúdos poupa-lhe tempo e expectativas. Para quem prefere café a monumentos (ou os dois), temos um roteiro dos melhores cafés de Barcelos. E se gostar de museus, consulte o nosso guia sobre quais museus de Barcelos valem realmente a pena antes de entrar em todos.
O Alto Minho recompensa quem tem tempo e paciência para se perder. As igrejas românicas de Arcos de Valdevez não estão em nenhum top 10 do Instagram, e é por isso mesmo que a experiência de as descobrir, sozinho, numa manhã de névoa sobre o Lima, é das mais autênticas que Portugal oferece.