Visitar Solares de Torre de Moncorvo: A Rota do Património
Marca-se na Loja Interativa de Turismo, na Rua dos Sapateiros, e em duas horas a guia abre as portas certas, do Solar do Barão de Palme à Igreja Matriz. Vinte e três pontos, séculos XIV a XVIII, e marcas de canteiro que só se veem se alguém disser onde olhar.
A primeira coisa que se nota em Torre de Moncorvo, depois de subir a Rua dos Sapateiros e olhar para cima, são as portadas. Caixilhos de cantaria lavrada, pedras de armas roídas pelo vento, sacadas de ferro forjado em que ainda se vê o desenho do ferreiro. Não é um palácio único, é uma vila inteira feita de casas senhoriais dos séculos XVII e XVIII, e o melhor que pode fazer aqui é uma coisa simples: marcar uma visita guiada na Loja Interativa de Turismo e deixar que alguém da terra abra as portas certas pela ordem certa.
O que é, afinal, esta visita
A chamada Rota do Património Histórico arranca na Loja Interativa de Turismo (LIT), na Rua dos Sapateiros, nº 15, mesmo no centro histórico. Não é uma empresa privada nem uma operadora turística: é o serviço de turismo da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, e funciona por marcação prévia. Telefona-se para 279 252 289 ou manda-se um email para [email protected] e combina-se a hora. Sem marcação, fica-se pela visita livre ao Museu do Ferro, que é o único espaço sempre aberto.
O percurso completo cobre 23 pontos de interesse arquitetónico, datados entre os séculos XIV e XVIII. Inclui solares, capelas, igrejas e edifícios civis. A pé, sem pressa, conta com cerca de duas horas. Se levar o passo de turista zeloso e parar em todos os portais, pode chegar às três.
Os solares que valem mesmo a pena
O ponto alto, para mim, é o Solar do Barão de Palme, hoje Museu do Ferro e da Região de Moncorvo. É um edifício setecentista de traça sóbria, com escadaria exterior e varanda coberta, e o interior foi adaptado a museu sem destruir a sala nobre. As peças contam a história da exploração do ferro na serra do Reboredo, mas o que muita gente esquece é que a casa em si é metade da visita: o piso de madeira range nos sítios certos, o tecto da escada tem moldura de gesso original, e há uma janela do andar nobre onde o sol da tarde cai num retângulo perfeito sobre o chão.
A seguir, há a Basílica Menor de Nossa Senhora da Assunção, que é a Igreja Matriz e o maior templo religioso de Trás-os-Montes. Não é solar, mas faz parte da rota e justifica os dez minutos extra. O pórtico renascentista da fachada principal é mais delicado do que se espera de um interior tão grande. A Igreja da Misericórdia de Moncorvo, do século XVI, tem um portal ladeado por dois medalhões com São Pedro e São Paulo que vale a pena olhar de perto, porque a fotografia nunca capta a profundidade do baixo-relevo.
Pelo caminho, vai passar por outros solares que continuam habitados. Não se entra. Não tente, não vale a pena insistir. O que se vê do exterior já é muito: pedras de armas dos Carvalho e Castro, dos Pimentel, dos Sá Vargas. A guia (são quase sempre mulheres, da terra, que conhecem as famílias por dentro) sabe quem morou onde e quem ainda mora. Esse é o tipo de informação que não está em nenhum livro.
Quando ir, e por que a manhã é melhor
A rota faz-se durante todo o ano, mas o Verão em Moncorvo bate forte. Em Julho e Agosto, a partir das 11h00 a pedra começa a devolver calor e as ruas estreitas tornam-se um forno. Marque a visita para as 10h00 ou para o final da tarde, depois das 17h00. No Inverno é o oposto: a manhã pode ter geada, e a luz boa só chega depois das 11h00.
A época que toda a gente recomenda é Fevereiro/Março, com as amendoeiras em flor. É verdade que a paisagem em redor compensa a viagem, e há quem combine a rota dos solares com o passeio pelas amendoeiras. Mas atenção: nesse período, a LIT recebe muitos pedidos e convém marcar com pelo menos uma semana de antecedência. O mês de Março é particularmente intenso.
Detalhes práticos
- Calçado: o centro histórico é todo em calçada portuguesa antiga, com pedra polida pelos séculos. Saltos altos não. Ténis com sola firme ou sapato de caminhada baixo, sim.
- Roupa: para entrar nas igrejas, ombros e joelhos cobertos. Sweater leve para os interiores frios, mesmo no Verão.
- Duração: cerca de duas horas para o circuito principal. Se tiver fôlego para os 23 pontos, contar três.
- Acessibilidade: o centro histórico tem ruas em declive e degraus. Não é um percurso adaptado a cadeira de rodas.
- Idiomas: as visitas são em português; inglês está geralmente disponível, mas confirme no momento da marcação.
- Preço: confirme diretamente com a Loja Interativa de Turismo. As taxas dos museus municipais são simbólicas.
Onde ficar e onde comer no fim
Depois da rota, a recompensa é a mesa. Aproveite que está no centro e procure uma casa de comida tradicional. Já escrevi sobre onde a mesa transmontana ainda resiste, e mantém-se válido. Se ficar uma noite, há turismo de habitação na própria vila, em casas que pertencem ao mesmo património que acabou de visitar, o que muda completamente a forma como se dorme.
O detalhe que ninguém conta
Há uma coisa que descobri na terceira visita e que continuo a achar o melhor truque do roteiro: peça à guia para apontar as marcas de canteiro nas pedras de cantaria dos solares. São pequenas marcas geométricas, em forma de cruz, de seta, de letra, gravadas pelos pedreiros medievais e dos princípios da idade moderna para identificar o seu trabalho. Estão à vista de toda a gente, em ombreiras e cunhais, mas só se vêem se alguém disser onde olhar. Depois disso, deixa de andar por uma vila bonita e passa a andar por uma assinatura colectiva, com nome e mão de quem partiu cada bloco.
Como chegar
Torre de Moncorvo fica no Douro Superior, a cerca de 100 km do Porto pela A4 e A24. De carro é fácil. De transportes públicos é mais complicado: há autocarros da Rede Expressos a partir do Porto e de Lisboa, mas a frequência é reduzida. Se vier no comboio da Linha do Douro até ao Pocinho, depois precisa de táxi ou de transporte combinado, porque a estação fica a cerca de 17 km do centro da vila.
Estacione na zona baixa, junto ao Largo do Município, e suba a pé. Subir é parte da experiência. Conduzir pelas ruas estreitas do centro histórico é um exercício de stress que pode poupar a si mesmo.