Açorda Alentejana em Portalegre: 4 Tascas de Família
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Açorda Alentejana em Portalegre: 4 Tascas de Família

· · Portalegre

Quatro tascas familiares em Portalegre que fazem açorda alentejana como deve ser, com poejo da serra de São Mamede, pão alentejano e ovo caseiro. Opiniões honestas, preços a rondar os sete euros, e os erros que vais cometer se não leres isto antes.

Há uma teoria que defendo com a teimosia de quem já comeu açorda má: a açorda alentejana não é uma sopa. Quem a serve em prato de sopa, com colher de sopa, e a chama sopa, não percebeu nada. É um caldo de poejo, alho esmagado no almofariz, azeite generoso, pão duro a engrossar, e um ovo escalfado a flutuar como uma promessa. Servir-se em terrina. Come-se com colher, sim, mas também com pão, com os dedos quase, com a paciência de quem sabe que aquilo arrefece e que arrefecer açorda é crime contra a humanidade.

Em Portalegre, esta noção continua viva. Não é uma cidade que se renda à modernização da cozinha. As tascas resistem, as donas continuam a fazer a açorda com poejo apanhado pela própria irmã, e os preços ainda não dispararam para níveis lisboetas. Boas notícias: ainda se come açorda alentejana a sério em Portalegre por menos de oito euros. Más notícias: nem todas as casas a fazem como deve ser.

Este guia é o resultado de uma obsessão pessoal: vasculhar Portalegre tasca a tasca à procura da açorda definitiva. Não encontrei uma. Encontrei quatro versões diferentes, todas defensáveis, todas com personalidade. Se preferes uma abordagem mais ampla à comida da cidade, lê este guia sobre onde os locais comem em Portalegre antes de planeares o fim de semana. Aqui, vamos só falar de açorda. E de quem a faz com amor.

Primeiro, uma defesa apaixonada da açorda

Se nunca comeste açorda alentejana, esquece tudo o que conheces sobre açordas. Não tem mariscos, não tem carne, não tem nada além de água, sal, alho, coentros ou poejo (depende da casa e da estação), azeite, pão e ovo. É a cozinha mais despida que Portugal sabe fazer. E quando está bem feita, é uma das coisas mais reconfortantes que vais provar.

A versão de Portalegre é mais rural do que a de Évora ou Beja. Há mais poejo (a hortelã-da-ribeira que cresce nos sítios húmidos da serra de São Mamede) e menos coentros. O alho é socado, não fatiado. O azeite vem da região, frequentemente de produtores pequenos. O ovo é caseiro. Se a tasca usar ovos de aviário, percebe-se imediatamente: a gema desmancha-se sem aquela textura cremosa que define a açorda boa.

Comer açorda em Portalegre é também comer uma paisagem. A serra de São Mamede produz o poejo, os olivais antigos dão o azeite, as galinhas das aldeias põem os ovos. Não há prato mais ligado ao território. Daí a importância de comer onde se faz a sério, não onde se faz para turistas.

As quatro tascas (com opiniões honestas)

1. Tasca do Lopes — a clássica

É a primeira que recomendo a quem chega a Portalegre pela primeira vez. Sem floreados, sem decoração turística, sem cartas em inglês. Mesas de fórmica, toalhas de papel, uma televisão ligada a um canal qualquer que ninguém vê. A açorda chega numa terrina partilhada para a mesa, mesmo que sejas só uma pessoa. Vais ter sobras. É assim que deve ser.

O que a distingue: o poejo. Trazem-no fresco diariamente, e nota-se. A primeira colherada tem aquele aroma a hortelã-da-ribeira que parece quase canforado. O ovo é escalfado em água a ferver mesmo antes de servir, nunca à parte. Pede pão extra, vais querer.

Quanto custa: à volta de sete euros pela dose. Vinho da casa, tinto da região, à volta de dois euros o copo. Não esperes refinamentos. Espera que te tratem como se estivesses em casa de uma tia.

2. O Tarro — a versão mais técnica

Se a do Lopes é a açorda como se fazia há cinquenta anos, esta é uma versão um bocadinho mais cuidada. Não é fine dining, longe disso, mas há uma atenção aos detalhes que se nota: o pão é mais bem escolhido, a temperatura de serviço é controlada, o ovo é sempre perfeito. Custa um euro ou dois mais que a média.

Vais comer melhor aqui? Depende do que valorizas. A açorda do Lopes tem mais alma rural, esta tem mais consistência. Eu vou às duas, dependendo do humor. Recomendo esta quando tens companhia que está a provar açorda pela primeira vez e queres uma versão sem rugosidades.

O que pedir além da açorda: a sopa de cação, se estiver no quadro do dia. E não percas o ensopado de borrego se for ementa de inverno. Reserva mesa ao fim de semana, especialmente ao almoço de domingo, ou ficas à porta.

3. Solar do Forcado — a açorda dos avós

Esta é a casa onde a açorda vem com a história. A senhora que cozinha está lá há décadas, e nota-se na consistência do prato. Não é a tasca mais bonita, não é a mais central, e o serviço pode ser brusco se houver muita gente. Mas a açorda é das mais íntegras da cidade.

O que adoro aqui: a forma como o pão se desfaz. Não fica papa, não fica em pedaços duros, fica naquele ponto intermédio em que cada colherada tem textura mas se desfaz na boca. Isso só se consegue com prática de décadas e com bom pão. O pão alentejano que usam é de uma padaria local, e dá para perceber pela alvéola e pelo sabor ligeiramente azedo.

Vai a meio da semana, ao almoço. Aos fins de semana enche-se de famílias e o serviço atrasa. Conta com cerca de oito euros pela dose, mais bebida.

4. Adega do Cantador — a opção noturna

As outras três fecham cedo. Esta serve até mais tarde, o que é uma raridade em Portalegre, onde o jantar tradicional acaba às nove e meia. Se chegares à cidade ao fim do dia e quiseres jantar açorda, é praticamente a única hipótese.

A versão deles é mais leve, com menos pão, mais caldo. Há quem prefira. Eu acho que perde um bocadinho do carácter rural, mas tem o seu mérito: cai melhor antes de dormir do que uma açorda compacta que te fica a pesar até de manhã. Pede também o queijo de Nisa, que costumam ter, e um copo de vinho da Serra de São Mamede.

Quando ir, como chegar, onde dormir

A época da açorda é todo o ano, mas o poejo está mais aromático na primavera e início do verão. Em pleno verão, com calor de quarenta graus, talvez prefiras outra coisa. Em janeiro, com humidade e frio, a açorda salva-te a vida. Outubro e novembro são, para mim, os meses ideais: já não está calor, ainda há poejo bom, e as tascas estão menos cheias do que no verão.

De carro, Portalegre é fácil: A6 até Estremoz, depois N18. De Lisboa, três horas em condições normais. De comboio, mais complicado, mas a viagem desde Entroncamento até Portalegre tem o seu charme. A estação fica afastada do centro, conta com táxi ou autocarro.

Para dormir, eu uso quase sempre o Rossio Hotel, que fica numa posição estratégica para ir a pé a qualquer uma das quatro tascas. É a melhor base na cidade se a tua viagem é gastronómica e queres voltar a casa sem complicações depois de almoço com vinho.

O que fazer entre refeições

Comer açorda ao almoço deixa-te sem energia para grandes caminhadas, mas Portalegre tem coisas que se fazem devagar e digerem bem o pão e o ovo. A minha sugestão para a tarde de um dia de açorda: visitar a Manufactura de Tapeçarias. É uma das raridades culturais do país, e está ali, à mão de semear. Aprofundei tudo neste guia da experiência das tapeçarias no Palácio Castelo-Branco: vais sair de lá com uma compreensão diferente do que esta cidade representa.

Se preferes uma tarde mais movimentada, há a maratona de museus por três euros, que te leva a três espaços diferentes pelo preço de um café. É a melhor relação qualidade-preço cultural que conheço em Portugal.

Para quem prefere caminhar a digerir, escrevi este guia sobre os bairros de Portalegre que valem a pena descobrir a pé. As subidas vão queimar parte do que comeste. As vistas valem o esforço.

Erros que vais cometer (e como evitá-los)

Primeiro erro: pedir açorda numa esplanada turística. Em Portalegre não há esplanadas turísticas a sério, mas há cafés que servem pratos do dia. Se vires uma carta com fotografias dos pratos, foge. Açorda boa não se fotografa bem. Açorda boa parece um prato de papa amarelada com qualquer coisa amarela a flutuar. Se está bonita, é porque foi montada para a foto, não para comer.

Segundo erro: misturar o ovo demasiado cedo. A graça é deixá-lo intacto, comer à volta, e quebrar a gema só a meio da refeição. Quando a gema rebenta, o prato muda. Fica mais cremoso, mais rico. Quem mexe tudo no início perde metade da experiência.

Terceiro erro: não pedir pão à parte. A açorda já tem pão dentro, sim, mas o pão alentejano é para limpar o prato no fim. Sem pão à parte, ficas com saudades.

Quarto erro: pedir vinho branco. A açorda de poejo aguenta tinto. Tinto da região, leve, sem ser pesado de mais. Um vinho da serra de São Mamede ou um Borba simples. Os garçons sabem o que serve. Pergunta.

Um fim de semana possível

Sexta à noite chegada, jantar leve no Cantador. Sábado de manhã, café num qualquer dos sítios da praça. Almoço no Lopes ou no Tarro. Tarde nas tapeçarias ou nos museus. Jantar mais sério se ainda tiveres fome. Domingo de manhã, mercado se for sábado, ou passeio pelos bairros altos. Almoço no Solar do Forcado para fechar com chave de ouro.

Se quiseres uma versão mais detalhada deste fim de semana, com horários e alternativas para chuva, escrevi este guia de um fim de semana real em Portalegre, sem armadilhas para turistas. Combina bem com este sobre as tascas: usa o de fim de semana para a estrutura, este para as refeições.

Última palavra

Portalegre não é uma cidade que se vende. Não tem o glamour de Évora nem a postal-perfect de Marvão. Tem uma serra atrás, fábricas fechadas, e uma cozinha que sobrevive porque quem a faz acredita nela. A açorda alentejana é parte central dessa identidade. Comê-la bem feita é uma das melhores razões para vir aqui.

Quatro tascas, quatro versões, quatro almoços. Vai a uma, vai às quatro, mas vai. E quando voltares, escreve-me a dizer qual achaste melhor. Eu mantenho que é a do Lopes. Mas estou aberto a discutir, se trouxeres argumentos e fome.

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